Nuclear
por Andrea Peniche

 

 Os defensores da energia nuclear argumentam que Chernobyl só foi possível porque a tecnologia e as normas de segurança soviéticas eram miseráveis. Estes argumentos levar-nos-iam a supor que nas democracias capitalistas o risco de desastre nuclear seria praticamente inexistente. É caso para perguntar: como é possível que o Japão, um dos países tecnologicamente mais avançados do mundo, esteja a braços com uma catástrofe nuclear?

 «As doses de radiação poderão ser potencialmente letais num curto espaço de tempo», diz Gregory Jaczko, presidente da Comissão Reguladora da Energia Nuclear norte-americana; a contaminação radioactiva espalha-se já por um raio de 80 quilómetros.

    A verdade é que nem a tecnologia mais avançada nem as mais rigorosas normas de segurança são capazes de garantir o risco zero. Os riscos podem ser minimizados, mas não podem ser totalmente eliminados.

   Fukushima relançou a questão da energia nuclear, nomeadamente na Europa. Os governos europeus, de uma forma geral, têm tentado passar a ideia de que o desastre de Fukushima está circunscrito e não assume proporções dramáticas. O ministro francês da Indústria, Eric Besson, referiu-se a estes acontecimentos como «um acidente grave, mas não uma catátrofe nuclear»;  o Secretário de Estado Chris Huhne disse que o que aconteceu no Japão não tem paralelo com a situação britânica, em virtude de aqui a actividade sísmica ser muito menor; o editorial de um jornal belga comparava o número de vítimas do tsunami com as da fuga radioactiva.

   Esta comparação é absurda não só porque o número de vítimas de um desastre nuclear se conta ao longo dos anos, mas também porque se compara um acidente natural, inevitável, com uma catástrofe perfeitamente evitável e de origem humana. Juntando a tudo isto as várias denúncias de falsificação de dados sísmicos (Sortir du Nucléaire), percebe-se facilmente que o objectivo deste discurso é evitar uma nova mobilização anti-nuclear.

 

Os argumentos do lobby nuclear são inaceitáveis e escondem o fundamental: a energia nuclear tem capacidade para destruir toda a humanidade.

Há dias conversava com um amigo meu, designer, que me falava de uma discussão em que tinha participado sobre que símbolos criar, para sinalizar cemitérios e depósitos de resíduos nucleares, de forma a garantir que estes fossem compreensíveis daqui a uns milhares de anos.

 

O debate em torno da opção nuclear é um debate eminentemente político, já que é de uma escolha de modelo de civilização que se trata. O grande desafio da humanidade, como diz Daniel Tanuro, é acabar simultaneamente com a energia nuclear e com o recurso a combustíveis fósseis. Ora, isto implica não apenas enormes investimentos em soluções eficientes, mas também a diminuição do consumo energético, principalmente nos países mais desenvolvidos.

    Em última análise, este projecto reclama um outro compromisso económico, social e político, uma vez que, como diz o economista Paul Sweezy, «não havendo nenhuma maneira de aumentar a capacidade do ambiente de suportar os fardos (económico e demográfico) colocados sobre ele, resulta que o ajuste deve vir inteiramente do outro lado da equação. E uma vez que o desequilíbrio já atingiu proporções perigosas, também se segue que o essencial para o êxito é uma reversão, não simplesmente um abrandamento, das tendências subjacentes nestes poucos séculos passados».



Publicado por Xa2 às 14:07 de 21.03.11 | link do post | comentar |

2 comentários:
De .Progressismo. a 21 de Março de 2011 às 16:03
Progressismo
- J.L. Pio Abreu, Destak, 17.03.2011

No tempo em que lutávamos contra a ditadura, as forças de esquerda também se chamavam progressistas.
Acreditava-se então que o progresso traria a democracia, que o desenvolvimento científico e tecnológico seria colocado ao serviço dos humanos, que o desenvolvimento económico faria os povos mais livres e cultos, e que estes tenderiam a organizar-se no respeito pelos seus semelhantes e pela própria natureza.

Não tínhamos previsto que tudo evoluísse muito mais depressa do que a capacidade de adaptação humana.
Que os humanos ficassem limitados pelas suas línguas e culturas, enquanto a globalização criaria um conjunto de líderes mundiais apenas preocupados com o seu proveito.
Nos mercados, com a sua especulação, na destruição da natureza que tentavam transformar, no imediatismo da procura de energia barata.

A submissão da política aos mercados financeiros globais, a criação de maiores assimetrias, as ditaduras feitas pela posse dos bens estratégicos, a revolta dos povos e as guerras civis, os desastres ecológicos e a explosão das centrais nucleares são hoje a consequência desse progresso de tal modo acelerado que não teve tempo de ser pensado.

