Aliança e convergência de esquerda para a União Europeia

O canto do cisne da social-democracia

No dia em que as notícias se concentram na alegada agressão sexual de Dominique Strauss Kahn, director geral do FMI e favorito às próximas presidenciais em França, vale a pena assinalar a celebração, na semana passada, dos trinta da subida ao poder do PSF, em aliança com o Partido Comunista e os Radicais de Esquerda. Esta foi a última vez que um programa de esquerda, progressista, em “ruptura com o capitalismo”, ganhou umas eleições na Europa. As últimas eleições celebradas nas ruas com uma imensa mobilização popular (foto acima). Este programa envolveu uma resposta à crise estrutural de então, que passou por nacionalizações, aumento do salário mínimo, redução para 39 horas da semana laboral, forte controlo do sector financeiro, imposição de um imposto sobre as grandes fortunas, etc. A este programa económico somaram-se medidas tão importantes como o fim da pena de morte ou a regularização de imigrantes ilegais.
Esta foi, todavia, uma experiência breve. A subida ao poder da coligação coincidiu com a extraordinária subida da taxa de juros norte americana (chegando quase a 20%) o que causou um profunda recessão mundial que afectou a França (a chegada do FMI a Portugal nesta altura também não é coincidência). O resultado foi uma viragem de 180º da política do governo francês, comandada por Jacques Delors, rendendo-se ao neoliberalismo então reinante. Os comunistas saíram do governo em 1984, colapsando nas eleições subsequentes. Em 1986, a CEE faz a sua própria viragem neoliberal, através do Acto Único Europeu.
Este breve período deixou, no entanto, lastro histórico. Não só no campo das conquistas sociais, como também no espectro político francês. Uma experiência com muitas lições para quem pretende a convergência das esquerdas
      A celebração dos trinta anos da vitória da esquerda juntou, novamente, milhares de pessoas na Bastilha.   
 
           As periferias têm de exigir em conjunto
Grécia volta a pedir emissão de obrigações europeias para combater crise. É isso ou a reestruturação. Mas, é claro, podemos começar pela últimaopção antes de chegarmos à primeira.    
Recuo de 0,7 por cento do PIB no primeiro trimestre oficializa recessão no país. Entretanto, a Comissão Europeia prevê uma retracção de 2,2% para este ano, pior do que a previsão da troika. Aposto que, dentro da mesma lógica insana da desconstrução europeia, vão recomendar um reforço da austeridade recessiva. Razão tem Stiglitz: a austeridade não funciona porque destrói a capacidade de criação de emprego.  (-
Este rumo era previsível a partir do momento em que o poder político, pressionado pelo poder financeiro, enveredou pelas medidas austeritárias. Mais previsível ainda se tornou quando o governo e todo o arco da austeridade, reagindo à escalada da pressão transformada em sequestro, convidaram o sequestrador a assumir as rédeas da governação. A crónica deste sequestro da democracia era anunciada desde que, com a mais recente crise internacional, a especulação se virou para as dívidas dos Estados periféricos da Zona Euro, com economias mais vulneráveis. Só a construção de entendimentos entre esses países periféricos, acompanhada pela recusa, no plano nacional, de transferir para os cidadãos o pagamento de uma crise originada na esfera financeira e na captura dos recursos públicos pelos interesses privados, poderia ter permitido trilhar um caminho alternativo. - Sandra Monteiro, Democracia sequestrada.

Destaque ainda no número deste mês para o editorial de Serge Halimie para o artigo do economista Nuno Ornelas Martins, mobilizando Keynes e Sen para argumentar que o crescimento das desigualdades na distribuição de rendimentos é responsável pelos défices de procura efectiva e que a prioridade democrática tem de ir, também por isso, para a sua redução. No meu artigo faço um ponto da situação da intervenção externa e da desunião europeia.  (-


Publicado por Xa2 às 07:11 de 16.05.11 | link do post | comentar |

4 comentários:
De ''Reformas estruturais'' arrasadoras... a 19 de Maio de 2011 às 11:09
A INSENSATA SUPERTSTIÇÃO DAS REFORMAS ESTRUTURAIS

«Em Janeiro de 1957, uma equipa de técnicos da Companhia Portuguesa de Celulose liderada pelos engenheiros Rolo e Von Haffe descobriu uma forma de produzir pasta de eucalipto branqueada pelo processo kraft.

