EMPURRÕES DE CÁ E DE LÁ

Olha que grande novidade, já toda a gente sabe disso, a grande questão é porque nem os países afectados se unem, para combater as causas, nem os políticos de UE parecem interessados em criar condições para que tais sacanagens se não repitam.

Segundo o New York Times, em artigo de Robert M. Fishman, e reproduzido pela AF (Agência Financeira) «Portugal não precisava de ajuda» e lembra que há quem esteja pior que nós e que os mercados estão a pôr em causa a liberdade política.

Afinal, ao que parece Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, no «mar da inevitabilidade» da ajuda externa, defendido por um sem número de especialistas, surge uma «ilha» vinda dos EUA. O artigo do New York Times recupera a tese de que Portugal foi vítima dos mercados, lembra que há quem esteja bem pior que nós e ainda tem o «desplante» de afirmar que nos anos 90, Portugal teve uma «performance económica forte».

Robert M. Fishman, professor de sociologia na Universidade de Notre Dame, nos EUA, escreveu aquilo que Mário Soares já tinha dito. A pressão dos mercados deve ser um aviso às democracias. O professor afirma que a crise que começou com os pedidos de ajudada da Grécia e da Irlanda e seguiu um «caminho feio».

O pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa», escreveu.

Como foi dito há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou «sob pressão injusta e arbitrária de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo».

Mercados que são um perigo, uma vez que deixados sem regulamentação estas «forças» ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.

Para Fishman, a crise em Portugal é completamente diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. «Não há uma crise subjacente», defende, salientando que as instituições económicas e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.

O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos que vão sentir na pele o «resgate».

Para o professor, não é Portugal que está a fazer a crise, até porque a dívida portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído «rapidamente» com os esforços do Governo. Fishman aponta ainda que no primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.

Aliás, se há alguém que não deve ser culpado do estado do país é o primeiro-ministro e os políticos portugueses. A recente crise política nada tem a ver com incompetência portuguesa, mas decorre da normal actividade política democrática, já que a oposição considerou que podia fazer melhor levando o país a eleições.

As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos 90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.

Para Fishman, os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma «onda democratização que varreu o mundo», para o autor, a entrada do FMI em Portugal, em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália, ou a Bélgica.

É uma tese que entre nós há muito, desde sempre, vem sendo defendida pelo economista e sociólogo Boaventura de Sousa Santos e que raramente aparece nos vários areópagos opinativos em que a nossa sociedade caiu e, também por isso, se tornou amorfa de pensamento, onde quase todos os pensadores se guiam pelos mesmos pensamentos ideológicos. O resultado é o que aí temos, à nossa frente e sobre as nossas costas.



Publicado por Zé Pessoa às 00:05 de 18.04.11 | link do post | comentar |

4 comentários:
De - Porquê e Quem beneficia ?! até Q... a 26 de Abril de 2011 às 10:57
..., as grandes questões são :
- PORQUÊ ? e
- QUEM ? também beneficia desta 'INÉRCIA POLÍTICA-ECONÓMICA face aos ''mercados, ag.rating, bancos e off-shores''...
ou
-porque nem os países afectados se UNEM, para COMBATER as causas, nem os políticos de UE (comissários e conselho europeu), nem os governos de DIREITA europeus, nem os partidos e políticos 'nacionais' de direita e centro, parecem interessados em criar condições para que não se repitam nem continuem tais SACANAGENS ... pior tais CRIMES contra as populações, contra os Estados e contra a Democracia e a Liberdade política.
...


