Os significados destas eleições

As sondagens publicadas na última semana revelam várias novidades: por um lado uma ligeira subida do PS, aproximando-se do PSD; uma continuação da descida do Bloco de Esquerda, e pequena subida do CDS-PP.

Esta evolução reflecte de forma particularmente precisa os resultados da luta que se tem travado entre os vários protagonistas políticos nas últimas semanas.

Antes de mais, é um claro sinal da resiliência do formato do nosso sistema partidário, "malgré tout". Na luta entre os grandes partidos (PS e PSD) vs os pequenos (CDS, BE e PCP) os grandes continuam a dominar. Apesar de haver a convicção generalizada de que o sistema político, com todos os seus defeitos, foi construído pelo PS e PSD, os portugueses recusam abandonar estes partidos em massa por opções irrealistas (PCP e BE) ou populistas (alguns novos partidos). Isto, não deixa de ser revelador de um extraordinário bom senso. Que é também marcado por alguma esperança no futuro, patente na sondagem do Expresso publicada na última semana, em que uma maioria de portugueses considera que a vinda da "troika" para Portugal vai ser positiva para o país.

Portanto, a larguíssima maioria dos portugueses acredita que o sistema económico e político que existe "é o pior de todos, com excepção de todos os outros", o que não deixa de ser de uma sanidade extraordinária perante a avalanche de críticas de que Portugal, o mercado e a democracia têm sido alvo nos últimos tempos. Em meados da década de oitenta, Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro conseguiu transformar as eleições legislativas numa escolha de primeiro-ministro. Essa mudança no significado das eleições - de uma escolha entre partidos para uma escolha entre governos - foi fundamental para o aumento da governabilidade a partir dos anos oitenta. Hoje, quando haveria todas as razões para abandonar essa convicção, nomeadamente devido à desilusão em relação aos resultados políticos e económicos da última década, os portugueses mantêm o rumo de europeização e favorecimento dos governos estáveis. É talvez a maior homenagem à maturidade da nossa democracia, que fez anos esta semana.

Bom, mas se é verdade que este entendimento dos resultados eleitorais por parte dos portugueses beneficia os grandes partidos em detrimento dos pequenos, também é certo que a verdadeira luta é claro, é entre PS e PSD. Cada um dos partidos tenta agora impor a sua narrativa ao processo político em curso. Para o PSD ganhar com grande expressividade, talvez até com maioria absoluta, estas eleições tinham de ser uma avaliação por parte dos portugueses da performance do governo, e sobretudo, do primeiro-ministro José Sócrates. Talvez a maior surpresa deste período pós-eleitoral seja precisamente a dificuldade que o PSD tem tido em transformar a avaliação do governo no ponto central desta eleição. É certo que os partidários do PSD têm conseguido fragilizar progressivamente a imagem de Sócrates, e isso tem dado alguns frutos. Mas esta personalização acaba por iluminar também as fragilidades inerentes à alternativa apresentada pelo PSD: ao focar excessivamente nas qualidades e defeitos do primeiro-ministro, põe à vista também a inexperiência de Passos Coelho. Por isso tinha sido tão importante que o PSD apresentasse, junto do líder inexperiente pesos políticos pesados que dessem uma imagem de seriedade e credibilidade para colocar uma alternativa ao PS. Coisa que não fez.

Por habilidade política, e também aproveitando os erros sucessivos e as gaffes do PSD, o PS tem conseguido impor a sua narrativa nos últimos tempos. A história é mais ou menos esta: a performance é o que foi, mas melhor não era possível se queremos manter um Estado Social minimamente digno e que sirva os portugueses. É o que basta para começar a esvaziar os partidos à esquerda do PS. Esta mensagem indicia uma bipolarização, e nessas contas, a esquerda tem vantagem, porque a identificação ideológica e partidária é entre os portugueses, maior nesse quadrante ideológico. E além disso, o PSD perde por falta de comparência. Era preciso que o PSD avançasse já com propostas que por um lado fossem sérias mas dessem esperança aos portugueses. Para já, o PSD, com seis anos de oposição, ainda não conseguiu articular um programa ideológico credível.

