Cidadãos e Estados: pela Aliança das periferias e Federalismo Europeu

Um cv europeu

 

    O cv e as competências técnicas de Vítor Gaspar (novo min. finanças) têm sido muito elogiados. Não sou eu que vou criticar tão distinta figura, com tão notável percurso. Noto apenas que, da negociação de Maastricht até a posições de relevo no BCE e na Comissão Europeia, não houve momento da viragem neoliberal da construção europeia em que Gaspar não tivesse participado.

    Esta viragem deu origem à chamada regulação assimétrica da UE, cujas consequências negativas temos vindo a assinalar desde há alguns anos. É difícil perceber a sua fé neste euro, expressa em artigo de 2008: tudo correu bem, no melhor dos mundos. Portugal é uma minudência. As finanças públicas estão saudáveis e tudo, imediatamente antes da recessão fazer sentir os seus efeitos. É o milagre das bolhas a marcar os ritmos das posições orçamentais, tão confortáveis que estas eram.

    Os desequilíbrios entre centro e periferia não interessam para nada, com o seu mau cheiro a teoria da dependência, e a política económica constrangida por regras absurdas, sujeitas a revisões que não alteram a sua essência, é do melhor, com a política monetária a chegar para salvar a situação e com a desregulamentação das relações laborais a acompanhar na criação de postos de trabalho. Viu-se.

    Não seria irónico se alguém com este cv e com estas posições tivesse de intervir conscientemente no esboroar inconsciente de uma construção para a qual deu tão prestimosos contributos? É claro que Gaspar, administrador-delegado da troika, não poupará a maioria dos cidadãos portugueses a todos os sacrifícios para salvar esta aberração institucional, esta utopia liberal, e os agentes financeiros que dela beneficiaram.

    Dito isto, a correcção da tal regulação assimétrica pode ser feita consistentemente por uma saída nacional, com a recuperação das políticas monetária, orçamental, cambial e industrial, ou por uma saída europeísta, na linha da “modesta proposta”, que recrie à escala europeia os instrumentos de política perdidos nacionalmente. Como estamos é que não dá. Julgo que a saída europeísta é a quem tem menos custos e a mais desejável politicamente, mas está bloqueada. A saída nacional ocorrerá, mais tarde ou mais cedo, se deixarmos as coisas como estão.

    

    - Como evitar isso? Eu só vejo uma saída e tenho insistido nela:

 uma aliança diplomática das periferias e dos sectores federalistas do centro, caso de Juncker, que, como bem sublinha Rui Tavares, parece, em certos momentos, ter consciência do desastre em curso. Uma aliança que use a ameaça credível da reestruturação da dívida, liderada pelos devedores, como defende há muitos meses o Research on Money and Finance, para conseguir uma solução europeia para um problema europeu. Essa solução, que quase ninguém com poder quer encarar, pressupõe que se esteja disposto a colocar a hipótese da saída almofadada do euro como plano B, na linha de Lapavitsas, Weisbrot ou Ferreira do Amaral, para fazer ver ao centro qual é o seu interesse próprio esclarecido.

     É claro que no Ministério das Finanças ninguém será incentivado a pensar o impensável.

Resta-nos o recurso a uma das armas retóricas da direita: não há alternativa...

Estados    ['' Punindo o pobre: o Governo Neoliberal da Insegurança Social '']    O aumento do número de reclusos, recentemente noticiado, aponta para uma ideia em que temos insistido, alinhados com alguma investigação de economia política:

    o desmantelamento do Estado Social que nos propõe a utopia de mercado não é o início do reino da liberdade, mas sim o início do Estado Penal, do Estado que encarcera os pobres e excluídos ou que promove a administração de paliativos caridosos que não passam de incentivos à subordinação e ao preconceito, maus substitutos dos direitos sociais.
    A escolha nunca inteiramente confessada do neoliberalismo é clara:
estruturação política das instituições por forma a dirigir recursos para os mais ricos e repressão para os mais pobres.
    A austeridade entusiástica da direita poderá bem ter como contrapartida o aumento do número de polícias, já muito acima da média europeia, a continuação da prosperidade da indústria da segurança privada e uma maior propensão para transformar problemas sociais em problemas de repressão. Há todo um Estado que engorda para que outro emagreça...


Publicado por Xa2 às 00:09 de 23.06.11 | link do post | comentar |

5 comentários:
De 'Mercados' ultra-lib.é q.Governam Países a 27 de Junho de 2011 às 10:45
«...
Soares falava à margem da iniciativa Concelho de Estado, que nesta segunda edição homenageou Mikhail Gorbachov.

