Aliança para reestruturar UE / BCE e controlar o sistema financeiro

Fazer acontecer o improvável 

           Os Irlandeses foram obrigados pela União Europeia, pelo FMI e pelo seu governo a pagar as dívidas dos “seus”  bancos. Não tinha de ser assim. As perdas dos bancos Irlandeses poderiam ter recaído sobretudo sobre os accionistas dos bancos irlandeses e sobre os seus credores.
     Mas como os credores dos bancos irlandeses são bancos e fundos ingleses, alemães, franceses… a UE e o FMI (verdade seja dita mais a UE do que o FMI) achou que tinham de ser os irlandeses a pagar e o governo de turno na Irlanda achou que não havia alternativa.
Depois disto os Irlandeses mudaram de governo de turno dando um sinal de que não estariam dispostos a ver a brincadeira repetir-se.

Agora descobriu-se uma nova cratera de 20 mil milhões nos bancos irlandeses. A UE fez saber que só estava disposta a contribuir se a Irlanda deixasse de praticar o dumping fiscal que esteve associado ao seu milagre falhado. O governo de turno considera que o dumping fiscal é um interesse vital Irlanda (não discuto agora isso). Mas sabe também que a paciência dos irlandeses tem limites. Por uma e outra razão fez saber em Bruxelas, como o João Rodrigues já assinalou hoje, que desta vez queria partilhar os custos com os credores

     Parece que a ameaça foi feita de forma credível. Da noite para o dia, como nos conta Sérgio Aníbal no Público, o BCE apareceu com um programa de financiamento a médio prazo para os bancos, em complemento do financiamento a curto prazo que tem vindo a praticar. Da noite para o dia o BCE passou das ameaças de corte da liquidez para a banca para um programa de financiamento a médio prazo. Os irlandeses fizeram acontecer o impossível. Como não podem existir programas do BCE aplicáveis apenas a casos particulares, o novo programa do BCE terá de ser extensível a todos os bancos em dificuldades. À boleia, os bancos portugueses, espanhóis e sabe-se lá que bancos mais, agradecem. Nós devemos agradecer também.
    Ele há coisas que acontecem que são inspiradoras e fazem surgir alternativas quando menos se espera. Entretanto o mesmo BCE que financia os bancos a curto (e agora) a médio prazo continua impedido pelos tratados de financiar directamente os estados. É muito improvável que quem manda na Europa altere esta cláusula dos tratados. Sabemos que é absurdo não o fazer, mas, dizem-nos, é a dura realidade. O que é que poderá ser feito para que o improvável aconteça desta vez no que diz respeito, não à dívida dos bancos, mas à dívida dos estados?

 
Dublin ameaça com reestruturação da dívida para obter juros mais baixos. Isto depois de se ter ficado a conhecer mais um capítulo, no valor de 23 mil milhões de euros, do romance de um sistema financeiro liberalizado e logo muito dado à promoção de frenesins especulativos que acabam sempre mal, num país agora em plena austeridade UE-FMI, desenhada para proteger os interesses do sistema financeiro europeu à custa das populações da periferia.
   É por estas e por outras que a Irlanda nos pode dar um “conselho de amigo”. A Irlanda ainda é o modelo das elites neoliberais dominantes, as que anseiam por uma intervenção externa, um excelente pretexto para aprofundar a selvajaria social? Quantos mais crises teremos de sofrer até percebermos, por exemplo, que o controlo do poder político democrático sobre o sistema financeiro tem de aumentar e muito?

   O Negócios tem hoje uma peça interessante intitulada “Privatizar a Caixa? Sim ou não?” Este é o melhor enquadramento para os liberais, claro. Proponho outra investigação, com outro enquadramento: Reforçar o peso da banca pública? Sim ou não? Como disse Octávio Teixeira ao Negócios: “Privatizar a Caixa é uma ideia peregrina. A tendência devia ser nacionalizar”.
   Seja como for, e como aqui temos insistido, a tardia ameaça irlandesa de transferir parte dos custos para os gananciosos credores teria muito mais força se fosse feita em conjunto por uma aliança das economias periféricas, apostada em mudar os termos da integração europeia e em superar políticas de austeridade. Diz-se que a economia não aguenta o Estado social. Errado. Um Estado social universal, que nas periferias ainda é incompleto, é um dos pilares de uma economia sustentável. O que as economias não aguentam é um sistema financeiro liberalizado e logo com demasiado poder político.
    Em Portugal, é bom relembrar que a banca tem de ter cuidado com a austeridade que desejou. Será que está a contar com o bloco central privatizador do que dá lucro para acorrer a socializar, apoiado pela UE, e sem quaisquer exigências, os futuros buracos de vários mil milhões? Uma coisa vos garanto quando isso ocorrer: a retórica fraudulenta do “não há dinheiro” desaparecerá num ápice...


