Um marco humilhante

Sem uma estratégia para reorientar o modelo de crescimento, o país estará ainda perante o espectro da bancarrota Com o pedido de assistência financeira externa, o Governo colocou um marco humilhante num dos períodos mais indigentes e irresponsáveis da política portuguesa nas últimas décadas. Primeiro, o Governo foi sistematicamente negando que a crise financeira tocasse Portugal. Só muito tarde, na primeira quinzena de Maio de 2010, José Sócrates descobriu que o mundo tinha mudado, e muito. Mas, entretanto, já tinha feito o que queria: utilizar eleitoralmente o Orçamento de 2009 para tentar nova maioria absoluta. Não a alcançou, e iniciou a queda para o abismo, não percebendo nem controlando mais os impactos que os resultados finais daquele orçamento iriam ter daí para a frente na perda de credibilidade amealhada no controlo do défice em 2006-7. Daí para cá, vimos um Governo em actuação táctica com mentiras, mistificações e manobras de guerrilha, sobretudo com o maior partido da oposição, procurando esconder a realidade das contas públicas e do endividamento externo, e evitar uma moção de censura caso tomasse as medidas verdadeiramente necessárias para corrigir o défice. Pego agora numa dessas mentiras/mistificações que se fizeram ouvir. A tese de que não estaríamos tão mal como outros países porque não tivemos uma bolha imobiliária. Mas a verdade é que não só tivemos uma grande bolha imobiliária, como ainda tivemos uma bolha de consumo, de endividamento privado e de endividamento público. Em suma, Portugal construiu, durante parte das últimas duas décadas, uma enorme bolha económica global, uma bolha que políticos e alguns economistas confundiram com vitalidade económica e sinal de prosperidade! Mas, infelizmente, essa bolha foi a base do descalabro e da vergonha em que nos encontramos hoje. A experiência e a investigação sobre as bolhas na economia ensinam-nos que não há recuperação da situação anterior ao estouro das bolhas. Logo... preparemo-nos para uma dieta de ajustamento profundo com o estouro da bolha económica nacional! Podemos ter uma percepção do significado dessa bolha através de um gráfico que apresentei em Plenário da Assembleia da República, a 15 de Abril de 2009. O gráfico que nesta página se reproduz compara os valores do PIB e do endividamento conjunto do Estado, das famílias e das empresas, entre 1997 e 2007. É fácil constatar que, enquanto o PIB cresceu 1,7 vezes, o endividamento cresceu 3,2 vezes no mesmo período! Se o PIB tivesse crescido na mesma proporção que o endividamento, então o PIB per capita teria ultrapassado, em 2007, o do Japão ou da Alemanha! Depois de 2007, estes dados económicos pioraram, o que mostra que a política global seguida pelo país não alterou este rumo, nem travou a vertigem em direcção à insolvência. Onde foram aplicados tantos recursos? Alguns leitores irão lembrar-se de empresas, escolas, hospitais, complexos desportivos, centros de congressos, bibliotecas, auto-estradas, reabilitação urbana, abastecimentos de água, sistemas de tratamento de esgotos, etc. As cidades ganharam, de facto, uma fachada de modernidade e melhoraram alguns serviços públicos. Mas houve muitas outras aplicações destes recursos: especulação com a habitação e terrenos, bonitos relvados, centros comerciais, mais de dois milhões de automóveis novos, viagens de férias ao estrangeiro, bens de consumo duradouro, espectáculos, maiores salários, subsídios vários e muitas outras despesas correntes no Estado. Não esquecer que muitos impostos arrecadados pelo Estado como receita corrente tiveram, na sua origem, empréstimos pedidos pelas famílias para aquisição de casa própria e automóveis. Assim, uma parte importante da dívida do Estado foi para pagar despesas... correntes! Só para pagar o défice externo (7 a 8 por cento do PIB pelo menos!) de cada um dos anos deste período, o país teria que aumentar a criação de riqueza em pelo menos 1 por cento por ano. Como não houve quase nenhum crescimento do PIB ao longo da década, e os défices externos se tornaram crónicos, dá para perceber que a cada ano ia diminuindo a nossa capacidade de honrar as dívidas. Os mercados e a Europa viram perfeitamente este quadro de insolvência no horizonte! Por isso, a actual discussão sobre quem tem culpa na vinda do BCE e do FMI constitui um insulto à inteligência dos portugueses. A inevitabilidade do pedido de ajuda não se discutia, e eu sei, de fonte segura, que antes do fim de 2010 já se preparava o trabalho para esse efeito, mesmo que as instâncias europeias o neguem. Se o pedido de assistência financeira evita momentaneamente o desastre, ele ainda fica a pairar. Porquê?! Porque a assistência financeira apenas assegura durante os próximos 2-3 anos que Portugal honrará os seus compromissos de reembolso da dívida pública, nas datas dos vencimentos, e sem recurso ao mercado a juros insuportáveis. Mas, sem uma estratégia para reorientar o modelo de crescimento, o país estará ainda perante o espectro da bancarrota, em que os credores irão sofrer inevitavelmente uma perda dos seus créditos, de que resultará um período negro de anos de dificuldade de acesso a novos financiamentos, ficando o país limitado às esmolas dos fundos comunitários! Uma saída para a crise nacional existe, e só a classe política actual será o obstáculo maior, com José Sócrates, para já, como principal problema.