A prazo, esse feito alterou a composição da floresta portuguesa, alicerçou as bases de uma indústria até então periclitante, criou um escol de engenheiros papeleiros e permitiu a rápida expansão das nossas exportações de pasta e papel ao longo de cinco décadas.

Apesar disso, a mais importante inovação tecnológica do século XX originada em Portugal não só não foi à data noticiada nos jornais como ainda hoje permanece numa relativa obscuridade.

As transformações mais decisivas são assim. Chegam com pezinhos de lã, resultam de uma multiplicidade de iniciativas descentralizadas de grupos de indivíduos que enfrentam condições adversas, vão contra a sabedoria convencional da época, os especialistas não as prevêem, são objeto de troça generalizada. Apesar disso, desencadeiam uma deslocação de recursos para aplicações mais produtivas - que é, afinal, aquilo em que consistem o aumento da produtividade e o desenvolvimento. Com o tempo, transformam os países e geram crescente bem-estar.

São episódios deste género - fruto de trabalho, conhecimento e esforço especializados e orientados para a melhoria do desempenho - que dão origem ao desenvolvimento económico e social. Ilustram na perfeição o espírito reformista, que privilegia, na ação empresarial como na governativa, uma mescla de ousadia e ponderação, pequenos passos que se combinam para gerar grandes avanços, progresso metódico, experimentalismo sistemático, risco controlado, avaliação rigorosa dos programas ensaiados, aversão a aventuras dificilmente reversíveis.

Ora, o apelo às reformas estruturais assente na esperança de virar a página transformando tudo de uma penada é o contrário de tudo isto. Sophia de Mello Breyner saudou o 25 de Abril como "o dia inicial inteiro e limpo". Poucas semanas decorridas, já todos sabíamos que, bem longe de podermos começar tudo de novo fazendo "do passado tábua rasa", não só estamos condenados a carregar esse passado às costas como ignorá-lo pode ser muito perigoso. Goste-se ou não, é mesmo assim.

Mudar muita coisa em pouco tempo tem dois tipos de problemas. O primeiro é que, sendo muito insuficiente o nosso conhecimento sobre o modo como as sociedades funcionam, corremos o risco de provocar inesperadas catástrofes em tudo contrárias ao resultado desejado. O segundo risco, na prática ainda mais relevante, consiste na generalização de confrontos de todos contra todos quando se abre uma guerra simultânea em múltiplas frentes contra adversários entrincheirados e poderosos.

As reformas estruturais falham, antes de mais, porque facilitam a tarefa aos interesses instalados. Quando se proclama com grandes fanfarras que vão ser postas em marcha, o que de facto se consegue é alertar todos os seus opositores para a urgência de se unirem e organizarem contra elas. A diversidade das abordagens adotadas explica por que é que, depois de alguns ensaios falhados, as reformas na saúde têm entre nós progredido mais que na educação ou na justiça.

A fúria reformista é, ao contrário do reformismo discreto e quotidiano, um traço típico dos países subdesenvolvidos, onde volta não volta alguém descobre a pólvora e promete a regeneração nacional ao virar da esquina. É por isso que não há reformas estruturais na Suíça ou nos EUA, mas sim na Argentina, na Turquia ou no Bangladesh. Uma reforma estrutural é uma revolução, e falha exactamente pelas mesmas razões: voluntarismo a mais e consistência a menos. O principal resultado prático é muita agitação e poucas transformações reais. As verdadeiras reformas não se fazem de uma assentada: vão-se fazendo persistentemente, no dia a dia, sem perder de vista o propósito ambicioso que está na sua origem. É isso, aliás, o que a palavra reformismo quer dizer.

Em Portugal fazem-se ''reformas estruturais'' a mais ...


De .Preferível ir Melhorando gradualmente. a 19 de Maio de 2011 às 11:13
A INSENSATA SUPERTSTIÇÃO DAS REFORMAS ESTRUTURAIS

...
Em Portugal fazem-se reformas estruturais a mais, não a menos. A Constituição está sempre em obras, e não há maneira de lhes vermos o fim. Mal acaba uma revisão constitucional, anuncia-se logo a próxima. Daí para baixo, é todo o edifício jurídico que vive em contínua convulsão, com os resultados conhecidos. Deitar abaixo e fazer de novo pode ser um modo de vida interessante, mas não é certamente o mais eficaz. Os países não mudam assim.

Diz-se que nas ciências sociais é impossível realizar experiências programadas, mas os portugueses poderão, em breve, desmentir tal alegação, oferecendo-se como cobaias para testar uma avalanche de reformas estruturais cujo estudo fará as delícias da comunidade científica nas décadas vindouras. Se correr mal, paciência.»

[-por João Pinto e Castro, Jornal de Negócios, via OJumento 19.5.2011].


De Piores q. os Agiotas do FMI... a 18 de Maio de 2011 às 12:39
Depois dos pecados de Strauss-Khan pode ser ainda pior
-- por Daniel Oliveira


Não me vou meter nos alegados crimes de Dominique Strauss-Khan. Logo se verá se é culpado.
Muito menos fazer tentadoras metáforas que misturem o sucedido com a atuação do FMI, que além de serem de mau gosto tendem a baralhar o que é política e o que está fora dela.
Limito-me a imaginar algumas consequências do irremediável afastamento do francês, pelo menos por vários meses, da direção do Fundo Monetário Internacional.

Elas serão pelo menos duas:
o provável endurecimento do FMI e
a possível saída de europeus e americanos dos comandos da organização.

Temos chamado à intervenção da troika, por facilidade, de intervenção do FMI. A sigla traz uma memória impressiva que facilita o entendimento da natureza daquilo a que gente de má-fé (ou mal informada) chama de "ajuda externa".
Não teria o mesmo efeito visual dizer "intervenção europeia".
Na memória dos portugueses, FMI é austeridade, Europa é prosperidade.

Mas a verdade é bem diferente. Quem acompanhou as notícias que foram saindo sobre o processo negocial para o empréstimo a Portugal percebeu que houve uma tensão entre os dois lados europeus - BCE e Comissão Europeia - e o FMI.
E que onde o FMI dizia mata, a Europa dizia esfola, tortura, trucida.

Do ponto de vista da receita económica para o País estiveram os três mais ou menos de acordo:
* privatizar, * flexibilizar, * liberalizar, * desregulamentar. (despedir, comprar ''por tuta e meia'' os bens públicos, explorar selvaticamente ... )

A receita, que sempre fez escola no FMI e que se impôs ao Mundo depois de Thatcher e Reagan, corresponde ao CONSENSO da ELITE POLÍTICA ao SERVIÇO da elite FINANCEIRA.
E nem o facto de nos ter levado a uma crise financeira internacional de proporções extraordinárias abalou a fé dos seus promotores.

Mas pelo menos numa coisa a divergência era relevante para nós:
foi o FMI a bater-se por condições menos penalizadoras no pagamento da dívida. Mais tempo para pagar, juros menos altos.

Ou seja, dentro da desgraça, o FMI ainda tentou que ao menos se fingisse que as condições permitiriam o cumprimento do pagamento da dívida.
A Europa, essa, pressionada pela CEGUEIRA económica e política da senhora Merkel e por uma opinião pública europeia INTOXICADA por discursos simplistas e POPULISTAS sobre as dívidas dos países periféricos, queria apenas uma coisa:

SACAR o máximo possível, o mais depressa possível, para dar tempo aos bancos do norte da Europa para se RECAPITALIZAREM antes da inevitável renegociação da dívida, lá para 2013.
Enquanto o FMI tirou, apesar de tudo, uma ou outra lição do que se passou na Grécia, a Europa esteve-se olimpicamente nas tintas.

E se o resultado na imposição de políticas RECESSIVAS foi, ao contrário do que disse o primeiro-ministro, péssimo, nas condições ele poderia ter sido ainda pior.
Fazendo as contas, o PAGAMENTO da dívida é IMPOSSÍVEL nestas condições.
Portugal teria de conseguir, com quebra de receitas e crise económica e social, um excedente orçamental de 3,5 por cento do PIB até 2013.
A verdade é que o Estado português já é insolvente.

Mas o que a Europa queria era mesmo evitar qualquer RENEGOCIAÇÃO antes de esvaziar os cofres.
O FMI acabou, apesar de tudo, aplicar juros mais baixos.
A diferença entre o FMI e a Europa resume-se, mais coisa menos coisa, a isto:
o FMI mantém-se cego pela ideologia dominante,
a Europa está pura e simplesmente enlouquecida.

Strauss-Khan não era um aliado de Portugal. Tinha sobre a intervenção externa a mesma visão punitiva e recessiva.
Mas parecia ter alguma, mesmo que pouca, capacidade para aprender com os erros e com o descalabro que está a ser intervenção na Grécia.
A ida para a liderança do FMI de alguém que esteja distante dos problemas europeus poderá significar o regresso da linha mais dura.
Aquela que, há alguns anos, deixou um rasto de destruição na Argentina.

Independentemente das culpas de Dominique Strauss-Khan no caso do hotel de Nova Iorque, não há razão para festejar a sua desgraça.
Sim, pode ser ainda pior. No estado em que está o Mundo não devemos nunca subestimar a ESTUPIDEZ das ELITES políticas (e económico-financeiras) internacionais.


De Prós e prós... / contras ... a 18 de Maio de 2011 às 12:14

Anónimo disse...

(sobre o ''Prós e contras'' ...)
Foi excelente a intervenção daquela jovem senhora da plateia ...
------------------
Marco disse...
Olá, João (Rodrigues):

Queria manifestar a minha satisfação pela sua participação no Prós & Prós de ontem.

Terá sido a emissão em que melhor me senti representado e defendido graças às suas posições e às da malta do 12 de Março.

Finalmente a sinistra unanimidade entre a troika interna, os "empreendedores" de serviço e uma assistência sempre pronta a seguir à la Pavlov a velha receita vamos-culpar-a-classe-política-em-conjunto-para-que-não-se-perceba-que-quem-manda-nisto-é-o-capital, foi denunciada como embuste para fintar eleitores incautos, de forma documentada, clara e combativa.

Em suma: parabéns!!!
---------
Parabéns ao João Rodrigues.

E a todos aqueles que desnudaram,mesmo que parcialmente,os "Reis".

Pena é que o Povo de Esquerda continue sem uma alternativa real...mas de poder.

As 2 troikas - interna e externa -"estão-se cagando" para protestos que não lhe ameaçam o poder e as políticas que,a partir de lá,defendem e executam.

A falta de qualidade política e ideológica das direcções do PCP e do BE vão,OBJECTIVAMENTE, eternizando a direita no poder,a nível nacional e a nível local.

Se durante a ditadura fascista a política de alianças do PCP tivesse sido igual à actual (inexistente) ,ainda hoje vivíamos debaixo da pata de um qualquer ditador.

A incapacidade táctica do PCP ao longo das diversas conjunturas pós-1975 contribuiu muito para o estado da esquerda portuguesa.

Sem querer desculpar ou branquear a deriva do PS para a direita.

Há hoje bandeiras que deviam ser da esquerda e que,inexplicávelmente,por preconceito,por fechar os olhos à realidade e à verdade,estão nas mãos do CDS.

O Povo de Esquerda precisa de ser mobilizado em torno de uma alternativa real,exequível,preparada para responder às novas realidades,tal qual são e não como o cenário de um passado longínquo.

A esquerda marxista tem que utilizar o materialismo dialético e as suas leis para analisar e propor soluções inovadoras,galvanizantes,para a realidade de hoje e não se limitar a repetir chavões e frases feitas na base da realidade de há mais de um século.

Têem de surgir novos ideólogos,capazes de indicar caminhos novos para a elaboração de um sistema que traga esperança e justiça aos povos no séc. XXI.

A esquerda,num plano mais global,tem de apresentar referências,faróis para os povos.

Que não sejam a Coreia do Norte,a China e mesmo Cuba,apesar das grandes diferenças e condicionantes externas desta.

Há que estudar o Brasil de Lula.
Estudar para adaptar,para aperfeiçoar,não para copiar mecânicamente.

F. Oliveira


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