Rescaldo das europeias a pensar nas legislativas

 

O PS é o principal derrotado. Perdeu as eleições e desceu a sua votação a um patamar historicamente baixo a que já não estava habituado desde o fim da crise dos anos oitenta e da extinção do PRD.

O PSD teve uma grande vitória muito pequenina, já que ganhou as eleições com a mesma percentagem com que estava previsto que as perdesse e longe de um resultado que lhe permita afirmar sustentadamente que estas eleições foram um trampolim para as próximas.

O Bloco de Esquerda cresceu imenso, tornando-se no partido de refúgio de uma base eleitoral que já foi e pode voltar a ser do PS, mas quis deixar claro que não está com ele neste momento.

A CDU aguentou-se e o CDS sobreviveu, enquanto o MEP pode ter nascido, o MMS foi uma operação abortada e nos velhos pequenos partidos ficou tudo no mesmo sítio.

Nasceram dois protagonistas de quem se irá ouvir falar no futuro, embora um imediatamente e outro a mais longo prazo: Paulo Rangel no PSD e Rui Tavares no Bloco de Esquerda, caso se confirme a sua eleição. O primeiro tem potencial para unir a direita em torno do PSD, com o seu discurso cristão-social e sofisticado, embora raiado dos temas caros ao populismo. O segundo pode reforçar substancialmente a ala realista do BE e, se vier a dedicar-se a tempo inteiro à política, baralhar os dados da transição geracional que se aproxima a grande velocidade no BE e que substituirá os velhos líderes da extrema-esquerda. Têm, no entanto, ambos que conseguir vencer o efeito de distância que Estrasburgo provoca em relação à política nacional.

Que deve o PS fazer com esta derrota?

1. O que devia ter feito no último congresso e fez só em parte. Deixar claro como vai enfrentar a questão da redução das desigualdades e o reforço das classes médias. Fugir a tentações sectárias e de depuração interna que conduzam ao fechamento em núcleos duros cada vez mais puros e cada vez mais núcleos. Abandonar a tentação de ser o partido-centro do sistema equidistante da direita e da esquerda e lutar por ser o partido-âncora da esquerda, combatendo a direita democrática e a esquerda irrealista.

2. O que deve estar a preparar agora. Dar combate ideológico às receitas neoliberais para o país e escolher uma agenda política que o diferencie delas. Preparar um programa para a próxima legislatura que o revincule ao eleitorado reformista de esquerda e não apenas ao eleitorado reformista tout court, quiçá aos reformistas de direita.

3. Não ceder à tentação do ziguezague táctico. Concluir a legislatura com a orientação que teve até hoje, mas dar ouvidos aos eleitores que escolheram as europeias para protestar. Não é momento para continuar a somar descontentamentos gratuitamente e é momento de escolher os aliados para as reformas progressistas do futuro. Mesmo em maioria absoluta não se governa bem sem uma ideia clara de quem são os inimigos, os concorrentes e os aliados. Em período de crise, essa percepção clara é mais necessária que nunca.

4. Continuar a repensar-se. A dura verdade é que os socialistas europeus perderam em quase toda a linha. O que quer dizer que não estão a cumprir bem a sua função histórica de serem alternativa de poder em nome da coesão social, da luta contra as desigualdades e da afirmação dos direitos sociais. Se não formos capazes de encontrar novas e melhores respostas arriscamo-nos a empurrar os europeus para a escolha entre o capitalismo liberal, o medo reaccionário e xenófobo e o protesto ingovernável. A missão histórica dos socialistas é encontrar a alternativa que retire dos protestos energias positivas de reforma, que influencie o capitalismo regulando-o seriamente e que derrote a direita reaccionária e xenófoba.

