Queres ver que o FMI não vem?

Os mercados acreditam bastante menos nos resultados da intervenção do FMI. Basta ver as taxas de juro que Irlanda e Grécia continuam a pagar.

Querem ver que afinal o FMI não vem? Pois é. Para todos, cá dentro e lá fora, que têm escrito ou dito que o acordo está feito e que os homens do Fundo estão prestes a desembarcar no aeroporto da Portela, os últimos sinais não são encorajadores. Em primeiro lugar, a emissão de dívida desta semana correu bem. A procura superou de novo largamente a oferta, a esmagadora maioria veio do estrangeiro e, em relação ao leilão anterior, os juros desceram 0,3 pontos a um ano e 0,7 pontos a meio ano, mantendo-se a tendência descendente. Dir-se-á: é da expectativa em relação à remodelação do Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Ou da crise no Médio Oriente e Norte de África, que nos tira dos holofotes da imprensa internacional. Dir-se-á: mesmo assim, juros acima dos 6% nos prazos mais longos (a cinco e dez anos) continuam a ser demasiado elevados. E tudo somado viremos a pagar um elevado preço por isto: cerca de €5000 mil até ao final de 2013.

Dir-se-á: não estamos a coberto de novas surpresas negativas. E se a execução do Orçamento do Estado derrapa? E se a chanceler alemã Angela Merkel volta a reafirmar que os países periféricos têm de se virar por si e comer o pão que eles amassaram? Pois tudo é possível acontecer neste caminho estreitíssimo que estamos a trilhar. Mas que o FMI está mais longe, lá isso está.

Para isso, é necessário, claro, contar com uma forte conjunção dos astros. O primeiro ponto decisivo é que Alemanha e França reforcem os sinais que têm dado nas últimas semanas, ou seja, que perceberam que a estratégia de "salvação" individual de cada um dos países pressionados pelos mercados tem sido um desastre. Não só não se salvam, como os pedidos de ajuda que Grécia e Irlanda fizeram não pararam a pressão especulativa que se passou a centrar sobre novas presas. Se Berlim e França mudaram efectivamente a sua percepção sobre a estratégia a seguir, então é provável que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira possa ter uma acção muito mais directa e decisiva na compra de dívida pública dos países ameaçados, contribuindo para a redução drástica das taxas de juro. E o segundo ponto é que a execução orçamental seja cumprida de forma draconiana. Bem podem os juízes, os sindicatos, as escolas privadas ameaçar, fazer campanhas na rua, avançar para os tribunais. Se o Governo ceder aos sucessivos interesses que vão resistir a estas medidas de austeridade, então o Orçamento não será cumprido e a paciência da Alemanha e Bruxelas para connosco acaba no mesmo instante. Nesse dia, aterram em Lisboa os homens do FMI e faremos tudo o que se está a tentar fazer - e mais umas quantas coisas que não nos vão agradar de todo.

Última nota: a crise mostrou que os mercados acreditam bastante menos nos resultados da intervenção do FMI. Basta ver as taxas de juro de longo prazo a que é transaccionada a dívida pública de Irlanda e Grécia (à volta de 9% e 10% respectivamente). Ou os receios de que os dois países entrem em incumprimento da sua dívida externa. Não se vendo claramente o que Atenas e Dublin ganharam com os pedidos de ajuda que fizeram, não se percebe porque tantos notáveis do reino continuam a insistir que seria preferível pedirmos ajuda ao FMI. Ou melhor, percebe-se muito bem. Mas isso nada tem que ver com a situação económica.

Nicolau Santos [Expresso]



Publicado por JL às 23:48 de 13.02.11 | link do post | comentar |

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