O antigo líder não esteve presente, por questões de saúde, mas enviou uma mensagem gravada, em que (M.Gorbachov) ALERTA
para o "impressionante estado das finanças" na Europa e
para o perigo de serem os MERCADOS a comandar os destinos dos países, em vez de serem os GOVERNOS.
»


De - Auditoria à Dívida - a 24 de Junho de 2011 às 12:50
Carvalho da Silva encabeça petição para uma "auditoria popular" à dívida soberana

por Agência Lusa, 23 de Junho de 2011, ionline

O secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, e o economista da Universidade de Coimbra José Castro Caldas são duas das figuras que subscrevem uma petição para que seja feita uma auditoria à dívida portuguesa com participação da sociedade civil.

A petição, intitulada "Por uma auditoria à dívida portuguesa", é assinada por 38 figuras ligadas ao movimento sindical, associativo e ao ensino universitário e defende uma auditoria da dívida "com participação da sociedade civil e do movimento dos trabalhadores" como forma de "determinar que partes da dívida são ilegais, ilegítimas, odiosas ou simplesmente insustentáveis".

"É urgente, neste contexto, a constituição de uma comissão popular, aberta e de convergência unitária, para uma auditoria à dívida portuguesa", refere o documento, acrescentando que uma auditoria nestes moldes "oferece aos trabalhadores o conhecimento e a autoridade necessários para a definição democrática de políticas nacionais perante a dívida".

Segundo os peticionários, esta auditoria “incentiva igualmente a responsabilidade, a prestação de contas e a transparência da administração do Estado”.

“A austeridade e as medidas de privatização pressionam em primeiro lugar os mais pobres, enquanto as ‘ajudas’ são para quem está na origem da crise. Se as medidas de austeridade anti-populares não forem postas em causa, terão um impacto considerável na Europa durante muitos anos, modificando de forma drástica a relação de forças em favor do capital e em prejuízo do trabalho”, conclui a petição.


Entre os principais subscritores estão Manuel Carvalho da Silva, secretário geral da CGTP-IN, António Avelãs, presidente do Sindicato de Professores da Grande Lisboa (SPGL), ou o socialista Elísio Estanque, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.



De - Moralizar a vida Pública e Política - a 24 de Junho de 2011 às 11:36
Lambretas, esferográficas BIC e viagens em turística

Ainda que não passem de mero POPULISMO os sinais de franciscanismo do governo de Passos Coelho são bem vistos pelo povo,
poupam-se uns trocos que mal dá para uma casa dos milésimos da dívida mas poderão ser um sinal.

Resta agora que Passos Coelho poupe os contribuintes de forma tão exemplar quando vender empresas públicas ou privatizar serviços públicos, um mau negócio dava para muitas canetas de ouro, carros de luxo e viagens em classe turística com direito a gastar mais no hotel do que Durão Barroso gastou em Nova Iorque.

Como é minha obrigação como cidadão DESCONFIAR do PODER receio que estes comportamentos não sejam mais do que o boi da piranha, tal como o vaqueiro atira a pileca da manada às piranhas para que a manada passe tranquilamente o rio, desconfio que o mesmo
povo que aprova estes exemplos de modéstia não seja depois capaz de calcular os LUCROS FÁCEIS dos que vão comprar o que é lucrativo no Estado em nome da salvação do país.

Mas se sou desconfiado também tenho a obrigação de confiar que a estes sinais de miserabilismo corresponda uma actuação COERENTE e que em cada decisão Passos Coelho mantenha o critério que seguiu nestes gestos simbólicos.

Se zipou o governo e com isso poupou um milhão e tal de euros que a sua central de comunicação se apressou a divulgar junto da comunicação social, espero que seja coerente
e faça o mesmo ao nível das secretarias de Estado e, mais ainda, na escolha dos adjuntos e assessores governamentais.
Não alinho com a vaga populista que exige poucos assessores e adjuntos, um governo para decidir bem deve estudar convenientemente as suas decisões.

Defendo antes que o governo deve ser criterioso na escolha do pessoal dos gabinetes e sempre que puder CONTAR com QUADROS do ESTADO competentes que os mobilize pois ficam a custo zero, ao contrário dos idiotas vindos dos escritórios e empresas de consultoria que têm enxameado os corredores governamentais.

Espero ainda que Cavaco Silva faça também os seus votos de pobreza e ponha fim à tendência para transformar o Palácio de
Belém numa Casa Real de Boliqueime que gasta quase tanto quanto a rainha de Inglaterra
e que sem se saber muito bem para o quê tem mais assessores do que um bom par de ministérios juntos.

Se estes sinais se estenderem à Presidência da República, aos autarcas, aos generais e almirantes e aos directores-gerais e presidentes dos institutos e fundações serão positivos e contribuirão para a MORALIZAÇÂO da vida PÙBLICA e para a respeitabilidade da classe POLÌTICA.

Se estas manifestações não passarem de um franciscanismo anedótico então sugiro que Passos Coelho junte os trocos que poupou,
peça a Rua Augusta emprestada ao António Costa e com o patrocínio do Soares dos Santos e do Belmiro de Azevedo
ofereça uma sardinhada ao povo pobre de Lisboa.
--------------------

querias...??!!
MORALIDADE e TRANSPARÊNCIA na vida Pública dos políticos ...??!!

