Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Bruxelas em estado de choque

É preciso ler um jornal irlandês para ficarmos a saber como reagiu a liderança neoliberal europeia ao programa e à campanha eleitoral do principal partido da oposição na Irlanda, o Fine Gael. Se passar a chefiar o governo como indicam as sondagens, o Fine Gael (centro-direita) quer que Bruxelas reduza substancialmente a taxa de juro da "ajuda" que recebeu do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (em média 5,8%) e, se tal não for concedido a curto prazo, decidirá unilateralmente uma reestruturação da dívida de dois bancos que foram nacionalizados e afundaram as finanças públicas da Irlanda. Tal "corte" atingiria em cheio bancos ingleses e alemães. Chocante!

É uma forma de lidar com a austeridade selvagem imposta por Angela Merkel que devia fazer reflectir os restantes países da periferia da UE. Mas parece que por cá se prefere a diplomacia do "bom aluno" para ir à boleia do que se vier a decidir sobre o Fundo e as condições impostas à desesperada Irlanda. Em vez da acção concertada da periferia, temos o "cada um por si". O pior dos cenários.
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Publicado por Xa2 às 13:07 | link do post | comentar

3 comentários:
De Manifestações e Políticas de Esquerda a 16 de Fevereiro de 2011 às 14:36
Com o desemprego a subir e as coisas a näo melhorar para as pessoas normais, correr-se-ia o "risco" de ser a Esquerda a governar a curto prazo, o que nunca aconteceu na Irlanda.

Logo, para conter isso até os democratas cristäos/centro-direita (FG) se lembram destas medidas muito sensatas, ou na versäo de Bruxelas, "comunistas".


De DD a 16 de Fevereiro de 2011 às 19:36
O caso da Irlanda como o da Islândia é diferente do português. Na Irlanda as finanças públicas estavam em ordem, os bancos é que captaram empréstimos no exterior sob a forma de venda de ativos que prometiam juros imensos. Por isso, a Irlanda estava transformada num Madox ou Dª Branca gigantesco, gerindo em fins de 2009 ativos financeiros no valor de 1394,3% do seu Pib . Esses ativos estavam aplicados em produtos tóxicos americanos e em muitas operações de leasing na navegação e na aviação. Os aviões de muitas low cost e outras companhias fracas eram alugados às empresas irlandesas pertencentes a bancos ou aos seus clientes através de ativos e outra papelada financeira. Foi isso que ruiu e o Estado irlandês pretendeu salvar essa banca e está a ser arrastado para o precipício. A maior parte dos estrangeiros que colocaram o seu dinheiro nesses ativos perderam-no, mas o Estado acalenta a esperança de poder um dia devolver esse dinheiro e recomeçar o negócio da especulação.
Curiosamente, a precariedade desse negócio veio descrita num artigo nos "Cadernos de Economia" por um economista irlandês. Nesse mesmo número veio um artigo escrito por Cavaco Silva e foi na altura em o Sr. Silva elogiava a Irlanda com um máximo dos máximos. Não acredito que não tivesse lido o artigo do irlandês.
Se formos a calcular hoje o PIB irlandês, já não é o mesmo pois esse negócio bancário acabou e criou muito desempregado.
No tão elogiado Luxemburgo passa-se secretamente quase o mesmo, tendo o estado e os seus bancos aguentado a crise apesar de gerirem ativos da ordem dos 1.66,4% do seu Pib (31.12.2009).
Estes Pibs muito elevados que causavam tanta inveja aos nossos doutos economistas eram na verdade Pibs de papel e as economias cresciam na base do papel embrulhado na mais desenfreada especulação.
Em fins de 2009, os ativos financeiros mundiais ultrapassavam os 400% do Pib mundial, cujo valor é hoje muito mais baixo.
O papel foi uma maneira de fazer acreditar que certas economias cresceram muito e os salários de escravatura é outro dos modos de criar falsos crescimentos económicos.


De DD a 16 de Fevereiro de 2011 às 19:43
Correção: O Luxemburgo geriam em fins de 2009 ativos financeiros da ordem dos 1.466,4% do seu Pib conforme nos relata o número especial da revista francesa "Alternatives Economiques" denominado "Les Marchés Financiers".
Esta revista de esquerda desmascara muitas aldrabices dos países europeus que os portugueses acreditavam religiosamente como verdades absolutas.
Ainda vou escrever aqui um post sobre a miséria na Alemanha.


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