Marina Costa Lobo [Jornal de Negócios]



Publicado por JL às 00:15 de 29.04.11 | link do post | comentar |

5 comentários:
De Izanagi a 29 de Abril de 2011 às 01:20
Só alguém que se alimenta do sistema pode fazer fazer as seguinte afirmação :
"os portugueses recusam abandonar estes partidos em massa por opções irrealistas (PCP e BE) ou populistas (alguns novos partidos). Isto, não deixa de ser revelador de um extraordinário bom senso. ".


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 29 de Abril de 2011 às 08:09
Boa análise Izanagi. Eu não diria melhor.
E já agora porque será ques «peritos» analistas nunca referem a abstenção?


De ...Porque esperamos sentados ?! ... a 29 de Abril de 2011 às 10:18
----De: Democracia e Acção DIRECTA em Rede

- Nos Partidos,
Exigir ELEIÇÔES PRIMÁRIAS para selecção de candidatos;
exigir Transparência, com divulgação de contas e actos/decisões colectivas;
exigir fim aos amiguismos nepotismos e protecção mútua dos 'telhados de vidro');
exigir Responsabilização por decisões omissões e não cumprimento de programas ...

- Na sociedade/política portuguesa, exigir Democracia Directa, com mais REFERENDOS (com voto electrónico em assembleias de voto) e auscultação/cumprimento da vontade da maioria dos cidadãos ... (e, dentro dos partidos, da maioria dos militantes).

- ACÇÕES DIRECTAs na rua / manifs protestos e à porta dos locais cujos donos/ocupantes devem ser responsabilizados... (como aquela colagem anónima de cartazes ACUSATÒRIOS nas montras das agências do BPN em várias cidades do país...) ;
- e criação/expansão de REDE de núcleos/grupos para actuar autonomamente mas 'coordenando' acções através de SMS (em telemóveis descartáveis) e página net ou blog com os comunicados/ imagens ou cartazes para fazer download e imprimir/ distribuir/ colar por todo o lado...

-----De: Exigir TransparênciaResponsabilizar

PRESTAR CONTAS
.... «
É, de facto, escandalosamente imoral que os erros dos decisores políticos sejam pagos pelos 257.745 desempregados que, segundo números da Segurança Social, perderam o subsídio de desemprego e o subsídio social de desemprego, o que significa igual número de famílias na miséria, ou pelas outras centenas de milhar que ficaram sem RSI ou abono de família (retirado a 645.600 famílias desde Novembro).

Isto enquanto os encargos com vencimentos, "despesas de representação", horas extraordinárias, ajudas de custo, suplementos, prémios, subsídios de residência e alojamento e outros mais dos "boys" e "girls" dos gabinetes ministeriais ascenderam a 19,7 milhões de euros em 2010. E ainda ficam de fora os gabinetes dos 38 secretários de Estado, às vezes mais "populosos" do que os dos próprios ministros...
Manuel António Pina [Jornal de Notícias]
»

Aqui há matéria para muito protesto manifs e acções directas...
visto que os partidos do centrão (de tão enlameados que estão e com tantos telhados de vidro)
nunca pegarão a sério nestes problemas/causas para os tentar resolver...


De E ninguém vai preso ?! a 29 de Abril de 2011 às 10:28
BANCOS E BANQUEIROS, TANTA LATA!

