Genocídio financeiro dos Gregos ... e a seguir ?

                A trivialização do desespero

    ... uma das faces mais sinistras da vertigem austeritária: o ajustar progressivo do que é tolerável para níveis crescentemente indignos e imorais; a resignação que desce, um a um, os degraus do fosso dos retrocessos sociais que a austeridade cava consecutivamente.
    (Sobre a destruição do tecido económico local e a deterioração das condições de vida em Atenas, resultante das ondas do choque austeritário, vale a pena ler este testemunho de um jurista de Viena, que há cerca de ano e meio vive num apartamento da capital grega).

               Um verdadeiro “genocídio financeiro”,   (22 setembro 2011,  Die Presse, Viena)

Thessalonique, 16 de setembro. Um homem imolar-se em fogo para protestar contra o governo, bancos e partidos políticos.

Thessalonique, 16.09.2011. Um homem imola-se em fogo para protestar contra o governo, bancos e partidos políticos.  AFP

Então os gregos “recusam-se a economizar”? Um jurista de Viena, que tem um apartamento em Atenas, observou-os diariamente. A sua conclusão: economizam ao máximo.

Günter Tews Não podemos deixar de responder às diversas declarações dos mais altos responsáveis de toda a Europa, algumas delas roçando a imbecilidade, sobre estes “preguiçosos” gregos que “se recusam a economizar”.

Há 16 meses que tenho casa em Atenas e vivi in loco esta situação dramática. Ouvem-se queixas de que os planos económicos não vão funcionar porque as receitas fiscais caíram. Põe-se em causa a vontade dos gregos economizarem. Que surpresa! Vejamos alguns factos:

- Redução de salários e de pensões até 30%.

- Redução do salário mínimo para 600 euros.

- Dramática subida de preços (combustível doméstico + 100%; gasolina + 100%, eletricidade, aquecimento, gás, transportes públicos + 50%) ao longo dos últimos 15 meses.

- Um  terço das 165 mil empresas comerciais a fecharem as portas, um terço sem conseguir pagar os salários. Por toda a cidade de Atenas pode ver-se os painéis amarelos com a palavra  “Enoikiazetai” a letras vermelhas – “Aluga-se”.

- Nesta atmosfera de miséria, o consumo (a economia grega foi sempre muito centrada no consumo) diminuiu de maneira catastrófica. Os casais com dois salários (onde o rendimento familiar representava até então 4000 euros), de repente, têm apenas duas vezes 400 euros de subsídio de desemprego, que começa a ser pago com meses de atraso.

- Os funcionários públicos e de empresas próximas do Estado, como a Olympic Airlines ou os hospitais, há meses que não recebem ordenados e os pagamentos a que têm direito foram adiados para outubro ou para o “próximo ano”. O recorde pertence ao Ministério da Cultura. Há 22 meses que os funcionários que trabalham na Acrópole não são pagos. Quando ocuparam a Acrópole para se manifestarem (pacificamente!) receberam rapidamente o troco, em gás lacrimogéneo

- Toda a gente está de acordo quando se diz que 97% dos milhares de milhões das tranches de resgate da UE voltam diretamente para a UE, através dos bancos, para amortizar a dívida e pagar novos juros. Assim, o problema é discretamente atirado para cima dos contribuintes europeus. Até ao crash, os bancos recebiam copiosos juros e as reivindicações estão a cargo dos contribuintes. Por isso não há (ainda?) dinheiro para as reformas estruturais.

- Milhares e milhares de empresários em nome individual, motoristas de táxi e de camiões, tiveram de desembolsar milhares de euros para pagarem as suas licenças e, para isso, contraíram empréstimos, mas hoje veem-se confrontados com uma liberalização que faz com que os recém-chegados ao mercado não tenham de pagar quase nada, enquanto quem já lá está há mais tempo está onerado com enormes créditos, que tem de pagar.

- Inventam-se novos encargos. Assim, para apresentar uma queixa na polícia é preciso pagar logo 150 euros. A vítima tem de abrir a carteira se quer que a sua queixa seja aceite. Ao mesmo tempo, os polícias são obrigados a cotizarem-se para abastecerem os seus carros-patrulha. 

- Foi criado um novo imposto sobre a propriedade associado à conta da eletricidade. Se não for pago, a luz de casa é cortada. 

- Há meses que a escolas públicas deixaram de receber materiais escolares. O Estado deve milhões às editoras e as entregas deixaram de ser feitas. Agora, os estudantes recebem CDs e os pais têm de comprar computadores para que os filhos possam estudar. Não se sabe como é que as escolas – sobretudo as do Norte – vão pagar as despesas de aquecimento.

- Até ao fim do ano todas as universidades estão paralisadas. Um grande número de alunos não pode entregar trabalhos nem fazer exames.

