Nossos vizinhos e primos do sul.

 Entre "muita" maquilhagem e a "revolução tranquila"
«Dois líderes derrubados, um hospitalizado no estrangeiro, outro sob as bombas da NATO.

Mohammed VI sabe que não pode ficar indiferente às ondas de choque da Primavera Árabe, que começou na Tunísia mas chegou já ao Iémen. Também em Marrocos há quem proteste contra o poder abusivo e exija mais liberdade, uma coragem que vem dos tempos de Hassan II. Por isso, o rei propõe uma nova Constituição que aproxima o seu país das monarquias parlamentares ao estilo da Europa. Cumpre mais uma parte das promessas que fez em 1999, quando subiu ao trono. Mas mesmo assim o texto a ser referendado a 1 de Julho não corresponde ainda à ideia de que um monarca "reina mas não governa", como acontece em Espanha, só para falar do outro vizinho.
      Sim, porque Marrocos é o nosso vizinho do Sul. Rabat só não fica mais próximo de Lisboa do que Madrid por uma unha negra. A unir-nos estão mais de mil anos de história, desde quando Tariq atravessou o estreito de Gibraltar e trouxe o islão até esse século XVIII em que, transportando toda a gente de Mazagão para o Brasil, Portugal desistiu do seu sonho de conquista das terras marroquinas pelo qual viu morrer D. Sebastião. Também nos liga o presente, seja porque nesse país do Magrebe passa o gasoduto que traz a energia para os fogões das nossas casas, seja porque uma grave crise poderia tornar o Algarve uma espécie de Lampedusa. Não é a rota mais lógica, mas os ventos e as marés já trouxeram barcos de ilegais às nossas costas.
 
      Mohammed VI aceita perder o seu carácter "sagrado", passando a ser apenas "inviolável". O primeiro-ministro poderá escolher os ministros, mesmo que o rei continue a presidir às reuniões do Governo. No preâmbulo, a Constituição de Marrocos salientará, além do carácter árabe, os contributos hebraicos, andaluzes e africanos para a sua identidade, nota o El País. E a língua berbere, falada no Rif e no Atlas, tornar-se-á oficial. O islão mantém-se religião de Estado, mas é reconhecida a liberdade de culto, ainda que não a de consciência, que legalizaria conversões de muçulmanos e daria argumentos aos islamitas, alguns deles - minoritários - adeptos do terror, como se viu em Maraquexe. 
     Herdeiro de uma dinastia com 400 anos mesmo que o país só se tenha libertado do jugo francês em 1956, Mohammed VI possui uma legitimidade que não se compara às de Ben Ali, Mubarak, Ali Saleh ou Kadhafi, só para falar dos quatro dirigentes árabes mais afectados pela Primavera Árabe. Descendente do profeta, é também Comendador dos Crentes. Por isso pode arriscar aquilo que o Le Monde chama "Revolução Tranquila", outros de mera "mudança de roupa e muita maquilhagem", como é o caso do intelectual Ahmed Benseddik, adepto das manifestações convocadas via Facebook.
     Por trás das palavras da nova Constituição, um pormenor prometedor: todos os partidos vão poder usar tempo de antena. Até o Via Democrática, marxista, que defende a república e a autodeterminação do Sara Ocidental, dois tabus em Marrocos.» [DN, Leonídeo Paulo Ferreira].



Publicado por Xa2 às 13:07 de 21.06.11 | link do post | comentar |

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