Estado da Palestina

Reconhecer o Estado Palestino

   O Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, discursa perante a Assembleia Geral (AG) das Nações Unidas no dia 23 de Setembro para pedir o reconhecimento do Estado Palestino.
   O estatuto de membro efectivo da ONU precisa de acordo do Conselho de Segurança (CS), não basta ir a votos na AG.
   Antecipando o veto norte-americano no CS (ai Obama! onde vai o discurso do Cairo...), os palestinos poderão limitar-se a ir à AG, e ficar-se pelo estatuto de "Estado observador", como tem, por exemplo, o Vaticano. Será indubitavelmente um progresso político, pois hoje a Autoridade Palestina só tem estatuto de "Entidade Observadora" na ONU.
   O jogo fica muito mais complicado se os palestinos exigirem mesmo uma posição do Conselho de Segurança. Para os palestinos, mas também para os EUA e para a Europa. Até o equilibrista Tony Blair já foi mobilizado para evitar a todo o custo que a questão vá a votos no CS!...
Aliás, a Europa parece ser, singularmente, quem está mais embaraçada, porque poderá aparecer mais uma vez dividida,(Líbia, crise do euro) apesar de todas as posições comuns que foi tomando sobre esta fundamental questão, desde a Declaração de Veneza (1980).
   Mesmo que os palestinos acabem por desistir de ir ao CS para não alienar os EUA, como já têm votos mais do que necessários na AG, mais do que o resultado final, contará na AG quem vota e como vota. E lá deverá ficar a divisão europeia a descoberto!
   Para além do esforço político, diplomático e também financeiro na região e, muito em particular, na Palestina, será muito negativa uma posição fragmentada da UE relativamente ao reconhecimento do Estado Palestino. Como muito bem explicam Daniel Levy e Nick Witney, num relatório do European Council on Foreign Relations (http://www.ecfr.eu/page/-/ECFR_IsrPal_memo.pdf), cuja leitura recomendo, a UE esteve sempre na linha frente no apoio a uma solução para o conflito israelo-palestino passando por dois Estados, com base nas fronteiras de 1967.
   Votos europeus negativos às aspirações palestinas (Alemanha, Italia, Holanda e Republica Checa estarão inclinados a votar contra) no actual contexto, não seriam apenas desastrosos para a influência da Europa sobre os palestinos e na promoção do processo de paz: seriam também machadadas nos ideais e aspirações que estão na génese da Primavera Árabe.
   E assim, não ajudariam em nada a dar segurança a Israel: a Primavera Árabe não foi sobre Israel, mas iria lá chegar, como o recente ataque à embaixada israelita no Egipto já ilustra...
   Quem realmente queira defender Israel, tem de defender Israel de si próprio: a campanha encarniçada do governo israelita contra o reconhecimento do Estado Palestino, só pode resultar numa escusada, estúpida e contraproducente derrota política para Israel.
Quem realmente queira proteger Israel tem de parar de ser conivente com a impunidade de que tem beneficiado este seu governo de extrema direita, que tudo tem feito para descredibilizar os interlocutores palestinos e se obstina no não-retorno à mesa das negociações (apesar do patético "spinning" em que se desunham por estes dias os representantes oficiais israelitas).
   O reconhecimento do Estado Palestino nada tem de contrário à segurança de Israel e, muito menos, à paz no Médio Oriente. Bem ao contrário, sem Estado Palestino ao seu lado, Israel corre riscos existenciais, desde logo não podendo conceber-se como Estado judeu.
   O reconhecimento do Estado Palestino poderá ser mesmo a única maneira de evitar que os ventos da Primavera Árabe ateiem o rastilho da revolta contra Israel na região.

    E Portugal, onde está? Tendo até hoje particulares responsabilidades como membro do CS e com a campanha que fez para lá ir parar?
   O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, falou no dia 2 de Setembro, à saída da sua primeira reunião de MNEs europeus, na Polónia, para dizer que a Europa tudo fará pela Palestina e "nada contra Israel".
   O "soundbyte" ressoou em todos os meios de comunicação social, apesar de nada esclarecer sobre a posição de Portugal.
   Dizer o que disse o Ministro Paulo Portas é o mesmo que não dizer nada. É saída à xico-esperto, a esconder-se atrás dos parceiros europeus. É pôr Portugal em cima do muro, a ver para que lado cai a bola. Só que a borrasca é da grossa e ninguém vai poder passar entre os pingos da chuva. 
   Portugal só pode ter uma posição e deve afirmá-la para influenciar a definição europeia: a favor do reconhecimento do Estado Palestino.



Publicado por Xa2 às 07:12 de 20.09.11 | link do post | comentar |

1 comentário:
De Lóbi judaico direita, fanático e agiota a 3 de Outubro de 2011 às 13:32
. Palestina e a cobardia de Obama
(por Daniel Oliveira, Expresso online, 3.10.2011)

E mais uma vez Israel vai conseguir impor a sua vontade.
Obama, que defendia o simples reconhecimento do Estado da Palestina, recuou.
Os palestinianos continuarão não apenas com grande parte do seu território ocupado, não apenas a viver cercados por muros, não apenas humilhados no seu quotidiano, no simples gesto de ir ao hospital, à escola ou ao trabalho, não apenas tratados como bichos.
Continuarão a ser inomináveis. Não existem.
Porque um pequeno Estado, que há décadas viola de forma descarada todas as leis internacionais, assim o quer.
A Palestina existirá para o Mundo quando Israel disser que existe. E Israel nunca o dirá.
Cada processo de negociações começa para evitar quallquer avanço na criação de um estado palestiniano e acaba com mais colonatos, muros e ocupação.

É de mãos atadas que o Ocidente vai expiando os seus crimes passados contra os judeus.
Aceitando os crimes presentes contra os palestinianos.
Com o veto americano ao reconhecimento pela ONU do Estado da Palestina, que se viesse vinha já demasiado tarde, tudo o que Obama disse no Cairo, quando acabara de ser eleito, não passaram de balelas.
Conversa muito comovente, muito boa dicção, melhor coreografia.
Zero de coragem para enfrentar o lóbi pró-israelita.
Que nem tem o apoio de toda a comunidade judaica nem é exclusivamente composto por judeus.
Lá estão cristão fanáticos que veem Israel como a linha da frente contra o Islão.
Lá está a nova extrema-direita que vê Israel como um enclave dos "valores ocidentais" no Oriente.

E os palestinianos, tratados com cinismo e hipocrisia pelos seus supostos aliados árabes - que nunca fizeram nada por eles -, com desleixo pela Europa e com incúria por toda a comunidade internacional continuarão a ser um saco de pancada.
Mas sempre vigiados em cada gesto aceitável ou inaceitável de resistência. Como se devessem ao Mundo um pedido de desculpas por existirem.
Até que já não haja Estado nenhum para reconhecer. Até que o sonho da extrema-direita israelita, que tomou há muito conta do ideal sionista, se cumpra:
toda a Palestina será definitivamente israelita.
Com alguns escravos baratos enfiados em guetos. E os restantes bem longe da sua terra.


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