- O país prepara-se para uma enorme onda de emigração e estão a aparecer gabinetes de aconselhamento sobre este assunto. Os jovens não veem futuro na Grécia. A taxa de desemprego entre os jovens licenciados é de 40% e de 30% entre os jovens em geral. Os que têm emprego trabalham a troco de um salário de miséria e, em parte, de forma ilegal (sem segurança social): 35 euros por 10 horas de trabalho diário na restauração. As horas extraordinárias acumulam-se sem serem pagas. Resultado: não sobra nada para investimentos de futuro como a educação. O governo grego não recebe nem mais um cêntimo em impostos.

- As reduções maciças de efetivos na função pública são feitas de maneira antissocial. Foram despedidas, essencialmente, pessoas que estavam a alguns meses da idade da reforma, para lhes ser pago apenas 60% do total da pensão a que teriam direito.

   Toda a gente faz a mesma pergunta: onde está o dinheiro das últimas décadas? É evidente que não está no bolso dos cidadãos. Os gregos não têm nada contra a poupança, simplesmente, não aguentam mais. Quem consegue ter emprego mata-se a trabalhar (acumula dois, três, quatro empregos).

   Todas as conquistas sociais das últimas décadas em matéria de proteção dos trabalhadores se desfizeram em pó. Agora, a exploração tem rédea solta; nas pequenas empresas é, geralmente, uma questão de sobrevivência.

   Quando se sabe que os responsáveis gregos jantaram com os representantes da troica [Comissão Europeia, BCE e FMI] por 300 euros por pessoa, não podemos deixar de perguntar quando é que a situação acabará por explodir

   A situação da Grécia deveria alertar a velha Europa. Nenhum partido que propusesse uma razoável ortodoxia orçamental estaria em condições de aplicar o seu programa: nunca seria eleito. É preciso atacar a dívida enquanto está ainda relativamente sob controlo e enquanto não se assemelha a um genocídio financeiro.

.........................

De facto, há séculos e séculos que é sempre a mesma coisa:
- sempre que um agiota quer 'deitar a luva' aos bens de alguém... o agiota acena com empréstimos... que sabe que não vão conseguir pagar... RESULTADO FINAL: quem foi atrás do aceno de empréstimos (feito pelo agiota) fica na miséria... e o agiota fica com os seus bens!
Hoje em dia, mega-agiotas não se limitam a acenar a famílias... eles acenam a países inteiros!

«...

Eles sobem as escadas e já não há ninguém que me possa acudir.»



Publicado por Xa2 às 13:17 de 26.09.11 | link do post | comentar |

8 comentários:
De BigMoney é q. manda no Mundo, não os Gov a 28 de Setembro de 2011 às 10:10
Um corretor muito sincero

«A emissora pública britânica BBC entrevistou ontem um corretor independente que se manifestou totalmente incrédulo sobre a eficácia do novo acordo que estará a ser preparado na zona euro para aumentar a capacidade de resposta à crise das dívidas nalguns países europeus e que profetizou o desaparecimento das poupanças de milhões de pessoas.

Alessio Rastani, operador do mercado de capitais afirmou peremptoriamente que
“os governos não mandam no mundo. Quem manda no mundo é a Goldman Sachs”
– o principal banco de investimento dos Estados Unidos, onde são recrutados muitos presidentes de empresas e membros do Governo norte-americano, deixando os apresentadores do programa em que participava estupefactos com a sua candura.

Disse que o problema da zona euro não pode ser resolvido com o dinheiro que os políticos europeus querem aplicar (ontem foi noticiado que está a ser preparado o aumento do FEEF para dois biliões de euros), e considerou mesmo que o problema das dívidas soberanas não pode ser resolvido.

“Estou bastante confiante em que o euro se vai espatifar e que vai cair com bastante dureza, porque de momento os mercados são regidos pelo medo”, disse também Rastani, que confessou sonhar há três anos com este momento, que vai para a cama e sonha com outra recessão, “com outro momento como este” – numa espécie de declaração de interesses quanto à estratégia que recomenda.

Porquê? Porque a Depressão dos anos 1930 não foi só sobre o crash do mercado. Houve algumas pessoas que estavam preparadas para fazer dinheiro a partir desse crash. Pensa que qualquer pessoa pode fazer isso, e que não têm de ser apenas “algumas pessoas da elite” a aproveitar. “Quando o mercado afundar. Quando o euro e os grandes mercados de capitais afundarem, se souber o que fazer, se tiver preparado o plano certo, pode fazer muito dinheiro com isso”, explicou, deixando a audiência de queixo caído.

Rastani explicou que
“o grande capital” (BIG MONEY), como fundos e instituições, não compra este plano e sabe que o mercado de capitais está “acabado” e que já não confia no euro, estando a mudar o seu dinheiro para activos mais seguros, como obrigações do Tesouro dos EUA, obrigações a 30 anos e dólares americanos.

O que é que os políticos poderiam fazer para que os investidores se sentissem mais confortáveis? “Essa é difícil”, respondeu, acrescentando que pessoalmente isso não lhe interessa. Porque é corretor e só lhe interessam as oportunidades para fazer dinheiro, tal como aos seus colegas.