5. Explicar-se melhor. O balanço desta legislatura far-se-á a partir de agora. Todas as reformas dolorosas que foram feitas precisam de ser explicadas quanto à sua necessidade e direcção. Se os eleitores entenderem que se tratou de caprichos governamentais e não de medidas duras mas indispensáveis, as consequências podem não ser boas. O PS tem a obrigação de saber que a direita se está a recompor e não pode desistir de unir a esquerda consequente em torno do seu projecto. Doa a quem doer, custe o que custar. [Paulo Pedroso, Banco Corrido]



Publicado por JL às 23:29 de 08.06.09 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Causas, valores, transparência, rigor a 9 de Junho de 2009 às 11:23
PS à procura de novas oportunidades para Outubro
Ainda desorientado com a dimensão da derrota, o PS divide-se entre mudar de estratégia ou manter o rumo. Directo ao abismo?
[Leonete Botelho , Público.pt, 09-06-2009]

Ontem foi dia de reflexão no PS. A derrota tem muitas leituras e a digestão de ficar abaixo, pela primeira vez, da barreira psicológica do milhão de votos vai demorar algum tempo. Talvez por isso ainda não haja nenhuma data para reuniões partidárias de análise dos resultados eleitorais. Mas a discussão interna já começou. O PS está em grave risco, como diz Manuel Alegre, ou os resultados têm de ser relativizados face às "eleições de segunda", como defende Santos Silva? Manter o rumo é caminhar para o abismo, dizem alguns. É o PS à procura das suas novas oportunidades.

Primeiro, a leitura dos resultados. "O PS viu desviarem-se os votos em várias direcções: à esquerda, para a abstenção, para os votos brancos e nulos, provavelmente também alguns para o PSD", analisa o dirigente e governante Augusto Santos Silva. Em seu entender, em grande parte os resultados significam "insatisfação, mas não a opção por outras forças políticas", e isso deixa boa margem para recuperar força para as legislativas.
"Em eleições de segunda ordem, os cidadãos sentem-se mais soltos das questões de governabilidade e podem exprimir um voto de protesto que não significa a adesão ao programa do partido em que votaram", considera. Ou seja, não há ainda a opção por uma alternativa de Governo externa ao PS. Além disso, a elevada abstenção permite ao núcleo duro defender que uma boa parte do eleitorado - 62,95% - ainda não avaliou o Governo.

Ideia diferente tem Manuel Alegre, que sozinho arrecadou mais votos nas presidenciais do que o partido inteiro nestas eleições.
"Foi um voto de castigo, uma punição de políticas e de um certo estilo", afirma o deputado ao PÚBLICO, frisando que nestes anos de governação foram atingidas "muitas classes profissionais e até o próprio eleitorado natural do PS".

Para Alegre, a pressão maior é da esquerda, o que comprova que faziam sentido as suas tentativas de estabelecer pontes à esquerda. Alegre vê nestes resultados "uma vontade de mudança" do eleitorado. Por isso deixa um recado a José Sócrates: "As grandes lideranças são aquelas que são capazes de ler esses sinais e assumir as mudanças."

Mas isso exige uma "humildade democrática" que ainda não é visível no "inner circle" do PS. Assim se explica a declaração de José Sócrates de que o Governo vai "manter o rumo". Ou, como prefere Santos Silva, "o PS deve prosseguir a linha política geral, prosseguir a agenda de reformas, de combate à crise e aposta na coesão social".
A incorporação da reflexão dos resultados das europeias, defende, deve ser feita na forma como se vai redigir o programa eleitoral. E, aí, deve incluir-se que a decisão do Congresso de "acentuar as questões de igualdade, de justiça fiscal, de reforço das classes médias são boas decisões", sublinha.

Ideias que vão ao encontro do que ontem escreveu Paulo Pedroso no seu blogue bancocorrido.blogspot.com. O ex-ministro de Guterres defende que se deve "concluir a legislatura com a orientação que teve até hoje, mas dar ouvidos aos eleitores que escolheram as europeias para protestar". Deve "explicar-se melhor" quanto às "reformas dolorosas" mas "indispensáveis", ao mesmo tempo que aprofunda as decisões do último Congresso.

