A herança envenenada

Pela primeira vez em Portugal, um primeiro-ministro eleito perdeu umas eleições legislativas. E isso aconteceu com o pior resultado que o PS teve nos últimos vinte anos. Sócrates despediu-se depressa, tinha preparado no teleponto um longo discurso em que, mais uma vez, procurou negar a verdade e fugir às evidências - sobretudo a de que deixa um país encurralado e à beira da ruína e um PS embalsamado e com os seus valores patrimoniais fundamentais muito abalados.

O que o discurso revelou - apesar do que dizia o teleponto - foi, por um lado, um Sócrates aterrorizado com o juízo da história e com o lugar que ela certamente lhe reserva, associado à bancarrota de 2011. E, por outro lado, a obsessão em condicionar o natural debate interno sobre as lições que há que tirar deste desaire, que se traduziu na perda, em seis anos, de um milhão de votos.

 

Tudo indica que a vida não vai ser fácil para o Partido Socialista, que fica agora à mercê de uma diabolização política que não vai tardar, em previsível resposta ao funambular optimismo dos últimos tempos.

Sócrates deixa nos braços do PS uma herança envenenada, que é a de ter que "ser oposição" a um programa que ele próprio assinou. O socratismo corre, assim, o risco de se tornar numa verdadeira maldição para o PS

Em suma, o PS precisa, antes do regresso ao combate político, de dar ao País um forte sinal político, mas também ético, feito de humildade e de verdade. Este vai ser, sem dúvida, o maior e o mais imediato desafio da sua próxima liderança.

DN 09-06-2011



Publicado por Izanagi às 10:03 de 16.06.11 | link do post | comentar |

2 comentários:
De longa travessia por Almada a 20 de Junho de 2011 às 10:05
Foi só depois de sair de militante do PSD ( será que chegou a sair?) que José Sócrates conseguiu dar o seu contributo para a realização do sonho de Sá Carneiro:
uma maioria, um governo, um Presidente.
Se há alguém que merece figurar na lista dos destacáveis do PSD, é sem dúvida, José Sócrates.
Quanto ao PS vai ficar um longo período sem
maioria, sem governo e sem presidente.
Tem o que merece


De Zé Pessoa a 16 de Junho de 2011 às 16:15
Para que tal acontecesse seria necessário que o próximo futuro líder e a estrutura dirigente saída do próximo congresso fossem capazes de promover eleições, em toda a estrutura partidária, com a obrigatoriedade (estatutária e pratica) de existirem, em cada secção (residência , sectorial e temáticas), em cada concelhia, em cada federação, pelo menos duas listas e das quais os actuais lideres não fazer parte ou promover. Além das tão famigeradas primarias que já cheiram algo a mofo de tanto retardamento a que urge dar resposta.
Uma clara e inequívoca refundação da democracia partidária e correcção de vícios instalados. Alguém acredita nisso?
Se assim não for tudo continuará a marinar em apodrecimento antidemocratico.


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