Renegociar já.

A palavra proibida desta campanha: renegociação.

por Daniel Oliveira

      A palavra que sempre aparece associada à dívida irlandesa, grega e portuguesa em todos os textos que por esse Mundo se vão escrevendo tornou-se numa palavra proibida no debate político português: renegociação. As contas são simples e não deixam enganar: é virtualmente impossível pagarmos a dívida acumulada e a que, para pagar a que já temos (e recapitalizarmos os bancos), acabámos de contrair. Mesmo cumprindo todo o programa da troika tal não acontecerá. Os nosso credores sabem disso e preparam-se para a renegociação que virá. Apenas querem ganhar tempo. A verdade é esta: daqui a uns anos ou estaremos a pedir mais dinheiro emprestado para pagar os juros - olhem para a Grécia -, ou estaremos a não pagar ou estaremos a renegociar.

      Mas, em Portugal, quem ouse falar do assunto é chamado de radical, irrealista, caloteiro e irresponsável. E, no entanto, são os que se recusam a debater o inevitável que merecem cada um destes adjetivos.

      Radicais, porque acreditam que é da destruição da nossa economia e daquilo a que chamam de "regime" que nascerá a solução para os nossos problemas. Os ultras do liberalismo económico repetem o discurso que antes era mais comum na extrema-esquerda: sobre as ruínas da sociedade antiga nascerá o homem novo e deste tempo nada sobrará a não ser uma memória distante de um "Estado gastador" e dos privilégios dos "direitos adquiridos".

      Irrealistas, porque qualquer economista ou político sério sabe que nem em circunstâncias diferentes, com melhor situação económica, se conseguiria pagar esta dívida, com estes juros e estes prazos. Quanto mais num momento de crise internacional, quando os estímulos públicos ao crescimento nos estão vedados, se advinha uma recessão e se sabe que as receitas fiscais cairão e as despesas sociais, mesmo com todos os cortes, aumentarão. Olhe-se para os números da Grécia, um ano depois da "ajuda" externa, e aprenda-se alguma coisa.

     Caloteiros, porque esses é que pedem emprestado em condições que sabem que nunca poderão cumprir. Na realidade, tal como na economia doméstica ou nas empresas, só quer renegociar a dívida quem a tenciona pagar. Os caloteiros, esses, enganam os credores e enganam-se a si próprios, adiando a confissão das suas dificuldades até ao momento em que o inevitável se impõe.

      Irresponsáveis, porque tencionam empurrar o problema com a barriga. Alimentam uma bola de neve: pedir emprestado para pagar o que se pediu emprestado para pagar o que se pediu emprestado para pagar o que se pediu emprestado. Não percebendo que a única forma de quebrar este ciclo vicioso é garantir crescimento económico. Podem cortar toda a despesa do Estado, que os juros da dívida continuarão a aumentar se não combatermos o nosso verdadeiro problema estrutural: a divida externa, sobretudo privada. E que só há uma forma de a reduzir: crescer e poupar. Não há crescimento com políticas públicas recessivas. Não há poupança com uma austeridade cega e desvairada.

      Não estaremos pior daqui a uns anos porque era inevitável. Estaremos pior porque aceitámos a cartilha ideológica da moda no lugar do debate sério sobre a nossa economia. E esse debate sério inclui a proposta proibida: renegociação da dívida. Quanto mais tarde menos útil ela será. E quando os credores a quiserem fazer já de pouco nos servirá. A nossa economia será uma ruína. Diz-se: renegociar dará mau nome ao País. Imaginem o nome com que ficaremos quando não conseguirmos pagar de todo.



Publicado por Xa2 às 08:07 de 24.05.11 | link do post | comentar |

19 comentários:
De . Poker strip Agiota e Viciado. a 24 de Maio de 2011 às 10:09
As regras do jogo

Na discussão pública sobre a questão da dívida soberana, os cenários de reestruturação ou de não pagamento parcial são em regra rotulados, negativamente, como soluções «fora-da-lei». Isto é, como opções ilegítimas e imorais de que qualquer governo deverá abdicar, caso queira conservar, pelo menos, uma espécie de «dignidade» ou de «honra» institucional.

Valerá contudo a pena lembrar que as taxas de juro pornográficas a que têm estado sujeitas as dívidas soberanas dos países periféricos têm justamente, como fundamento, o risco de incumprimento. Ou seja, reestruturar ou saldar apenas parcialmente uma dívida faz necessariamente parte das regras do jogo, a partir do momento em que se aceita que um país fique obrigado a pagar um montante adicional, decorrente da «estimativa de risco» que os mercados entendem (sem demonstrada objectividade, aliás) apurar.

