7 comentários:
De Estado mínimo, democracia vai-se a 13 de Maio de 2011 às 11:33
Estado mínimo, democracia declinante
por BAPTISTA-BASTOS11 Maio 2011, DN

Creio que já ninguém duvida das características ideológicas contidas no projecto de Pedro Passos Coelho.
Não têm nada a ver com o ideário social-democrata:
baseiam-se no breviário mais extremo do ULTRANEOLIBERALISMO.

Não se trata, aqui, da velha questão de conteúdo e de forma que, desde Aristóteles a Lukacs, não só enuncia um conceito de estética como atinge uma dimensão antropológica. Nem, sequer, é mera pendência de semântica.

Assim como o PS nunca foi "socialista", o PSD crê na "arte de governar" cristalizada numa ordem social cegamente obediente ao paradigma do "mercado."

Menos Estado, melhor Estado, eis o lema do PSD, que contraria, de raiz, a natureza da opção genuinamente "social-democrata".
De cada vez que o Estado diminui, a democracia decresce. É dos livros e é da História.
Basta ler um pouco mais, frequentar a cultura humanista com mão diurna e mão nocturna para que se perceba um princípio de explicação do funcionamento social. Como, aliás, assinalou Alexandra Prado Coelho num texto admirável a vários níveis e inserto na revista Pública do passado dia 8. A cultura é uma disciplina da política. E a política um dos interesses da cultura.

A jornalista titulou o seu trabalho com esta fórmula provocatória: "As elites já não estudam Letras e talvez façam mal." Claro que fazem, como temos testemunhado nos últimos anos portugueses. As elites não o são, exactamente porque descuraram o estudo da harmonização das relações humanas. A sua existência política funda-se numa dramática ausência de conhecimento desses laços.

O que o programa do PSD propõe é que o governo não é a solução mas sim o problema, afinal perfilhando a tese da senhora Thatcher, segundo a qual "a sociedade é uma coisa que não existe, existem só indivíduos e famílias". Recorramos a Tony Judt:
"Se o governo é o problema e a sociedade não existe, então, o papel do Estado é mais uma vez reduzido ao de facilitador."

Admitindo que José Sócrates é, como se diz por aí, um "incompetente criminoso", Pedro Passos Coelho seria o "idiota útil" à execução de uma política de expansão do capitalismo predador e de limitação perversa do Estado.

Este ficaria reduzido a um empreendimento comercial com gestores destinados a fixar "objectivos" e a orientar as suas tarefas para o "lucro" a qualquer preço.
Na minha opinião, Sócrates sempre soube muito bem o que fazia.
Mas Passos saberá da camisa de onze varas em que se mete e nos pretende enfiar?
As suas hesitações, a indecisão do seu discurso e a volatibilidade das suas ideias sugerem que pretende uniformizarnos a uma prática tão absurda quanto contrária ao nosso espírito, e reduzir, cada vez mais, a pluralidade das experiências comuns a uma infame mascarada.
As perspectivas que se abrem aos nossos horizontes visíveis são assustadoras.


De Facção (PS-PSD-PP) predatória do Estado a 13 de Maio de 2011 às 11:46
RESGATAR O ESTADO
por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES, DN, 12.5.2011

Se o Estado é a instituição destinada à procura eficiente do bem público, acima do egoísmo dos particulares, sobretudo dos egoísmos mais poderosos,

então o Estado, em Portugal, há muitos anos que deixou de existir na plenitude da sua vocação. Foi capturado por uma poderosa facção de interesses, que se apoderaram do PS e do PSD.

Vejamos o exemplo de Sócrates. Qual era o seu currículo antes de chegar a primeiro-ministro? Uma gestão danosa do Euro 2004. Ele foi o rosto dos estádios abandonados que continuam a devorar inutilmente recursos públicos escassos.
Ele deu a cara, também, pela condução ruinosa do Polis - um projecto que só uma mente provinciana poderia conceber como resposta à complexa questão das cidades - mas que aumentou a dívida soberana.

Em Portugal, a má gestão de dinheiros públicos tem sido uma "vantagem" na selecção do pessoal político, pois o nosso país não tem uma "classe dominante", ao contrário do que fantasiam os marxistas.

No nosso país manda uma facção predatória que assaltou o Estado, a partir do paulatino controlo do processo de degradação dos partidos do bloco central.

A facção que nos arruinou é formada por uma constelação de interesses que se alimentam através do aumento da nossa dívida pública e privada.

As grandes construtoras, as grandes empresas de distribuição, as centenas de gestores recrutados de entre os quadros do PS e do PSD, o pessoal político menor das autarquias, regiões, e parlamentos que, com honrosas excepções,
é venal e pouco preparado, e os bancos, que estão sempre do lado de onde sopra o lucro.

O problema é que os interesses desta facção são diametralmente opostos aos interesses de, pelo menos, 95% da população portuguesa.

O País precisaria de desenvolver as suas capacidades endógenas, em particular na agricultura, nas pescas, na energia, na indústria, nas redes de distribuição, nos transportes.

Contudo, a facção dominante vive à custa do endividamento, e tem medo da competição internacional.
A facção que capturou o Estado é uma máquina de processamento de dívida, de degradação do ambiente, e de desorganização do território.

As grandes obras públicas ou os bairros periféricos das grandes cidades, inúteis na maioria dos casos, são sorvedouros de fundos comunitários e de empréstimos externos.

As grandes cadeias de distribuição tudo fazem para destruir a nossa capacidade alimentar própria, fomentando a importação.

A política de transportes é a principal causa do aumento da nossa pesada factura em combustíveis fósseis.

Que ninguém se iluda. A 5 de Junho vamos mudar o conselho de gerência, mas a facção vai querer continuar à frente do "Estado".
O pacote de resgate culminou anos de desvario, e deveria incitar a um mudar de rumo.

Contudo, enquanto o Estado não for resgatado pela sociedade - sendo colocado ao serviço dos milhares de interesses plurais, mas convergentes, de um tecido social saudável - a conta vai continuar a ser paga pelos 95% que ficaram de fora.
Por quase todos nós.


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