Contra-ofensiva para resgatar Democracia confiscada pela finança
 
O então capitão Varela Gomes, que chefiou, em 1961, o assalto ao quartel de Beja, durante o qual foi gravemente ferido, diria mais tarde no seu julgamento que Salazar “continuava no poder a profissão do pai: feitor dos ricos”. Não pude deixar de me lembrar desta expressão quando Warren Buffet veio dizer que não queria continuar a ser mimado com o excesso de isenções fiscais que beneficiam os mais ricos e pediu para fazerem o favor de lhe aumentarem os seus impostos, no que foi seguido por cerca de trinta dos detentores das maiores fortunas de França. Não para que, ao contrário do que parece ter entendido o nosso governo, se sobrecarregassem aqueles que já estão com a corda ao pescoço, mas sim os mais ricos, sistematicamente protegidos, aqui e em outros países ocidentais, por opção ideológica dos respectivos governos.

 

Também não se trata, da parte de Buffet e dos seus confrades franceses, apenas de um sobressalto cívico, mas sobretudo do receio de que o empobrecimento geral possa ter consequências económicas, políticas e sociais que não os deixarão impunes. Claro que não estamos perante a luta de classes virada do avesso. O americano reconheceu, sem complexos, que há uma luta de classes que eles, os mais ricos, estão a liderar e a ganhar. Graças à subserviência com que os “feitores” instalados nos governos, alguns dos quais oriundos da esquerda, têm gerido, nesta era de globalização desregulada, a causa do capitalismo financeiro. Com o senão de ainda não terem compreendido as causas da crise e estarem a repetir as receitas que estiveram na sua origem. Eis o que preocupa Buffet e alguns ricos que vêm mais longe do que os “feitores”. Não entre nós, onde parece que alguns dos mais ricos, coitadinhos, são trabalhadores assalariados. Ao ouvi-los fica-se na dúvida se um dia destes não irão inscrever-se no Rendimento Social de Inserção.

Seja como for, a posição tomada pelo terceiro homem mais rico dos Estados Unidos é, objectivamente, a acusação mais humilhante até agora feita aos governos das nossas democracias. Constitui o reconhecimento de que os governos actuais estão capturados pelo grande capital. O que significa que a democracia está confiscada pelo capitalismo financeiro triunfante. A democracia e a soberania. Porque não vale a pena ter ilusões.
Quando se afirma que é preciso mais Europa é preciso saber o que isso quer dizer. Não pode ser, com certeza, mais Alemanha e mais França, ou seja mais Merkel e mais Sarkozi – em quem nós não votámos - e menos Portugal, menos Espanha, menos Grécia, menos Irlanda, menos Itália. Ou por outras palavras: menos Europa e menos democracia.
Nunca houve tanta desigualdade na Europa, entre os Estados e dentro de cada país. E se o caminho fosse o do federalismo, lembro que não há, neste momento, nenhum mecanismo institucional capaz de assegurar, à semelhança do que acontece nos EUA, a igualdade entre os Estados, como o Senado, cuja composição é paritária, independentemente do peso demográfico de cada Estado. Lembro também que nos actuais tratados da EU está consagrado o princípio da igualdade soberana entre Estados, cada vez mais letra morta.
Convém ser lúcido. Estamos numa nova era. Depois de se ter lutado para libertar o nosso país de uma ditadura política, trata-se de compreender que hoje, o objectivo essencial, em Portugal e na Europa, é libertar a democracia da ditadura do capitalismo financeiro e também do cada vez mais ostensivo Directório europeu. O que implica, da parte dos partidos socialistas, uma nova visão, uma nova estratégia e uma nova radicalidade democrática. Há muitos anos que não era tão grande a responsabilidade do PS. Até os mais ricos perceberam que a austeridade provoca recessão, que por esta via a economia não cresce, os países empobrecem, as desigualdades aumentam, o desemprego dispara e chega a um momento em que os pobres, os trabalhadores e a classe média já não têm mais nada que possa ser cortado. É então que o inesperado pode acontecer.

