5 comentários:
De Baptista Bastos -Jornaldenegocios a 15 de Junho de 2009 às 23:04
A esquerda não foi derrotada

Quem tem ideais de Esquerda sentir-se-á frustrado e magoado com a derrota do PS? Não o creio. Ideais de Esquerda é acreditar na solidariedade, na equanimidade, na justiça social, em uma melhor distribuição da riqueza, numa sociedade onde a política se sobreponha aos grandes interesses económicos - enfim; que puna a corrupção, o nepotismo, o tráfico de influências.

Ora, a verdade é que "este" PS tripudiou sobre esses grandes princípios de Esquerda. Claro que o PSD não colmata as deficiências, os desvios ideológicos e as derivas do PS.

A vitória de domingo pode ser uma vitória de Pirro, mas não acredito. As pessoas, em geral, estão completamente ausentes, ou longínquas, da governação "socialista", e esse desencanto veemente pode levá-las a tomar o PSD como antídoto ou como objecto de vingança. Já aconteceu. Noutras e em circunstâncias semelhantes.

Têm dito, também, que o resultado das europeias não irá afectar as legislativas nem as autárquicas. Tenho uma opinião contrária. Está criada uma dinâmica de vitória e, historicamente, estas diligências produzem um movimento multiplicador. O PS foi demasiado longe nas cedências, nas capitulações e na delapidação da sua própria identidade ideológica. Hoje, o PS não é carne, nem peixe, nem arenque vermelho. De "socialismo" nem o mais tímido cheiro. E o estribilho com que Sócrates tentou dissimular a viragem à direita ("Esquerda Moderna") constituiu uma fraude desprovida de qualquer sentido ético, ideológico, de séria tentativa de mudança ou de aprofundamento do projecto socialista.

José Sócrates tem promovido, com desenvolta soberba, as mais elementares propostas do neoliberalismo. Mário Soares chamou a atenção, em artigos publicados no "Diário de Notícias", palestras e debates, da deriva deste Governo e dos desvios do partido, onde a discussão é inexistente. Chamou tarde de mais. Já Sócrates, em alegre e leviana cavalgada, era elogiado por associações patronais, por confederações de empresários e por voláteis comentadores de Direita. Fez o que tem feito e, segundo disse na noite da derrota, não mudará de rumo.

Enquanto a sociedade civil protestava com ímpeto e arrojo; enquanto as ruas do País se enchiam dos gritos indignados de milhares e milhares de pessoas; enquanto o desemprego subia em desfilada; enquanto oceanos de dinheiro desaguavam em bancos, como actos salvíficos das redes financeiras; enquanto muitos prevaricadores passeavam uma impunidade atrevida, e os nossos velhos morriam nos jardins, de espanto, de assombro, de solidão e de desventura - enquanto isso, José Sócrates fez ouvidos moucos causando uma indignação maior pelo desprezo que demonstrava.

Claro que uma pessoa com ideais de Esquerda não ficará satisfeita com a derrota do PS no domingo. Porém, convém esclarecer algumas ambiguidades. Afinal, vencedores e vencidos são amigos uns dos outros: os grandes barões de um e de outro partido encontram-se nas mesmas empresas, nos mesmos gabinetes, nas mesmas administrações: pertencem a essa casta que divide o poder entre si, como opção de vida e não como espírito de missão. Aliás, espírito de missão parece coisa anacrónica e soa a arcaísmo. A vida portuguesa, em uma ou em outra circunstância, não vai sofrer alterações substanciais. Eles não querem. Sempre se bateram pela alternância e sempre contrariaram a alternativa. Uma Imprensa poderosamente apostada em criar e em manter a imbecilidade e em preservar o pretenso "equilíbrio" das "forças tradicionais" tem-se abstido de provocar o debate e de admitir outros partidos (o PCP e o Bloco de Esquerda, por exemplo) como pares de uma possível alteração no "arco do poder".