É por isso inaceitável o manto hipócrita de imoralidade e ilegalidade que se estende sobre os cenários de reestruturação e de não pagamento da dívida, sobretudo quando é com total naturalidade e legitimidade que se estabelece o pagamento de um montante acrescido apreciável (que se soma ao «valor legítimo» dos juros), nas situações em que os Estados saldam atempadamente as suas dívidas. Aliás, ao demonstrarem, desse modo, como eram infundadas as estimativas de incumprimento, os Estados deveriam inclusivamente poder mover acções indemnizatórias contra os credores, por manifesta falta de «verificação» do risco que levou à fixação de taxas exorbitantes.
(- por Nuno Serra )


De 1º a periferia fraca, depois o coraçãoUE a 24 de Maio de 2011 às 10:24
Para lá do moralismo económico europeu

A crise grega não pode ser circunscrita.
Esta é a beleza e o horror da moeda única:
sem mecanismos de absorção de choques, como a dívida comum, as tragédias dos fracos transformam-se nas calamidades dos poderosos.

Yannis Varoufakis (-via João Rodrigues, Ladrões, 23.5.2011)

Ring-fenced Greece: The evolution of a false promise first to an incredible threat and, then, to a dangerous delusion.

It all started with a false promise:
The Greek ‘bailout’ (i.e. a combination of a gargantuan, expensive loan and severe austerity) would contain the Greek debt mountain and would, in association with the establishment of the EFSF a few days later, ring-fence Greece thus preventing the crisis from spreading to Ireland and the Iberian peninsula.
... -------------
---DK
Greece is being used as a money funnel for the banking system.
It is politically expedient to blame Greece instead of “recapitalizing” German, French, etc. banks.
What makes you think that, when push comes to shove, Greece will not be allowed to default and that these banks will not be bailed out directly?
This is a less costly option for German and Dutch taxpayers.

---- Stephan
It’s depressing. 90% of your northern economist “colleagues” are either completely clueless or evil anti-people mainstream economics robots.
Which isn’t exactly a new insight but makes things now worse because they have such a big megaphone with the media.

Due to the crisis these people are suddenly all over the place with their crazy ideas.
Once they were confined to an ivory tower brain-washing some innocent students.
Now they are brain-washing whole nations.

And don’t get me started about the politicians and the Eurozone crisis.
These are negotiations between political cowards (traitors?) representing the debtor nations and political lackeys of the EU zombie banks pretending to represent the creditor nations.

---- Y-patia
This is exactly what they are doing as youn say:
Redesigning the entire European system.
Only in a way which does it by – allow me the pun – “default” with Greece being the scaring hare in front…

i.e. through the threat of leaving us to our fate for the rest to see and transfer wealth to the North more voluntarily than in the absence of the Greek drama looming.
First they take Athens then they take Madrid…


De Corrigir o Desvario Europeu e ... a 24 de Maio de 2011 às 12:45
O desvario europeu
por MÁRIO SOARES, DN, 24.5.2011

1. A União Europeia vai mal, sem rumo nem valores. Tenho insistido, nestes modestos artigos, que a União Europeia não vai poder aguentar, por muito mais tempo, a política neoliberal que tem prosseguido, em especial desde que a crise nos afecta. Porquê? Porque, ao contrário da América do Norte, tem persistido em não ver a realidade e em não querer mudar de paradigma ou seja: o modelo económico de desenvolvimento.

Os mercados especulativos continuam a dominar a política dos Estados membros da União, por enquanto apenas os considerados os mais fracos, e a sobrepor-se a todos os outros valores: às conquistas sociais, às políticas de bem-estar, ao pleno emprego - ideal (esquecido) dos anos cinquenta - aos próprios valores éticos...

Perante a crise que se vai estendendo a toda a União, o que conta, para os líderes europeus, é manter os equilíbrios financeiros: combater os deficits e o endividamento externo. Esquecendo o desenvolvimento económico, os perigos da recessão, o desemprego alarmante e as desigualdades sociais.

A Grécia foi a primeira vítima, com culpas de gestão pública evidentes. Mas as instituições europeias não compreenderam que o que estava em causa era a estabilidade do euro, que interessava acima de tudo defender. A reacção foi tardia, em grande parte por culpa da Alemanha e insuficiente relativamente às necessidades. A União Europeia, até hoje, nunca foi capaz de definir - e muito menos de executar - uma política concertada com todos os Estados membros contra a crise global, de defesa do euro e, por outro lado, esqueceu-se do valor essencial da solidariedade, a que todos os Estados membros estão - ou deviam estar - obrigados.

