A ENCRUZILHADA

O governo caiu e agora?

A angústia e a consciência, à mistura com o amor socialista, turvaram-lhe a vista e não lhe deixaram enxergar à realidade dos factos, impediram-lhe de entender as palavras, travaram-lhe a leitura do discurso, e não conseguiu ler o alcance das intenções. Afinal repetiu os mesmos erros que havia cometido quando não teve a coragem, porque não está na sua natureza, de ter feito as pazes com o seu velho amigo e companheiro de jornadas, Manuel Alegre, na corrida a Belém e ter tido uma atitude muito pouco nobre. Agora as lágrimas derramadas são insuficientes e demasiadamente tardias.

Conforme já abordei, num anterior post, que intitulei “Mário Soares: Entre a angústia e a ingenuidade”, Mário Soares foi, mais uma vez Ingénuo por ignorar, ou não ter percebido, a real intenção das referidas declarações produzidas por Cavaco Silva, no discurso da sua posse, quando se comprometeu a “exercer uma magistratura de influência activa.” Os factos vinham demonstrando quais eram as reais intenções do, efectivamente, líder da área ideológica neoliberal portuguesa. Essa e outras declarações do discurso de posse, como o já havia sido o da noite das eleições presidenciais foram, elas próprias, um claro exercício da influência activa visto que tais palavras, a partir momento em que foram ditas, impulsionaram Pedro Passos Coelho, PSD e toda a “família” neoliberalista sedenta de partilha das benesses que sempre se podem chupar do magro Estado.

Cavaco foi tão-somente o impulsionador dessa actividade, os multiplicadores passaram a ser, a partir daí, toda a oposição, com o PSD ao leme e que, paradoxal e estranhamente, nunca antes constatado no parlamento português, se uniu com o exclusivo intuito de derrubar o governo.

Cavaco Silva nunca esteve tão activo como está actualmente, ainda que se não oiça, se não veja e se não sinta. Ele é o Facebook. Ele anda por aí, está na queda do governo, vai estar na marcação das eleições, vai estar na escolha do próximo governo e até de alguns ministeriáveis.

É facto, não se pode nega-lo nem sequer omiti-lo, que tanto governo como o PS cometeram erros de palmatória e deram diversos tiros nos próprios pés.

O partido tornou-se inoperante e deixou-se enfiar numa promiscuidade de papéis tendo confundido o seu próprio com o da acção governativa. Os militantes ficaram ao abandono quase só contando a voz daqueles que orbitavam e orbitam em qualquer centro de poder. A máquina partidária foi absorvida e controlada, usando métodos antidemocráticos, por gente que se confunde com o exercício de cargos políticos em que os secretários de secções partilham as juntas de freguesia, os presidentes concelhios vão a secretários de Estado ou governam municípios, os presidentes federativos escolhem deputados  e fazem-se nomear para o governo ou ficam no governo de capitais de distrito e o próprio secretário-geral divide o tempos, preocupações e saberes entre as responsabilidades governativas e a condução dos destinos partidários.

Natural e compreensivelmente um caldo destes nunca poderá resultar num progresso sustentado tanto governativo como de aprofundamento da democracia. Uma miscelânea desta natureza aproveita e continuará a aproveitar a meia dúzia de oportunistas que se aproveitam das circunstâncias de cada momento e da falta de exercício de cidadania por parte da maioria dos cidadãos a começar pelos inscritos nos partidos que por acção ou omissão são coniventes com o actual estado de coisas, com a situação doentia em que caiu a democracia e com toda a panóplia de injustiças de que a sociedade sofre.

Somos arrastados para eleições, é certo, e o que é que daí vai resultar?

Alguém acredita que Bloco de Esquerda ou o PCP chegam ao arco governativo? E ainda que chegassem fariam melhor, nas presentes circunstancias em que o país se encontra?

Alguém acredita que o PSD, sozinho ou coligado com o CSD, ganhará as eleições? E se as vier a ganhar quem acredita que venha a ser, socialmente, mais justo na governação que foi ou poderá ser o PS?



Publicado por Zé Pessoa às 10:47 de 24.03.11 | link do post | comentar |

6 comentários:
De DD a 24 de Março de 2011 às 20:01
Segundo o "Statistic Warehouse" (Armazém de estatíticas" do BCE, os agregados monetários M1, M2 e M3 da Zona Euro sofreram uma redução entre Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011, o que traduz a ausência de emissão de moeda e a sua própria redução.
Segundo Paul Krugman, sem emissão de moeda não há crescimento e haverá mesmo recessão e é isso que está a acontecer na Zona Euro por influência da Alemanha que quer um Euro forte para comprar os países vizinhos que não têm o Euro.
Segundo o último Expresso, o salário mínimo da República Checa equivale a 319 euros e, naturalmente, os outros ordenados estão na proporção.
Isso permitiu à VW comprar a Skoda e muita coisa mais na Polónia, Hungria, Eslováquia, Roménia, Bulgária, etc.
Os alemães ñão vão conquistar mas sim comprar o seu "Lebensraum" (Espaço Vital) que tanto asnsiavam e pelo qual se lançaram em duas guerras mundiais que destruíram a Europa e a própria Alemanha.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 24 de Março de 2011 às 15:49
«O governo caiu e agora?»
Vou dividir a resposta:

1) «O governo caíu»
Mas tinhamos governo?
Chama áquilo que tivémos, governar?