Há muita gente interessa em manter este pantanoso estado de coisas. E há muita gente com dinheiro suficiente para comprar quem à venda esteja e nenhuns escrúpulos manifeste. O último número de "Le Nouvel Observateur" (leitura cada vez mais indispensável) publica uma importante entrevista com o grande historiador britânico Eric Hobsbawm (tem livros editados em Portugal, pela Presença), na qual os problemas centrais do nosso tempo são dilucidados. O título da entrevista: "O Regresso a Marx" repõe a questão do conhecimento como melhor forma de nos defendermos.

...


De Zé T. a 16 de Junho de 2009 às 12:54
Boa análise

Talvez seja ainda mais interessante ...
se a que a esquerda, os contribuintes, a classe média for mais interventivos e solidários...

era óptimo (e sinónimo de verdadeiro Desenvolvimento) que a ''classe média'' fosse muito grande e esclarecida, acantonando ao ínfimo a pobreza, a riqueza, e a iliteracia.

talvez as ''orelhas moucas'' do poder, em Outubro, sejam abanadas por uma nova votação massiva nos partidos fora do centrão PSD-PS., porque,

«Afinal, vencedores e vencidos (leia-se PSD e PS) são amigos uns dos outros:

os grandes barões de um e de outro partido encontram-se nas mesmas empresas, nos mesmos gabinetes, nas mesmas administrações:
pertencem a essa casta que divide o poder entre si, como opção de vida e não como espírito de missão. ...»


De marcadores a 16 de Junho de 2009 às 17:00
Este comentário não devia ser um comentário, mas pella clareza de análise de BB, deveria ser um post.


De PS(E) - partidos sem esperança a 15 de Junho de 2009 às 14:36
interessante ''visita partidária'' pela UE.
«...
4. As esquerdas europeias não souberam, pois como se viu, nestas eleições, oferecer um caminho crível de combate à crise, que incorporasse em si próprio elementos que tornassem impossível a sua repetição. E em particular, a sua componente tendencialmente hegemónica ,

o PSE, foi incapaz de traduzir os seus resmungos contra o neo-liberalismo num inventário crítico de todas as sequelas que ele deixou nas políticas seguidas,

antes do eclodir da crise, para radicar aí a novidade das sua propostas. Isso mesmo ficou patente com o documento político que lançou para estas eleições europeias.
Um texto previsível e redondo, onde não se encontrava uma ousadia futurante, nem corria a mais leve aragem de alternatividade, por contraponto ao presente.

O PS português não soube fugir a essa rotina, não tendo conseguido afirmar, por intermédio de duas ou três opções estratégicas estruturantes, a sua capacidade inovadora e um verdadeiro potencial de esperança. Apenas a título de exemplo, sublinhemos algumas omissões que, a meu ver, ilustram essa rotina.

Não pugnou por uma profunda modificação do pacto de estabilidade, de modo a que a União Europeia deixe de estar refém de um constrangimento, que corresponde ao que há de pior na deriva neoliberal que levou à crise em que hoje estamos.

Não deu relevo à necessidade de uma política europeia que encare a economia social, nas suas vertentes cooperativa, mutualista e solidária, como um dos vectores decisivos do desenvolvimento social no seio da União.
...
o”blairismo” era já um cadáver político, arrastando-se entre uma teimosa inércia de sobrevivência e a saudade do que nunca conseguiu ser. Agora é preciso enterrá-lo.
Enterrar não só o que sobrou das suas posições assumidas, mas também o que sobrevive como reflexo despercebido, mas nem por isso menos perverso e claramente esterilizador da possibilidade de inovação políticas dos partidos membros da Internacional Socialista.
...»


De PP a 15 de Junho de 2009 às 09:50
O eleitor "valorizará o que de mais raro existe na política, e procurará naturalmente o contrário do que já tem hoje, procurará mais sobriedade, mais solidez, menos espectáculo, menos mentiras, mais verdade. É isso que significa a credibilidade, palavra com muito mais conteúdo do que parece e que muda muito mais coisas do que se imagina, mas que tem o inconveniente de estar escassamente distribuída. Ou se tem ou não se tem."


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