Estas faltas são muito graves e vão custar muito caro ao crédito internacional da União Europeia - ao seu prestígio -, criando precedentes internos, talvez fatais, para os mecanismos de funcionamento futuro da União.

Portugal, um ano depois da Grécia, em circunstâncias diferentes, é certo, sofreu ataques semelhantes dos mercados especulativos e das empresas de rating. A União Europeia tornou-se, entretanto, um pouco mais flexível, graças sobretudo à influência do Fundo Monetário Internacional. Mas as receitas economicistas não mudaram e os compromissos aceites, pelo lado português, vão ser extremamente difíceis de aplicar.

A União Europeia e, mais uma vez, a Alemanha não ficaram bem no retrato. Entretanto, outra responsabilidade gravíssima: pôr fim, ao que parece, de forma unilateral, ao Tratado de Schengen, em virtude dos milhares de imigrantes que, fugidos da Líbia e de outros países islâmicos, atravessaram, em velhos barcos, o Mediterrâneo, com risco de vida, e pediram asilo a Itália, que, por sua vez, reclamou a solidariedade da França, que lhe foi negada. Eis o egoísmo nacionalista em todo o seu esplendor! Ou seja: Itália e França deram uma machadada fortíssima nos ideais generosos com que se constituiu a União Europeia.

Não admira, assim, dados os exemplos citados, que comece a alastrar um espírito de mal-estar e mesmo de indignação, contra os líderes comunitários, pelas populações europeias. Por toda a parte, temos assistido a manifestações cívicas, felizmente pacíficas, em muitos dos Estados europeus, como a França, a Itália, o Reino Unido, a própria Alemanha e agora, até ao domingo passado, em Madrid e em muitas das grandes cidades de Espanha. Indignam-se contra as dificuldades da vida, o desemprego dos jovens, que avulta, nos países europeus, e reclamam contra a corrupção, exigindo outra política, mais liberdade e ética nos comportamentos.

Os Partidos estão em baixa, independentemente de se dizerem de Direita ou de Esquerda. Exigem deles um regresso aos grandes ideais: mais civismo e menos partidocracia e aparathecik. Querem sobretudo soluções para que a União reganhe o seu prestígio no mundo e possa voltar a ser um referência moral, política e social, num planeta cada vez mais inseguro e imprevisível.

Por essas razões - e ainda, outras -, num momento difícil de crise, os portugueses devem perceber que, em grande parte, as nossas dificuldades dependem da evolução da União Europeia, que nos condiciona.



De P'ra MUDAR U.E.: Crise tb pra França, It a 24 de Maio de 2011 às 13:35
O desvario europeu
por MÁRIO SOARES
...
Portugal, a Grécia e a Irlanda - embora, tenham, entre si, diferenças consideráveis - deviam conversar e definir uma estratégia comum relativamente à União. Somos velhos Estados, com histórias que, de diferentes ângulos, marcaram a Europa, o que nos dá o direito a sermos ouvidos e respeitados.

Ora os mercados especulativos não vão desistir de ganhar dinheiro.
Outros Estados vão ser igualmente atacados. A Bélgica, a Espanha, a Itália, talvez mesmo a França,
poderão ser as próximas vítimas, o que obrigaria a União a mudar de política, quer os seus líderes queiram quer não.

E é então que se abrirá, para nós - e para as restantes vítimas - uma janela de novas oportunidades, que teremos de estar preparados para aproveitar,
E a União Europeia a pôr fim ao ciclo de decadência e a ganhar um novo dinamismo e prestígio na cena internacional.
-----------------------

Mas 1º os CIDADÃOS têm de se manifestar expressivamente e pressionar os seus representantes políticos para estes levarem à UE (Comissão, Parlamento, Cons.Ministros Finanças, ...) uma clara e dura Mensagem, « é imperioso :

- REGULAR os MERCADOS (e sua AGIOTAgem),

- acabar com as OFFSHORES,

- criar uma Agência Europeia de ''rating'' e levar a tribunal (por manipulação, fraude, corrupção, ...) as outras,

- Criar um ORÇAMENTO EUROPEU comum e IMPOSTOS comuns, e títulos de tesouro comum,

- controlar/restringir as IMPORTAÇÔES de países que praticam ''DUMPING'' económico, social e ambiental

- Controlar o BCE e FEEF , pondo-os ao serviço do Desenvolvimento dos países/regiões europeias, do crescimento económico e do pleno emprego;

- Criar um verdadeiro exército Europeu (reduzindo os 'nacionais'), e política externa comum.

i.e. criar um verdadeiro espaço de União, Solidariedade e Desenvolvimento, tipo con-FEDERAÇÂO .»


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