2) «E agora?»
Agora estamos na mesma.
Só se pode perder o que se tem.
Se não estávamos a ser governados, o que é que se perdeu?


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 24 de Março de 2011 às 15:20
Portugal não precisa de ter governantes políticos. Nem os do PS, nem os do PSD, nem quaisquer outros.
Quem governa (manda) no nosso país é a «alemanha» e para obedecer às políticas da «srª.» não é preciso este quadro de eleitorado político-partidário. Basta uma Direcção-Geral administrativa para executar as directivas emanadas.
E se bem não ficamos, pior também não. E sempre se poupa uns «cobres» que em muito iam ajudar a reduzir o déficit.


De Zé T. a 25 de Março de 2011 às 10:39
Economia e Política Nacional e Europeia

Quem manda ? ou quem está a fazer que manda (sendo 'pau-mandado' de outros atrás da cortina)?

Governo português não manda... é mandado ...
pela UE e pela 'srª Alemanha' ...
e estas são mandadas por quem?

Pela finança internacional através de seus muchachos e lóbis...
que compram políticos e partidos e marketing e sondagens e comentadores e académicos e jornalistas e TVs...
que elegem/fazem eleger governantes... que mandam em países e 'uniões'...

E vamos continuar a deixar ser mandados por muchachos e lóbis ...? !!
e pela finança (especuladores, bancos, seguradoras, fundos soberanos e de pensões manipulados por agiotas e agências de 'rating' ...) 'nacional'/ 'internacional', pior: sem pátria nem Lei... ? !!

-O que FAZER ? (micro-programa de governos) ?
Actuar na raíz do problema - forçar os nossos representantes (partidos, políticos, governantes, UE...) a :

1 . acabar com ''offshores''/ paraísos fiscais, acabar com as manipuladoras ''agências de rating'', intervir, regular e controlar fortemente o sistema financeiro !

2 . dotar a União Europeia (confederada ) de meios adequados, nomeadamente: orçamento comum, impostos comuns, parlamento com verdadeiros poderes legislativos, ... forças armadas comuns;

3 . reduzir ou eliminar gastos sumptuosos e mordomias de deputados, governantes (e autarcas) e administradores públicos (ou de instituições ou empresas participadas ou com isenções e subsídios públicos);

4 . impedir a fuga aos impostos e torná-los mais justos (os com maiores rendimentos devem pagar mais impostos);

5 . Simplificar, reduzir e tornar transparente : burocracia (licenças/ autorizações e processo de tomada de decisões mais automatizado); sistema de impostos e taxas; sistema de subsídios e isenções; rendimentos património e contas de todos os cidadãos empresas e outras instituições;

6 . Controlar e limitar/impedir as importações (e passagem...) de bens e serviços de países e territórios com práticas de ''dumping internacional ambiental e social''
(daqueles países e sociedades que não cumprem regras de segurança e higiene, não pagam salários decentes, não têm sistema de pensões e saúde mínimas, não permitem liberdade de expressão, associação e sindicalismo, ... não cumprem acordos internacionais como a 'carta de Direitos Humanos'' e o ''protocolo de Quioto''/ambiente, ...).


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 25 de Março de 2011 às 13:04
É isso mesmo.´
As taxas de juro sobem porque o governo cai? As taxas de juro sobem quando o governo estava em funções. As taxas de juro sobem porque é no subir que está o ganho destes especuladores. Este é o negócio. Tanto faz fazer como não fazer. É-se preso por ter cão e por não ter.
Já no tempo do Salazar em casa dos meus pais se falava que quem mandava no regime eram os «ULTRAS» que poucos sabiam quem eram... e Salazar era a marioneta...
Hoje apenas se aprofundaram os desníveis. Entrámos em fim de ciclo. E quando já não houver nada para «gamar»? Como vai ser?
Os «comilões» já nos tiraram a pele, já nos comeram a carne, já nos estão a roer os ossos... e a seguir vão «comer» de onde?
Acham que só o «direito à indignação» é suficiente?
Mas torno aqui afirmar que ainda há solução!
Não será fácil, mas é possivel. É preciso é queremos. Mas querer mesmo, a sério.
E não é com os «Sócrates», os «Louçãs», os «Jerónimos» nem a tirar os «Coelhos» da cartola... Nem a viver às espensas das memórias do passado, como os «DDs»... Nem a cumprir «as ordens das sr.as alemãs» ou «chinamarquesas». Nem a cumprir os «novos códigos contributivos» e outros códigos que suatentam e alimentam estes «comilões»... Mas é possível. Ou como diria o outro: SIM, É POSSÍVEL. NÓS (podemos) CONSEGUIR!


De Demagogia a 24 de Março de 2011 às 12:54
Bom post, diga-se.

O PSD começa a tirar coelhos da toca.

O porta-voz dos sociais-democratas, Miguel Relvas, afirmou, esta quinta-feira, que, a ser necessário, o PSD só admitiria mexer em impostos sobre o consumo, excluindo mexer em impostos sobre os rendimentos e nas pensões e reformas.

Afinal de forma indirecta sempre mexe nas pensões de reforma, deixa ficar o dinheiro na pensão mas saca-o aumentando os produtos tanto para pobres como para ricos visto que os supermercados onde se abastecem uns e outros são os mesmos. Ou será que o PSD vai propor IVA em conformidade com os rendimentos e, como é que isso se aplicaria?

Será que o povo vai cair na (imbecilidade) asneira de colocar todos os ovos no mesmo cesto (Belém e são Bento) de controlo neoliberal?


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