Regresso à política
Mas não chega. Para o soarista Vítor Ramalho, os resultados contêm uma contradição que deve ser aproveitada pelo PS: "Numa altura em que é claro que o comunismo não é solução de futuro e depois da queda do neoliberalismo, é paradoxal e dificilmente aceitável que os partidos que representam aqueles ideais sejam os que mais subiram". O que é, pois, importante, é regressar à política:
"Tem de dar-se muita atenção ao ideário, aos reforço das causas, aos valores, transparência e rigor."

E isso, sublinha, reside na concepção ideológica dos partidos. Ora, no PS houve "um desajustamento do PS consigo próprio". "Quando não se dá a devida atenção aos partidos, perde-se esse suporte ideológico. O pragmatismo não fornece um plano de acção, apenas soluções imediatas", defende.
...


De Zé T. a 9 de Junho de 2009 às 10:48
Excelente análise (de P.Pedroso), mas não está completa...

«... (M.Alegre) manifestar-se contrário a algumas opções do Governo liderado por José Sócrates, lamentando que as suas críticas não tenham sido ouvidas.

"Eu também sou socialista e quando um partido perde, perdem todos. Sou solidário com esses resultados, embora todas as minhas posições críticas, que infelizmente não foram ouvidas, parecem confirmadas pelos resultados" ...»

«(Medeiros Ferreira:) ...depois das locais e das presidenciais, e de quatro anos de governo de choque, não seria de esperar apoios entusiásticos em eleições como as europeias. Muito menos comparar com as eleições para o PE de 2004 tendo em conta os números da vitória da equipa Sousa Franco-António Costa quando o PS estava em pleno estado de graça na oposição ao executivo Barroso-Paulo Portas.
Ficar atrás do PSD agora significa que o PS vai deixar de ter grande parte do apoio dos interesses económicos que se colaram ao governo Sócrates até aqui. Com a vitória do PSD a direita política reaparece ...»

Por muito que o discurso mude (e não creio que mude tanto assim...), por mais que as práticas se alterem (e tb não o creio...), o PS/Governo destes dirigentes está «marcado» ...
e não creio que os manifestantes e descontentes (tradicionalmente votantes no PS, mais os descontentes militantes que se calaram, mais outros eventuais simpatizantes e apoiantes sem partido ou com ''voto útil''), até Outubro, esqueçam:
- a crise, o desemprego, o assédio no trabalho, a mobilidade especial, o novo Código de Trabalho, a 'flexi-insegurança', as novas carreiras, a nova avaliação/ SIADAP,
- o aumento da idade de reforma e a penalização pela antecipação, a perda de estatuto de funcionário público, a manipulação/acordo da UGT,
-os atropelos e ataques a todos os opositores, as 'Drens', ...
-as tropelias e falhas de transparência nas obras públicas, na economia, na banca,
- os vencimentos e regalias de nababos de certos administradores, as acumulações e reformas milionárias de alguns, as aquisições de carros topo de gama e outros luxos para políticos,
- as nomeações de 'para-quedistas' e de 'jovens assessores',
- a não-justiça, ...
- etc, etc.


De Bandarra a 15 de Junho de 2009 às 10:31
Confirmou-se
o que aqui no Luminária (e antes no PSLumiar) já vários comentadores tinham referido:
que as centenas de milhares de descontentes (talvez maioritariamente da ''classe média'', letrada e ligada ao Estado)... mais seus familiares iriam influenciar fortemente a balança eleitoral ...
e que não esqueceriam facilmente os 'ataques' que sofreram à sua estabilidade...
e até Outubro 2009 também não vão esquecer ... especialmente se o PS continuar a afirmar que vai continuar no mesmo rumo.

Se continuar no mesmo rumo (e com actores como V.Canas, S.Silva, M.J.Rodrigues, M.Pinho, ... Almeida Santos), o PS bem pode esquecer a governação por umas décadas, e pode ter a certeza que os seus militantes vão continuar a diminuir ... para números próximos dos do PCP !!
- olhem o exemplo do Partido Trabalhista inglês, que passou para 3º lugar !!!


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