Já vem a CNPD (sob a tutela da AR) ESCONDER quanto recebem os políticos de pensões, subsídios de reintegração, ... !!


De - Exemplo ou demagogia...??!! a 24 de Junho de 2011 às 11:56
Exemplo ou demagogia?
por Daniel Oliveira

Pedro Passos Coelho vai voar sempre em económica na Europa. O primeiro-ministro garante que não foi o seu gabinete que anunciou a coisa. E eu, lamento, não acredito. Confesso uma coisa: não me interessa para nada se Passos Coelho viaja em executiva, económica ou de trotinete. Interessa-me se governa bem ou mal. Dirão que a decisão é simbólica e que isso é sempre importante. E eu respondo: depende.



De que me serve um governo que viaja todo em económica se depois privatiza a preço de saldo o património do Estado, causando um rombo sem remédio nos cofres públicos? De que me serve um governo com poucos ministros que implementa uma política de austeridade tal que transformará Portugal numa segunda Grécia? Resumindo: o que me interessa o simbolismo dos pequenos gestos se se os grandes gestos forem irresponsáveis?



Este governo ainda não governou e ainda não pode ser julgado por nenhuma decisão. Mas há uma coisa que sei: que o simbolismo das pequenas decisões pode servir para iluminar um caminho ou para nos distrair do que é importante. Pode ser um exemplo ou pode ser demagogia.



Se Passos Coelho obrigar a banca a pagar tantos impostos como as outras empresas, se garantir que os trabalhadores são protegidos de quem se aproveita da crise para o abuso, se não entregar a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde, que é de nós todos, aos apetites privados, se não vender ao desbarato o que pertence ao Estado, até pode viajar de Falcon que terá o meu aplauso. Se fizer o oposto, até pode ir a pé para Bruxelas que nem por isso merece o meu elogio. Se a esta decisão simbólica for acompanhada por uma verdadeira distribuição de sacrifícios, só pode merecer o meu respeito. Se não, é uma aldrabice.


De Exigir SOLUÇÂO Europeia, problema global a 24 de Junho de 2011 às 10:25
Portugal no Conselho Europeu
[Publicado por AG, CausaNossa, 23.6.2011]

O interesse nacional só será servido no Conselho Europeu que hoje se inicia se Portugal se puser do lado dos que urgem uma SOLUÇÂO EUROPEIA para a crise financeira e económica na Grécia (e de Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, ...).

E uma solução europeia não é mais um pacote de ''ajuda'' intergovernamental (logo sujeito aos bloqueios de qualquer parlamento nacional) como o facultado à Grécia há um ano, semelhante ao que está previsto para Portugal.
A crise grega é uma CRISE EUROPEIA não apenas grega. É uma crise da POLÍTICA e não apenas da economia europeia:

- é a crise dos governos e instituições europeias que deixaram entrar e andar a Grécia no Euro, com contas viciadas e fraudes e desvios sucessivos à harmonização e às regras que Euro e Mercado Interno deviam ter exigido;

- é a crise dos governos e instituições europeias que não REGULARam nem supervionaram o sistema FINANCeiro e assim deram luz verde aos bancos alemães, franceses, ingleses e outros para alimentar a espiral de endividamento grego (e português..);

- é a crise dos governos e instituições europeias que não têm sabido entender-se para encontrar respostas para a crise económica, antes pelo contrário se entretêem em declarações cacofónicas que mais agravam a crise e mais acicatam os ESPECULADORES nos MERCADOS financeiros contra os países periféricos, elos mais fracos do EURO, para atingir o EURO
(e a Sra. Merkel e "su Schauble" levam a palma com as ameaças de "haircuts" aos privados e as TRETAS de restruturações "suaves" ou "ordenadas", que as agências de "rating" devolvem em golpes de "downgradings" e mais ataques especulativos...)

A crise grega, tal como a portuguesa, ou a irlandesa, são crises europeias, são crises do Euro e desta Europa, hoje incapacitada pela ideologia NEO-LIBERAL.
Uma solução europeia para a Grécia, além das reformas fiscais e orçamentais, exige :
1)- "eurobonds" para mutualizar a divida,
2) - recursos adicionais para relançar crescimento economico e o emprego como os que resultariam de um Imposto Europeu sobre Transações Financeiras e
3) - mais e melhor governação económica europeia.

Salvar a Europa passa por salvar a Grécia.
Salvar Portugal passa por salvar a Grécia, o Euro e a Europa.

É por isso que Portugal no Conselho Europeu só defenderá os seus interesses se exigir e contribuir para uma solução verdadeiramente europeia para os problemas da Grécia.

Só assim Portugal evitará ver-se grego, em desespero semelhante ao dos gregos hoje.


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