A crise e o dominó europeu
 
por Daniel Oliveira, Expresso Online, 28.4.2011

      Enquanto o debate político português continua centrado no seu próprio autismo - dedicado à autoflagelação e ignorando a crise europeia -, estão a acontecer coisas interessantes. Duas, por agora:

 a lenta agonia espanhola e a ameaça de reestruturação da dívida grega.

 Basta que a última aconteça para a queda de Espanha ser uma questão de dias. E depois dela, o contágio a Itália e à Bélgica.

     Este efeito dominó acabará por criar uma situação financeira, mas também política, absolutamente nova. Com a queda de dois grandes a Europa será mesmo obrigada a reagir.

     O egoísmo alemão terá de fazer uma escolha: ou muda de rumo ou prepara a morte do euro e da União Europeia. E a segunda escolha terá um preço de tal forma arrasador para os alemães - sempre foram os que mais ganharam com a moeda única - que nem é sequer uma alternativa para quem não queira ficar na história como o chanceler que matou a economia alemã.

     Se este cenário se confirmar - e cada vez mais sinais apontam para aí -, os seus efeitos dependerão da rapidez de uma reação europeia. Se for, como tem sido, a passo de caracol, estamos todos tramados. O barco vai ao fundo e ninguém se salva. Se for, por pressão dos gigantes em queda, rápida, talvez haja futuro para a Europa. E talvez haja futuro para Portugal.

     Triste situação é esta, em que a nossa sobrevivência depende da desgraça alheia. Triste Europa é esta, que só acordará no dia do Apocalipse. Tristes líderes políticos são estes, tão dependentes dos poderes financeiros que só pensarão no futuro quando a tragédia lhes bater à porta.

-------

José Erre Ponto
"Tristes líderes políticos são estes..."  Líderes?  Eles são uns simples servos. Uns servozitos! Todos os dias "rezo" um terço (laico, obviamente) para que a Espanha seja já a seguir.  Logo eu, que gosto da Espanha!  Mas não há outra maneira de as agências e os do dinheiro, donos dos servozitos, nos desmontarem... porque nos montam, mesmo! E mandam morder-nos nas canelas os rafeiros a soldo que vão latindo pela TV. Tudo coisas que irritam!


Publicado por Xa2 às 00:07 de 29.04.11 | link do post | comentar |

5 comentários:
De Marketing e circo...sem Pão, nem Justiça a 29 de Abril de 2011 às 16:51
Insultem-se com conteúdo
por Daniel Oliveira, Arrastão

Lello diz que Cavaco é foleiro. Nogueira Leite diz que Lello é um cibernabo. Lello diz que Nogueira Leite quer abifar uns tachos.
Deve ser disto que falam quando falam de crispação. E esta crispação compreende-se. São os foguetes que animam uma festa morna.

Enquanto a União Europeia e o FMI escrevem o verdadeiro programa eleitoral do PS e do PSD, aquele que ambos se preparam para aceitar sem um sinal de resistência, há que continuar a fingir que há um confronto político.

A ver se nos entendemos:
dá imenso jeito, por exigir menos informação e menos reflexão, acreditar que a nossa situação se resume a uma questão de carácter dos intervenientes políticos.

É confortável pensar que estamos como estamos porque o Presidente da República é "foleiro", o primeiro-ministro é "aldrabão", o líder do PSD é "um banana" e todos eles estão rodeados de gente que quer "abifar uns tachos".

Esta narrativa permite não discutir política, não discutir economia, não discutir Europa.
Permite que os atores políticos não apresentem alternativas entre si e que os cidadãos não se dêem ao trabalho de pensar nelas.
Tudo se resume a (falta de) qualidades pessoais.

Nada tenho contra a crispação política. Pelo contrário.
Nos tempos que correm, com a INJUSTIÇA evidente na distribuição de sacrifícios, com o EGOISMOa corroer a Europa por dentro, com o ASSALTO das instituições financeiras aos cofres públicos, com a SUSPENSÃO de várias DEMOCRACIAS europeias, fazia falta um sobressalto cívico. Mais crispação e menos anemia democrática.
Mas a crispação que falta é política.
Querem insultar-se? Insultem-se. Mas com conteúdo, se fazem favor.


De Diminuir o fosso social e de rendimentos a 29 de Abril de 2011 às 10:50
Aproveitar a crise para diminuir os abismos sociais

Dizem que inteligente é transformar um momento de crise numa janela de oportunidades. Estou a ver uma. E, pois claro, vou aconselhar a troica, o Sócrates e o Passos.

Exmºs Senhores como sabeis tivemos o triste recorde de sermos o país da UE com o maior fosso entre os 20% de população mais rica e os 20% mais pobre.
Agora estamos no 2º pior lugar quanto a desigualdade social, a seguir à Letónia e a par da Bulgária e da Roménia.
O rendimento daquele grupo é mais de 6 vezes maior que o deste. Na UE a média é um pouco superior a 4 (ver gráficos dois posts abaixo).