Joaquim Ventura Leite, Economista, ex-deputado, militante do PS [Público]



Publicado por Izanagi às 10:15 de 21.04.11 | link do post | comentar |

6 comentários:
De .'Resgate' ou Afundamento eterno ?! a 26 de Abril de 2011 às 16:14
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O resgate português e o resgate alemão

O JN publicou um artigo de um prof.do ISEG, Um resgate alemão, de que reproduzo algumas partes, para chamar a atenção para a importância do modo como Portugal conduzir as negociações com a UE e o FMI. O Autor refere-o como um case study importante e actual - e sabe do que fala - as remotas lições de 1953 não deixam de estar presentes nos negociadores da Irlanda.
Trata-se da República Federal Alemã, a seguir à guerra. As situações são muito distintas mas as lições da História são sempre para aplicar a situações distintas. Há que ver o que Portugal pode aproveitar como lição e uma delas é não renunciar às obrigações que tem para com o seu povo, defender os seus interesses com mais determinação do que a dos agentes do FMI e da UE em desagregação a defenderem os seus.
Uma diferença radical é que então o capital financeiro especulador não era dono e senhor do mundo. Era só de metade dele. E naquele em que dominava tinha que estar sempre atento a não criar nos países objectoda sua "ajuda" situações que levassem os respectivos povos a voltarem-se para a outra metade do mundo e a perderem a presa.
_________

"O Acordo de Londres de 1953 sobre a dívida alemã [32 biliões de marcos] foi assinado ... depois de duras negociações.

...
A ideia de condicionalidade do pagamento (pagamento apenas do que se pode - e quando se pode) esteve sempre presente desde o início das negociações. O acordo visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.
O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1 - Perdão / redução substancial da dívida;
2 - Reescalonamento do prazo da dívida para um prazo longo;
3 - Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.
O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5%.
...
O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros.
...
O Acordo de Londres de 1953 sobre a dívida alemã é um case study... que tem interessado os estudiosos das situações de insolvência soberana para nas quais o tema do pagamento condicionado é incontornável.
Ainda muito recentemente, o governador do Banco Central da Irlanda elaborou, publicamente, uma interessante reflexão sobre o pagamento condicionado do serviço da dívida soberana irlandesa .
...
No início deste mês, o Governador do Banco Central da Irlanda, Patrick Honohan, propôs o seguinte: "Uma versão simples ... seria a Irlanda pagar mais quando o crescimento do seu produto nacional bruto for forte e menos quando o crescimento for mais fraco. O objectivo destas obrigações ligadas ao PNB, ou de inovações de partilha de risco similares, deve ser restaurar, pela via do crescimento, uma dinâmica favorável do rácio da dívida soberana." (Financial Times de 7 de Abril de 2011)


Etiquetas: FMI, O resgate, UE.
# posted by Raimundo Narciso, PuxaPalavra, 2011.04.24


De oligarcas e serventes da finança mafiosa a 26 de Abril de 2011 às 16:49
...
Os oligarcas querem um governo PS/PSD/CDS para tirar ao povo as migalhas que lhe restam e assim servir os interesses do capital europeu, a começar pelo alemão, o grande credor da banca portuguesa.

Querem fazer como na Grécia que está pior que há um ano atrás e com a Irlanda, cuja situação piora de dia para dia. Talvez a Espanha venha a ser a próxima vítima e depois quiçá a Itália, a Bélgica e a França. Não importa, quanto mais crise, mais ricos e mais numerosos serão os oligarcas europeus que juntamente com os oligarcas russos, chineses, indianos e brasileiros querem um Mundo todo dominado pela mais gananciosa oligarquia que a História alguma vez conheceu.

DD


De Isabel a 25 de Abril de 2011 às 14:16
Esse artigo só podia sair do jornal do oligarca ladrão Belmiro de Azevedo.
O blog Luminaria curva-se e reverencia o oligarca Belmiro com todo o respeito, reproduzindo a merd@ que o seu jpornal publica.
Merd@ de oligarca é ouro para o Luminaria.


De Zé T. a 25 de Abril de 2011 às 19:48

noto que quem escreve (JVL )é um militante do PS, que é economista ... (crítico do governo PS/Sócrates, mas da corrente económica do costume... )

Mas há outras perspectivas económicas e podem-se fazer alianças políticas na UE (e entre os PIGS...) para obrigar os políticos da UE a mudar de políticas, e deixar de serem mandados pela finança internacional...


De Governates e agiotas a 21 de Abril de 2011 às 16:02
É verdade isso que diz, André, mas não será menos verdade o facto dos que em nome do país dizem governar se terem vendido a esses interesses de banqueiros, merceeiros e agiotas, nacionais e internacionais.

O povo deixou-se embalar pela fartura do dinheiro barato disponibilizado a credito para tudo e mais alguma coisa. o que sacavam a uns justificava bem o risco de não receberem o todo emprestado a uma minoria.

Por onde andariam nesse tempo as "ditosas" agencias de rating ? Estranho não é ?

Olhe que não, olhe que não, senhor Dr.


De André a 21 de Abril de 2011 às 13:23
O autor não percebeu que a bolha financeira foi do BCE que durante anos cedia tanta liquidez a 1% quanto se queria. Se Portugal tivesse verdadeiros empresários e não simples merceeiros como o Alexandre Soares dos Santos e o Belmiro e corticeiros como o Amarim, o País teria tirado proveito da bolha de crédito barato que, por sua vez, desincentivou a poupança nacional com juros de depósitos a prazo da ordem dos 1%.
Foi a banca que se desinteressou do mercado nacional de aforro que criou esta situação, pois a causa dos juros altos deve-se ao facto de os depósitos obrigatórios da banca residente no BCE terem diminuido de 49 mil milhões em Agosto de 2010 para 38 mil milhões em Março e são esses depósitos/reservas da banca residente no País que determinam o rating da República e concomitantemente os juros de todos os créditos colocados no exterior.
Isto aconteceu com todos os países europeus, uns mais e outros menos, e os agregados monetários da Zona Euro têm vindo a diminuir.
Nestas coisas muito complicadas da moeda não se pode ser apenas merceeiro.


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