Perante o excesso de zelo do actual governo, o seu ataque sem paralelo às funções sociais do Estado, a venda ao desbarato de bens públicos, a sobrecarga de impostos sobre trabalhadores e classe média e a rendição do primeiro ministro à Sr.ª Merkel, os socialistas não podem pactuar com políticas e cumplicidades que estão a subverter o projecto europeu e a colocar em risco a coesão nacional.
Exige-se-lhes de novo uma grande intransigência ética. A mesma intransigência e o mesmo idealismo daqueles que há cerca de dois séculos e meio fundaram o movimento socialista. Como escreveu Octávio Paz, prémio Nobel da Literatura, “faliu a resposta histórica à pergunta formulada pelos primeiros socialistas sobre a injustiça inerente ao capitalismo, mas a pergunta permanece.” Até porque nunca, como agora, foi tão poderoso e tão injusto o poder do Capital consubstanciado nesta nova forma de ditadura, a ditadura dos mercados. Recordo um verso de Sophia: “Os ricos nunca perdem a jogada”. É disso que se trata. Os mais lúcidos dos mais ricos não querem perder a jogada e sabem que o excesso de zelo dos seus ideólogos e “feitores” pode provocar um desastre de consequências incalculáveis.

Apetece ouvir de novo a voz do grande Presidente F.D.Roosevelt quando, no célebre discurso do Madison Square Garden, em 1936, ripostou e passou à ofensiva contra o poder organizado do grande dinheiro: “Porque eu tenho um mandato popular.” Eis a questão: ser ou não ser fiel ao mandato popular. E eis o grande combate político deste novo ciclo: resgatar a democracia e restitui-la aos cidadãos.
   (-por Manuel Alegre, 7.9.2011)


Publicado por Xa2 às 01:07 de 09.09.11 | link do post | comentar |

3 comentários:
De .Europa no precipício a 13 de Setembro de 2011 às 12:10
Felipe Gonzalez diz que Europa está à beira do precipício
(por LusaHoje


O ex-presidente do governo espanhol Felipe Gonzalez pediu, na segunda-feira, às instituições e aos líderes europeus que reconheçam que se está "à beira do precipício" e assumam "o grau de alarme e emergência que a situação exige".

Felipe Gonzalez falava na apresentação do livro 'La fragmentación del poder europeo', de José Ignácio Torreblanca, na sede da Fundação Mapfre, em Madrid, noticia a EFE.

"O diagnóstico tem de ser severo, rigoroso e deve ter o grau de alarme e emergência que a situação exige. Estamos à beira do precipício", afirmou. "Por que não dizer que estamos à beira do precipício? Ou é preciso saltar para o precipício para reagir?", lançou Felipe Gonzalez.

Mostrando-se apologista de os líderes europeus falarem "honestamente" com os cidadãos sobre os problemas que tem a União Europeia (UE), que, na sua opinião, "está mal e a reagir em agonia" à crise económica.

"Como não tenho responsabilidade institucional, digo o que me apetece", esclareceu o antigo chefe do Executivo espanhol, considerando que os problemas europeus têm solução, mas que é necessário que os Estados Membros reconheçam a situação institucional e económica em que estão, sobretudo devido ao caso de Atenas.

Felipe Gonzalez comparou os mandatários europeus a "galgos que correm atrás de uma lebre mecânica que nunca se sabe quem carrega". Para o político, atribui-se a culpa aos mercados porque não se sabe quem leva essa lebre, "atrás da qual correm os galgos e, quando pensam que a vão morder, estão a dez metros e voltam a correr em agonia para morder a lebre e separam-se outra vez". Gonzalez considera que é assim que se viveu o mês de Agosto, referindo-se às turbulências nos mercados.

O ex-presidente do governo insistiu que se os líderes e as instituições da UE "não têm a sensação de que se está à beira de um abismo, que pode não ser reversível, segue-se uma política agonizante de perseguir a lebre enquanto os galgos vão à falência".

Sobre a Grécia, Gonzalez interroga-se sobre se é possível resgatar o país, bem como se submetê-lo a uma redução do défice a "velocidade de cruzeiro" não poderia ser contraproducente.