O mundo está trágico e caótico, apelando a que este progresso pare um pouco.
Chegou-se ao fundo dos átomos e dos genes, mas aqueles que os manejam não ultrapassaram ainda a vivência tribal.
Neste estado, o único progresso que faz sentido é o da fraternidade humana. Da cultura, do amor, da compaixão.


De .. a 21 de Março de 2011 às 16:16
-------- o seu artigo é a expressão da realidade em que a maior parte da espécie humana vive, derivado à ambição desmedida de uma minoria de privilegiados que vive na opulência e de barriga cheia.

Eu próprio fui vítima desta globalização, pois fui usurpado dos meus bens em África - onde nasci em 1935 -, avaliados hoje em cerca de 5 milhões de euros, conseguidos com muita trabalho, vivendo hoje sem qualidade de vida com uma pensão de 385,00 euros. sem poder ajudar 4 filhos, 7 netos e 4 bisnetos que tiveram em parte que emigrar para sobreviverem. Obrigado pelo seu artigo. R.S.
Rui Serrano | 18.03.2011

------- O capitalismo selvagem impera e os dirigentes Europeus não se consciencializam que nada evolui sem o Homem em si …
Enfrentando a contradição explanada... temos a sociedade de abundância Versus o empobrecimento da alma ...
Na Divina Comédia de Dante o autor reflecte começa a sentir piedade dos homens e mulheres, estes contorcendo-se de dor...

A força do dinheiro torna-se um problema e persegue ao longo das vidas e exerce uma pressão enorme que à sua maneira é tão poderosa e insistente como qualquer problema da existência humana ... condicionando-a...
o reino do ser que definha ...porque as nossas formas de relacionamento com a natureza, saúde, doença, educação, artes, justiça social, estão cada vez mais invadidas pelo factor dinheiro...

As malhas, com quais a tecnologia faz penetrar na nossas vida as energias e matérias da natureza podem ser bem vistas como algemas que nos prendem e tornam indispensáveis muitas coisas que podiam e deviam mesmo ser dispensadas ..colocando no fundo a sociedades à parte...

É o dinheiro é o que todos querem... A cultura moderna na importância que se dá ao instrumento do dinheiro epitomiza a atracção pelos meios e instrumentalismos...

O Progressismo .. a que assistimos é meramente a tecnologia sem ética que é resultado do conhecimento sem desenvolvimento do instrumento de percepção ética, os sentimentos ...

Conhecimento sem sabedoria ... no entanto é importante perceber que é mais importante sentir aquilo que se conhece, mesmo que seja só uma coisa, do que conhecer com a cabeça apenas, uma massa de teorias e factos...

Fizemos muitos progressos em relação ás culturas antigas, mas esquecemos este aspecto...
Quando se conhece apenas com a cabeça e não se integra nesse conhecimentos os sentimentos estão estamos defronte de um saber prejudicial para a Humanidade...

Como disse alguém há muito..." o espírito é para ver o que é verdadeiro; os sentimentos são para compreender o que é bom"...
Marluz | 18.03.2011

----- A União Sovietica, sem mercados, sem capitalismo e por isso sem empreendedorismo nem nível e qualidade de vida, foi responsável por mais catástrofes nucleares do que o resto do mundo.

Até com a ganância de produzir algodão no vasto deserto do Turquestão soviético, fizeram canais de irrigação que desviaram os caudais do Sirdaria e do Amudaria e com isso fizeram secar um mar, o Mar de Aral,
hoje em dia um rasto de morte e sal sob o sol quente do deserto, onde aqui e ali se vê um esqueleto de um navio abandonado a enferrugar.

A soviética Chernobil foi outro belo exemplo de sapiência ecológica e ambiental das sociedades comunistas, anti-mercado.

O cemitério nuclear de Murmansk, no norte. é outro exemplo de consciência ambiental comunista, residuos nucleares da marinha soviética a perder de vista, inundam a paisagem gelada e triste.

Realmente não há sustentabilidade e consciência ambiental como aquela onde a Bolsa de Valores não existia, o empresário era apenas uma personagem literária, e o mercado só tinha uma única marca, a marca do Estado Soviético.
JM | 18.03.2011

-------- Muito tem de ser repensado. Nem sempre o que parece é.
O Heidegger tem um conceito para esta relação entre "espaço" e "ser" que vale a pena ser repensado á luz da globalidade e do viver moderno, Dasein . Limitamo-nos a morrer um pouco , todos conscientes de que a morte é um limite próximo . O peso da imagem ,do riso que nos distancia do "real" e que nos manipula interiormente ...


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