•Os mesmos que, com campanhas agressivas, espicaçaram a procura interna até aos limites do razoável,
•Os mesmos que não se limitaram a financiar os deficits monstruosos da BTC, mas, antes, os estimularam por todos os meios cantando loas às virtudes do endividamento,
•Os mesmos que desconsideraram com sobranceria as actividades produtivas no Sector dos Bens Transaccionáveis (excepção feita a uma ou outra “grande empresa”) a pretexto de que casas de habitação e remunerações penhoradas é que eram garantias - e das sólidas,
•Os mesmos que preferiram emprestar dinheiro a quem nada percebia de “produtos financeiros”, a colocar ao alcance da economia portuguesa soluções para a cobertura dos riscos financeiros que a tolhiam,
•Os mesmos que, todos as manhãs recitavam, comprazidos, “Espelho meu! Espelho meu...” gabando-se da excelência da sua gestão e da profundidade do seu saber,
•Os mesmos que diziam que só o altruísmo os retinha por cá, uma vez que “este país” não os merecia e que le grand monde é que era o seu habitat natural,
•Os mesmos que receberam prémios simpáticos só por fazerem o que arruinava lentamente a economia, sem disso terem a mínima consciência,
•Os mesmos que exigiam da clientela comissões e encargos a pretexto de tudo e de nada, mas que se recusavam a reconhecer a fiança ad perpetuum com que os contribuintes portugueses os amparavam,
•Esses mesmos – vêem agora exigir que o Governo patrocine (e, naturalmente, avalize, mas isso fica nas entrelinhas) junto da UE um apoio de € 15 mM ao abrigo de uma modalidade que ninguém conhece?
•E não lhes ocorre ir mendigar esse apoio aos seus accionistas, a sede apropriada para tal, talvez para evitarem perguntas impertinentes que abalem a sua auto-estima e para não terem de se confrontar com as explicações fantasiosas que têm vindo a prestar todos estes anos?
•E não lhes ocorre pôr os seus lugares à disposição, dada o óbvio e manifesto falhanço das suas actuações?
•Mais uns para quem tudo o que de mal acontece é fruto da fatalidade - e a culpa mora sempre algures. Triste sina a nossa.
- A. Palhinha Machado, Abril 2011

- Tanta hipocrisia, será que ninguém, politicamente responsável, pede contas?

- E a Procuradoria-geral da República ou o Provedor de Justiça não encontram matéria de facto para actuar?

- É estranho, não é? (

por DC
--------------------
- É estranho, não é? ou talvez não...

por isso é que é tempo de ACÇÃO DIRECTA
para melhorar a Democracia e passar a existir Justiça.


De Pela ACÇÃO ou pela REVOLUÇÃO... a 29 de Abril de 2011 às 10:37
menvp disse... (na Barbearia do sr.Luis, 29.4.2011)

Há pois é... continua a existir um silenciar do FULCRO da Revolução na Islândia!!!
.
Nota:
o FULCRO da Revolução na Islândia não é o discutir "pagamos" versus "não pagamos"... mas sim, o 'corte' com as regras da superclasse (alta finança - capital global):
- a superclasse (nota: controlam os media) quer Democracias-Fantoche... leia-se: Democracias facilmente manobráveis por lobbys...
- a superclasse não está interessada em Democracias aonde os cidadãos exijam, não só maior transparência aos governos, como também o Direito de VETAR as 'manobras' com as quais não concordam!
.
um exemplo:
Esta história do TGV nem era assunto de grande conversa!!!... Visto que:
- "Existindo várias empresas de transportes por rentabilizar (leia-se, com grandes prejuízos) como, por exemplo, a CP, a Transtejo, o Metro do Porto, etc; e estando o país sob a ameaça da bancarrota...vai-se construir mais uma empresa deficitária: o TGV!!!... Meus meninos (leia-se políticos) deixem-se de brincadeiras porque a coisa será VETADA pelo contribuinte! Mais, meus meninos (leia-se políticos) preocupem-se é em incentivar o aparecimento de empresas sustentáveis sem 'assalto' ao contribuinte".

anexo:
«A VERDADE INCONVENIENTE é que não existiam, na economia portuguesa, razões substantivas quer em termos do sector financeiro, quer em termos de dívida (mais baixa do que a da Itália), quer em termos de défice (mais baixo do que o de vários países da UE) que justificassem a dimensão dos fortíssimos ataques especulativos de que foi vítima, ao contrário da Irlanda ou da Grécia...»
.
1- Os 'ataques' dos corruptos poderão custar milhares (ou milhões)... todavia, o cidadão poderá fazer alguma coisa...
2- Os 'ataques' dos especuladores custam milhares de milhões... e... o cidadão está de mãos atadas - não pode fazer nada!
.
Resumindo e concluindo: é urgente uma nova alínea na Constituição: o Estado só poderá pedir dinheiro emprestado nos mercados... mediante uma autorização obtida através da realização de um REFERENDO.


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