Aproveitem o momento para levar Portugal a atingir uma boa (e moderada) meta europeia. Tornar Portugal mais igualitário.

Limitar os rendimentos dos 20% de portugueses mais ricos de modo que não ultrapassem em conjunto 4 vezes o rendimento do conjunto dos 20% mais pobres.
Baixaríamos assim, sem custos sociais, o fosso da escandalosa desigualdade da sociedade portuguesa e arranjaríamos dinheiro para pagar as dívidas.

Já estou a ouvir as objeções. É que os muito ricos são poucos e o que se recolhia não chegava para tapar o buraco.
Há um equívoco.
É que nesta sábia e honesta proposta não se está a imaginar impostos que tirem 10 ou 15% aos grandes rendimentos. Não.
Seriam impostos bem cristãos que reduzissem rendimentos mensais de 100 ou 200 mil euros para 15 ou 30, reduzissem os de 20 ou 50 mil para 10 ou 12. Temporariamente. Até vencermos a crise.

Como? Com impostos adequados nos patrimónios das grandes fortunas, nos rendimentos "pornográficos.
Taxas de IRS como Roosevelt, nos anos 30 e 40, aplicou nos EUA com escalões até 70 e 80% ou Eisenhower que chegou aos 90% , como revelou Paul Krugman no seu livro a Consciência de um liberal.

Seria um roubo?
Seria apenas um pouco mais de justiça social, poupávamos à fome e ao desespero os mais carenciados e os sacrifícios das classes médias. Nada de extraordinário, apenas medidas moderadas, padrões europeus.
Passar do fosso 6 para o desnível 4.

# posted by Raimundo Narciso, PuxaPalavra, 29.4.2011

(... e talvez ainda poupássemos em carros e edifícios incendiados, balas, feridos e mortos ...) !!


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 29 de Abril de 2011 às 08:16
Isto só lá vai quando o lema do povo for:
«Não pagamos, não pagamos, não pagamos, não pagamos...»

Mas os devedores podem ser ir receber. Vão receber directamente dos «senhores» que lhes pediram e assinaram os «empréstimos».
É que isto de serem eleitos, na minha maneira de sentir a política, não dá direito a fazerem o que entendem. Os nossos governantes, não podem gastar o que não está orçamentado e onde está cabimentado. A partir daí... para mim, pagavam eles pessoalmente!
A seriedade política hoje em dia só é a de usar gravata azul, mais nada!


De Democracia e Acção DIRECTA em Rede a 29 de Abril de 2011 às 09:58

- Nos Partidos,
Exigir ELEIÇÔES PRIMÁRIAS para selecção de candidatos;
exigir Transparência, com divulgação de contas e actos/decisões colectivas;
exigir fim aos amiguismos nepotismos e protecção mútua dos 'telhados de vidro');
exigir Responsabilização por decisões omissões e não cumprimento de programas ...

- Na sociedade/política portuguesa, exigir Democracia Directa, com mais REFERENDOS (com voto electrónico em assembleias de voto) e auscultação/cumprimento da vontade da maioria dos cidadãos ... (e, dentro dos partidos, da maioria dos militantes).

- ACÇÕES DIRECTAs na rua / manifs protestos e à porta dos locais cujos donos/ocupantes devem ser responsabilizados... (como aquela colagem anónima de cartazes ACUSATÒRIOS nas montras das agências do BPN em várias cidades do país...) ;
- e criação/expansão de REDE de núcleos/grupos para actuar autonomamente mas 'coordenando' acções através de SMS (em telemóveis descartáveis) e página net ou blog com os comunicados/ imagens ou cartazes para fazer download e imprimir/ distribuir/ colar por todo o lado...


De Exigir TransparênciaResponsabilizar a 29 de Abril de 2011 às 10:15
PRESTAR CONTAS
.... «
É, de facto, escandalosamente imoral que os erros dos decisores políticos sejam pagos pelos 257.745 desempregados que, segundo números da Segurança Social, perderam o subsídio de desemprego e o subsídio social de desemprego, o que significa igual número de famílias na miséria, ou pelas outras centenas de milhar que ficaram sem RSI ou abono de família (retirado a 645.600 famílias desde Novembro).

Isto enquanto os encargos com vencimentos, "despesas de representação", horas extraordinárias, ajudas de custo, suplementos, prémios, subsídios de residência e alojamento e outros mais dos "boys" e "girls" dos gabinetes ministeriais ascenderam a 19,7 milhões de euros em 2010. E ainda ficam de fora os gabinetes dos 38 secretários de Estado, às vezes mais "populosos" do que os dos próprios ministros...
Manuel António Pina [Jornal de Notícias]
»
Aqui há matéria para muito protesto manifs e acções directas...
visto que os partidos do centrão (de tão enlameados que estão e com tantos telhados de vidro)
nunca pegarão a sério nestes problemas/causas para os tentar resolver...


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