De .'Colaboradores' Escravos. e caridadezin a 29 de Agosto de 2011 às 17:02
Jerónimo Martins e a caridade

por Daniel Oliveira, (em 29.8.2011, http://arrastao.org/2335802.html#cutid1 )

Há duas semanas escrevi um texto sobre a acção promocional de caridade da Jerónimo Martins para com os seus "colaboradores". Na semana seguinte o administrador delegado do grupo, filho do seu proprietário, enviou uma carta ao "Expresso", ao abrigo do direito de resposta, em que prometia um acção em tribunal. Esta semana respondi. Deixo aqui os três textos: artigo, carta de Pedro Soares dos Santos e a minha resposta.


Caridade do patrão

A Jerónimo Martins tem preocupações sociais. Por isso, criou, para 2012, um Plano de Emergência Social para os seus trabalhadores. Perdão, para os seus “colaboradores” que vivam em situação de “necessidade extrema”.
O Pingo Doce vai-lhes garantir bens essenciais e outros apoios. Depois de tornar pública a boa nova logo houve, em apenas 15 dias, 900 funcionários a pedir ajuda.
Entre eles, havia quem não conseguisse pagar dívidas e até quem experimentasse a fome. O que, convenhamos, não se recomenda a quem vende produtos alimentares.
Na sua ação promocional, o piedoso Alexandre Soares dos Santos não se preguntou porque há tantos trabalhadores das suas empresas, com emprego e salário, a viver na penúria.
Porque o salário médio é de 540 euros? Claro que não! Isso, com sabedoria, chega e sobra.
O problema é o “elevado desconhecimento dos mais elementares princípios da gestão de um orçamento doméstico” que esta gente revela.
E, por isso, vai garantir formação para que os seus funcionários saibam ser pobres de Janeiro a Janeiro, recebendo uma miséria no natal e no ano inteiro.

Houve um tempo em que as famílias da alta sociedade dividiam tarefas por género:
os senhores exploravam os pobres, as senhoras organizavam festas cristãs para os ajudar. Infelizmente, a família já não é o que era e as esposas dos homens ilustres já não têm tempo para se dedicarem à caridade.
A empresa trata de tudo: com uma mão paga miseravelmente, com a outra dá um consolo, um ensinamento e um ralhete. Mas ninguém pode dizer que os senhores do Pingo Doce estão sozinhos.

Limitam-se a seguir o exemplo do Estado, que enquanto destrói a economia das famílias inventa um abjeto plano de emergência, que transforma o Estado Social numa instituição de caridade.
É este o velhíssimo mundo em que vivem os novos liberais: todos somos potenciais pedintes.
À espera do bom coração de um qualquer Alexandre Soares dos Santos.
Sim, paga salários miseráveis a quem lhe dá dinheiro a ganhar. Mas ao menos não os deixa à fome.
Como os escravos, há que mantê-los vivos.



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