Publicado por Xa2 às 13:19 de 30.03.11 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 30 de Março de 2011 às 15:40
«A administração do BCP (2010), custou 4,1 milhões em salários...
… O BCP pagou 822 mil euros a Armando Vara em 2010 sem que o ex-vice-presidente tenha exercido qualquer tipo de funções no banco...
… Vara recebeu, a título de remuneração fixa, 260 mil euros, e mais 562 mil correspondentes a todos os salários que faltavam até ao fim do mandato. [CM]»

Pergunta: Estamos a «falar» do mesmo banco que ontem foi considerado «quase lixo» pela Agência S&P?
Resposta: Para mim é «lixo», mesmo.
Pergunta: Também vamos ser nós a pagar, quando der para o «torto»?
Resposta/Pergunta: Será que já estamos a pagar desde que o antigo administrador da CGD foi enviado, a grande velocidade, para este Banco num passado recente?


De Roubo, Austeridade,... Justiça. a 30 de Março de 2011 às 15:21
«O vosso roubo custou 13 milhões de salários mínimos»
por Andrea Peniche

Vi ontem, na edição online do Público, a notícia de que em várias cidades do país tinham sido colados cartazes, nas agências do BPN, que diziam: «O vosso roubo custou 13 milhões de salários mínimos».
Segui o link para o blog deste grupo, que se denomina «E o povo, pá?», e fiquei espantada.
Estão lá as fotos das agências visitadas, um vídeo e uma espécie de manifesto onde estas pessoas se apresentam, explicam a razão do seu protesto e justificam a escolha do BPN.

Hoje, li a reportagem sobre essa acção na edição impressa do Público e fiquei sem dúvidas:
trata-se de gente inteligente e com iniciativa.
«Fartos de resmungar sozinhos» decidiram «resmungar para o megafone». Sairam à rua a 12 de Março e agora vêm dizer:
«Estamos assim porque nos estão a roubar».

Uma das coisas mais interessantes que esta gente traz à discussão é a tradução de políticas e números em linguagem entendível.
Para mim, 6500 milhões de euros é uma ordem de grandeza que me ultrapassa. Consigo perceber que é muito dinheiro pela quantidade de zeros à direita. No entanto, dizer que isso equivale a 13 milhões de salários mínimos ou a 4% do PIB esclarece-me verdadeiramente.

A cereja em cima do bolo é dada, na tal reportagem do Público de hoje, quando é relatada a conversa sobre a escolha da música para o vídeo.
«O melhor é colocar qualquer coisa inócua. Se metemos punk, vão dizer que somos anarquistas. Se metemos Seu Jorge, vão perguntar: 'O que é que querem dizer com isto?'
Alguém pediu um segundo sentido? Que tal algo islandês? - Bjork. «It's all so quiet».

A ligação da questão do BPN, ou roubo, como lhe chamam, ao sucedido na Islândia é, de facto, interessante e inteligente.
Em Portugal, aceitamos quase em silêncio uma nacionalização ruinosa;
na Islândia, a democracia venceu a corrupção e o compadrio.

Como dizem no manifesto, «o caso BPN configura o processo de desagregação do Estado democrático, onde se salvam os accionistas e as entidades reguladoras,
onde se escolhe salvar os activos nacionalizando os prejuízos à conta dos impostos que pagamos.

O caso BPN diz-nos que em Portugal a fraude compensa e, quando esta vence, a democracia perde.

Portugal está transformado num país onde há Estado máximo para alguns e Estado mínimo para quase todas as outras pessoas».

Confesso que fiquei bem impressionada com esta gente, mas, mais do que isso, revi-me na sua iniciativa.
Tenho pena que queiram manter o anonimato, não porque não aceite as razões que invocam, mas porque tenho a certeza de que ia gostar de os conhecer. E faço coro:

«Não nos falem de austeridade, falem-nos de justiça».


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 30 de Março de 2011 às 15:17
Vê como afinal como há sempre alternativas?
Vê que sempre é mais fácil «lixarem» o «Zé» quando o «Zé» se põe a jeito?
É que o ganho está nos juros altos, não é nos juros baixos… A especulação é que é o negócio.
Então o amigo admira-se que quando se imputa os «nossos» prejuízos e contas, aos outros para pagar, se reclame?
O negócio é precisamente esse. «Eu» saco, «Tu» pagas. Não é tão giro ter uns «Tótós» a pagar por nós? Rima e é verdade.
E, se ainda por cima, pusermos um ar de zangados e fizermos voz grossa de ofendido, ainda ajuda mais a parecermos sérios e com razão, não é?
Já aqui escrevi, e por mais do que uma vez, que se não temos tido uma data de incompetentes a governarem-nos, parece. Se não tão «feitos» com o negócio, parece. É coincidência a mais culpa ser sempre dos «outros», dos «chineses» ou da «conjuntura», não acha?
Será que não temos (mesmo dentro dos actuais partidos parlamentares, Homens competentes, desinteressados de vaidades pessoais e de benesses, que tenham sentido de Estado e de preocupação nacional? Se houver, está na altura de se chegarem à frente e unirem os esforços para, com palavras da verdade, recuperarem o apoio do povo nesta luta contra a «sacanagem».


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO