De ilha: Polvo ditatorial 'consentido' a 4 de Outubro de 2011 às 11:49
A anatomia do polvo jardinista
por Daniel Oliveira

Ao contrário do que pensam algumas pessoas, a democracia não é a ditadura da maioria. Ela exige regras. Para que o voto não se transforme num mero plebiscito, para que as minorias sejam respeitadas nos seus direitos, para que continue a vigorar a lei que vive acima dos poderes de cada momento. Uma democracia só o é se estiver garantida a separação de poderes, se existir uma imprensa livre, se existir na sociedade um grau de autonomia mínimo que permita que ela não seja refém dos detentores circunstanciais do poder político, se à oposição forem dados instrumentos para o ser e se aos eleitores forem dadas as condições para decidir em liberdade.

Olhando para a Madeira com atenção é difícil dizer que ali existe realmente uma democracia. As pessoas votam e existe pluripartidarismo, é verdade. Não se poderá dizer que é uma ditadura, até porque, sendo uma região integrada num país democrático, dificilmente poderia ali sobreviver um regime autoritário. Mas, para ser uma democracia, faltam-lhe demasiadas coisas.

Antes de mais, a sociedade madeirense está refém de uma pessoa e do seu circulo de poder.

Os principais empresários locais e os dirigentes regionais das principais empresas nacionais, com destaque para os bancos, são pessoas com fortes relações com o circulo de influências do presidente regional e, para ali fazerem negócios, precisam de ter a sua simpatia. As empresas que não ajudem o regime são economicamente sabotadas. As que deem uma ajuda são financiadas de forma indireta e muitas vezes ilegal. Para subir na carreira o cartão de militante do PSD é quase uma condição curricular. Esta é a rede de dependências que o jardinismo construiu no topo da sociedade madeirense.

Na base, a grande maioria dos madeirenses trabalha para o Estado. Com raras exceções, os principais empresários - empregadores do sector privado - são muito próximos do regime, quando não fazem mesmo parte dele. Quem dê nas vistas no combate ao partido-Estado ou se atreva a concorrer em listas da oposição é bom que tenha a sua situação profissional bem defendida ou o mais provável é vir a conhecer o desemprego.

Apesar dos rios de dinheiro que recebeu, a Madeira tem dos mais baixos índices de escolarização no País. É a segunda região portuguesa com mais analfabetos, só sendo ultrapassada pelo envelhecido Alentejo. Enquanto no Continente 9% da população é analfabeta - nos Açores é 9,4% -, na Madeira são 12,7%. Tem a maior percentagem de cidadãos que se ficou pelo primeiro ciclo. Em 2002, cerca de quarenta por cento da população não tinha a escolaridade obrigatória. Isto diz muito sobre o tipo de desenvolvimento em que Jardim apostou.

Numa região fortemente marcada pela religião, a Igreja Católica é cúmplice ativa do regime, numa relação promíscua que não encontra paralelo no resto do País. O Governo Regional paga-lhe as contas e dá-lhe as ordens. O clero faz campanha ativa e sem qualquer pudor pelas "setinhas viradas para céu". E um padre que se atreva a pôr em causa o governante encontra ali enormes dificuldades.

Na Madeira compram-se votos às claras. As juntas de freguesia distribuem, nas campanhas eleitorais, madeiras, tijolos, tintas e telhas. Quem se sabe não ser da situação vai para casa de mãos a abanar. E tudo sem qualquer discrição. Não é preciso porque nunca nada tem qualquer consequência.

Com uma pequena classe média dependente do regime e uma população pouco escolarizada e cercada de jardinismo por todos os lados não tem sido difícil, para o presidente do governo regional, manter o circulo de poder bastante apertado.

Na Madeira não há qualquer separação de poderes nem nenhuma lei parece conseguir limitar a ação de Jardim e dos seus homens de mão. As perseguições aos opositores políticos são comuns. Num meio pequeno, o sistema judicial e de segurança vive paredes meias com o regime e garante a sua impunidade absoluta, deixando completamente desprotegidos os que não aceitem o poder absoluto de Alberto João Jardim.

Existe a imprensa e as televisões do continente, um dos poucos sinais de pluralismo na ilha. Mas o jornal mais lido da Madeira, que sempre foi o "Diário de Notícias" local, onde trabalham jornalistas com uma enorme coragem e dedicação, vive com enorme...


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