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 19 de Abril de 2011 às 11:07
Devia haver uma possibilidade constitucional de impedir que determinados políticos governantes continuassem a exercer a sua actividade depois de terem mostrado total inabilidade ou incompetência ou lá o que é, para a função desempenhada... Assim tipo, fazer a cassação da carteira de profissional da política. Só assim nos poderíamos ver livres de uma determinada cambada que têm minado a vida do país.
Não creio que quem viesse depois seria obrigatoriamente e naturalmente mais competente, mas «destes» já nos tínhamos livrado... Dos próximos livrar-nos-íamos seguidamente.
É de uma desfaçatez completa, estes mesmos figurões que nos «enterraram» virem agora apresentar-se aos portugueses como «salvadores» da pátria e pedir sacrifícios, leia-se mais dinheiro para eles esbanjarem, e até pedir um compromisso nacional...
Eles que não cumpriram nenhum dos anteriores compromissos que fizeram em campanhas e programas eleitorais na conquista do voto e que depois de eleitos, não cumpriram esses compromissos... querem agora um compromisso nosso!
Qual é a moral que têm para nos virem agora com mais conversas da treta, por muito bela e justificável até que seja a converseta?
Não, com estes nunca mais! Estes já sabemos que não prestam, que não valem um chavelho...
Os outros que vierem a seguir se não valerem nada também serão banidos da vida política.
A não ser que o compromisso que eles queiram seja do género:
1) Não há mais acumulação de reformas (pensões e aposentações). Com efeitos retroactivos. Ah, e acabaram-se os «direitos adquiridos»...
2) Não é permitido acumulação de funções de directorias, administrações ou quais quer outros cargos de chefia. E não se pode ser remunerado por mais de uma entidade patronal.
3) Não existem mordomias inerentes aos cargos desempenhados, nomeadamente carros, habitações, etc. nem tão pouco subsídios para deslocações ou de rendas… e outras formas de retribuição que não seja a remuneração negociada.
4) Ninguém pode ser remunerado acima do vencimento do PR. Ninguém é ninguém!
5) Nem haverá subsídios de reintegração e outras habilidades remuneratórias de desempenho, que ultrapassem o valor mensal do vencimento do PR.
6) Etc…, etc…, etc…
Se for este tipo de compromisso que estes «caramelos» querem fazer com os portugueses, estou capaz de rever a minha opinião sobre as capacidades de lhes dar uma «nova» oportunidade de «endireitarem» o país.
Vou ficar à espera...


De Zé T. a 26 de Abril de 2011 às 10:25
Concordo, na generalidade, com o Zé Esquinas.

Os políticos e Partidos que não cumpriram as promessas... deveriam ser castigados pelos eleitores, votando noutros Partidos (nem que fossem marcianos !!)
e os governantes (eleitos ou nomeados) e gestores públicos (ou de empresas participadas com dinheiros ou subsídios públicos, idem) deveriam ter a sua governação/gestão escrutinada pelos mídia e tribunal de contas, para os cidadãos saberem onde foram parar os dinheiros...
se para remunerações de administradores... bolsos particulares luxos e mordomias ou se para verdadeiros investimentos em matéria-prima ou máquinas ou melhor produção/serviço, com retorno assegurado ...
e este controlo deveria ser obrigatório, transparente e feito ao momento, via sistema informático e publicação em página electrónica
(não anos depois, dos estragos estarem feitos, de eles terem saído, e serem esquecidos ou prescritos os eventuais crimes de má gestão/ dolo/ furto/ ... participação ilícita).


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 26 de Abril de 2011 às 11:59
E já reparou nas «notícias» de ontem?
- Ouvimos uns discursos lindos e pertinentes. Uns melhores outros mais ou menos. Uns com boa dicção outros nem por isso. Mas, atrever-me-ía a perguntar:
Quem eram as 4 figuras? Não estiveram nos mais altos cargos políticos num passado recente? Não foram estas figuras que estiveram com responsabilidade quer governativas quer de função política em Portugal? E não se sentem co-responsáveis ao que «isto» chegou? Ou são todas «donzelas»?
Não há vergonha naquelas caras?

E outra:
- Não leu ontem que o dito FMI tem apresentado prejuízos? E que só retornou aos lucros desde que «rebentou» as crises grega e irlandesa? E que já espera duplicar os lucros com a intervenção em Portugal? Então não entende o porquê das «crises»? O amigo não vê onde está o negócio? Não é a correr tudo bem com os chamados países periféricos. Não, o negócio está nas «crises». E quando estas não existem, «inventam-se». Ou seja nos gastar «à fartazana» e no disparar do déficit é que está o ganho do FMI. Percebe?

Então as tais «figurinhas» que têm passado recente nas (des)governação do país têm sido: Incompententes ou competentes? Sabe responder-me?


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