O antigo presidente do governo espanhol considerou compreensível que não se esteja a investir na Europa, "começando por Espanha, porque ninguém vê uma perspectiva de crescimento estável a três, quatro ou cinco anos".

Como tem feito nas últimas semanas, Felipe Gonzalez reclamou uma política económica e orçamental comum na UE e que se dê início à criação de 'eurobonds' [obrigações europeias], o que, considera, daria estabilidade às contas de cada país.

Gonzalez disse ainda que os cidadãos não compreendem o que se está a passar na Europa e que os políticos, em vez de apresentar uma explicação, estão a "contribuir para a confusão".


De .Mário Soares: Revolução a Sério. a 9 de Setembro de 2011 às 10:20
Mário Soares: REVOLUÇÂO a SÉRIO !
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''Limites'' à austeridade
Soares diz que Vítor Gaspar é "político ocasional"

(- http://ww1.rtp.pt/noticias/?t=Soares-diz-que-Vitor-Gaspar-e-politico-ocasional.rtp&article=476780&visual=3&layout=10&tm=9)

Mário Soares confessa-se “relativamente preocupado” com a linha de austeridade seguida pelo Governo de Pedro Passos Coelho e dá nota negativa ao ministro das Finanças, que classifica de “político ocasional”.

Inquieto com o que entende ser uma excessiva valorização do “dinheiro”, em prejuízo das “pessoas”, o antigo Presidente da República não exclui uma “revolução a sério”.
Isto “se os mercados continuarem a mandar”.Soares diz que Vítor Gaspar é "político ocasional"

O atual ministro das Finanças poderá ser “um grande técnico da economia”. Mas “é um político ocasional”. É assim que Mário Soares avalia o desempenho de Vítor Gaspar. Reparos que o antigo Chefe de Estado quis partilhar na noite de quarta-feira durante uma tertúlia no Casino da Figueira da Foz.

Num comentário à última entrevista de Vítor Gaspar ao jornal Público, o fundador do PS admitiu que ficou sem perceber o rumo que o Executivo quer prosseguir para o acerto das contas públicas do país:
“Para dizer a verdade, não percebi. Acho que é confusa. Acho que não sou destituído. Tenho provado que não sou completamente destituído. Portanto, li aquilo com atenção mas realmente não percebi. Não sei onde é que ele quer chegar, nem onde vai e o que pretende”.

O ministro das Finanças, insistiu Mário Soares, “é um bom técnico” de economia. Contudo, sustentou o antigo Presidente, “é preciso que estejam políticos a dirigir isto e não técnicos, porque os técnicos só veem números”.

Soares defendeu que as medidas de austeridade devem ter “alguns limites”. A começar pelo Serviço Nacional de Saúde, que “não se pode entregar a um bom contabilista”.

“Um bom contabilista é que diz agora vamos cortar, cortar, cortar.
E a saúde dos doentes? E os transplantes? Então as pessoas vão morrer, vão deixar-se morrer?
Não pode ser”, afirmou.

“Uma revolução a sério”

Mário Soares, que participou nas Tertúlias do Casino a par de Teresa de Sousa, coautora do livro “Portugal tem Saída”, não hesita em situar a raiz da crise económica e financeira nos mercados.
E faz uma advertência:
“Se esses mercados continuarem a mandar, nós vamos para o fundo e então tem que haver outra revolução, mas uma revolução a sério”.

“Nós temos que valorizar, em primeiro lugar, as pessoas e só depois o dinheiro.
Ora, se nós considerarmos o dinheiro como o único valor, evidentemente que depois não nos admiremos que toda a gente vá assaltar ourivesarias e roube de lá o ouro e outras coisas, porque estão desesperados, não têm dinheiro”, disse Soares.

Parte das críticas do antigo Presidente da República recai sobre a troika do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia. Sobretudo no que diz respeito à avaliação da banca. Para Mário Soares, trata-se de “subserviência”.

“Quer dizer, então eles agora vêm aqui escrutinar tudo e eles é que são os donos do país?
Como é que é isso? Porquê? Quem são aqueles senhores?”, questionou-se.

Falta “audácia” à Zona Euro

Soares fez também uma leitura do atual momento do projeto europeu, argumentando que é “fundamental” manter o euro e a abertura de fronteiras consagrada no Acordo de Schengen.
“Demos dois grandes pulos, que foram a moeda única e o espaço Schengen, que nos tirou as fronteiras.
O que nos resta de contacto? Como nos vamos entender uns com os outros?”, perguntou.

“Devemos tentar tudo para defender o euro e não deixar que o projeto europeu vá abaixo.
Isto para mim é fundamental”, frisou Mário Soares, que defenderia ainda uma via de desvalorização da moeda única, embora para tal fosse “preciso audácia”.

O antigo inquilino de Belém alertou também para o que considerou ser o perigo de um recrudescimento dos movimentos nacionalistas, “que pode chegar até uma terceira guerra mundial”.


De Austeridade agrava males... a 9 de Setembro de 2011 às 17:32

A CONFIRMAÇÃO DE UM FALHANÇO


OS DADOS DO INE

Os elementos ontem dados a público pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam aquilo que já se sabia, mas que o Governo, ideologicamente dominado pelo neoliberalismo, teimava e teima em não ver:
que a sua política económica não resolve, antes agrava, os males estruturais de que sofre a economia portuguesa.

O segundo trimestre do ano apresenta uma quebra do consumo privado como não há registo nas estatísticas nacionais, o mesmo se passando com o consumo público.
Tendo, por outro lado, em conta que o investimento caiu igualmente (como não poderia deixar de ser), o destino da economia, no “bom estilo” da ortodoxia neoliberal, ficará exclusivamente entregue à sorte das exportações.

Como, porém, as exportações dependem mais da conjuntura económica internacional do que das “virtudes” de quem exporta, é de prever, face ao afrouxamento da economia dos Estados Unidos e da União Europeia, inclusive de uma provável recessão, o pior para os portugueses.

A brutal carga de impostos infligida aos contribuintes corre o risco de nem sequer, no plano puramente formal, cumprir o objectivo a que em teoria se destinava:
reduzir o défice em 2011 para 5,9%, já a quebra das receitas será de tal ordem, por força da diminuição da procura interna (de certeza ainda mais acentuadas nos dois últimos trimestres), que inviabilizará aquele objectivo.

Aliás, os sinais de alarme estão por todo o lado. O BCE que ficará na história por ter subido a taxa de juros quando se desencadeou a maior crise económica depois de 1929, voltou, há pouco tempo, a incorrer no mesmo erro por temer uma pretensa subida dos preços numa conjuntura em que a situação dos países em crise da zona euro exigia uma política exactamente oposta.
Ontem, Trichet já veio dizer que os juros não subiriam, decisão que mais não é do que a constatação de um falhanço:
a incapacidade de as políticas de austeridade impostas na zona euro conduzirem ao crescimento.

Claro que a decisão de BCE não foi tomada para não prejudicar ainda mais os países em crise, mas por nas grandes economias (a começar pela Alemanha) já haver também sinais muito evidentes de desaceleração económica.

Entretanto, a Grécia parece recusar-se a cumprir o estúpido programa de austeridade que a Troika lhe impôs…por já ter chegado à conclusão que ele apenas acrescenta recessão à recessão.
As ameaças logo se fizeram sentir, por parte a Alemanha e da Holanda, a ponto de pela primeira vez se ter falado, oficialmente, na saída da Grécia do euro.

Espera-se que a Grécia resista, que não ceda, deixando levar as coisas à beira do precipício, por haver a antecipada certeza de que o “tombo” não será igual para todos: os mais fortes cairão de mais alto…

De facto, ninguém na UE pode impor a expulsão do euro. O que poderia acontecer, se à Grécia não for emprestado dinheiro, é que ela entre em bancarrota. Só que se tal acontecesse, o euro teria também os seus dias contados.

Oxalá a Grécia resista e dê uma lição aos lacaios da alta finança e aos servis “bons alunos” que já tudo perderam. Até o respeito por eles próprios…

(- por JM Correia Pinto, 9.9.2011, http://politeiablogspotcom.blogspot.com/ )


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