Como a Goldman Sachs e os grandes fundos, não querem saber deste novo plano para o euro, o que as pessoas têm de fazer é aprender a fazer dinheiro com o mercado em baixa, protegendo os seus activos.
“Porque a minha previsão é que em menos de 12 meses
as poupanças de milhões de pessoas vão desaparecer. E isto é apenas o princípio”,
profetizou.» [Público]

Parecer do Jumento:
-Onde é que já ouvi falar da Goldman Sachs?
: «Não era aquela que tinha cá uns negócios com o Estado a que Manuel Pinho pôs fim e depois se ouviram alguns protestos de gente do PSD?
Não era também aquela de que António Borges se dizia ser vice-presidente?»


De .+Recessão + juros + delapida/privatiz.. a 28 de Setembro de 2011 às 10:22
-----D.H:

''Afinal são mais 2%”.

O porta-voz hoje de serviço refugia-se na conjuntura internacional. Desencanta-se sempre qualquer coisa para mais 2%.
A economia e o emprego afundam, por mais que os mais avisados… avisassem;
os credores anseiam para que o bom aluno cumpra o plano.
(Só mais um bocadinho, vocês aguentam!)
Sem esquecer o doce das privatizações, mesmo que sejam coisa pouca para “tanta ajuda”.

Isto é uma tristeza, quais forças vivas, qual quê!
Bombom foi a visita de cortesia que o secretário do PS fez ao Primeiro, com direito a declarações em directo, a querer sinalizar-nos que a “oposição mexe”.

---------- Nuno disse...

2,5% de recessão enquanto pagamos um empréstimo que supostamente suporta o país com 5% de juros,
esperando-se pagar tudo isto com a delapidação total do património público
e um crescimento bombástico de 10% ao ano nas exportações.

É demencial e só dura uns meses, como se vê pela Grécia.

---------Anónimo disse...

O problema é que tudo indica que a recessão será bastante pior que 2,5%.
Isto até ao próximo Verão estará resolvido. Portugal entrará em default e sairá do Euro.


De . Plutocracia global e propaganda... a 3 de Outubro de 2011 às 13:52


“Este colapso económico é uma "crise de grandeza"”


A actual crise mundial é uma crise do crescimento;
Os bancos cresceram de mais;
A União Europeia cresceu de mais (sem ainda estar preparada, sem os meios adequados);
A negação dos políticos perante o colapso (e a sua cedência ao poder dos lóbis ultra-capitalistas, neoliberais);

As corporações cresceram tanto que estão a esmagar as democracias e a construir uma plutocracia global para servir os seus próprios interesses;

Referência a um senhor chamado Leopold Kohr que avisou que isto ia acontecer; Etc.

Artigo do The Guardian
http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/sep/25/crisis-bigness-leopold-kohr

A nova era socio-económica é uma era de descentralização, não de concentração de ainda mais poder nas mãos dos “eleitos de Deus” para guiar a carneirada servil!

Os todo-poderosos oligarcas do mundo sabem perfeitamente que estão na iminência de perder poder, por isso, levamos com a propaganda diária que levamos do FMI, do BCE, da UE..

(toni bolor)


De + JUSTIÇA e Democracia JÁ.. ou: BUUMm... a 27 de Setembro de 2011 às 10:35
Forum promovido pela rede social LinkedIn

Obama acusa Europa de estar a assustar o mundo com a crise
27.09.2011 - PÚBLICO,

O Presidente criticou a ausência de regulação do sector da banca na Europa

O Presidente norte-americano, Barack Obama, afirmou esta segunda-feira que a crise financeira que a Europa está a viver está a assustar o mundo e elevou o tom das críticas, atribuído o fracasso da Zona Euro à ausência de REGULAÇÃO do sector da BANCA e ao atraso na RESPOSTA aos problemas que foram surgindo.

Barack Obama, que falava na Califórnia num fórum promovido pela rede social LinkedIn, citado por várias agências noticiosas internacionais, defendeu ainda que os europeus “nunca recuperaram completamente da crise de 2007 e que nunca resolveram por completo todas as dificuldades que o seu sistema bancário enfrentava”.

O líder dos Estados Unidos referiu também que a actual situação soma-se ainda aos graves problemas que a Grécia vive, para depois insistir:
“Isto está a gerar uma crise financeira que assusta o mundo”.
E prosseguiu dizendo que a Europa, apesar de estar a adoptar “medidas responsáveis” não foi “tão rápida como era preciso”.

Depois de várias semanas a dizer que a Europa tem capacidade e força suficiente para ultrapassar a crise das dívidas soberanas de vários países,
Washington começa agora a dar sinais de impaciência perante as INdecisões dos líderes europeus, numa altura em que a economia norte-americana também está fragilizada e em que teme eventuais contágios.

----------

Europa tem potencialidade para resolver a crise e muito mais ... o que NÃO tem é líderes/decisores com Vontade e Capacidade... pois estão eufeudados/comprados pelos grandes grupos financeiros e económicos...

Pode ser que com a vitória da Esquerda no Senado Francês e Esquerdas, Verdes e Piratas a ganhar eleições em vários Estadoa Alemães e outros... pde ser que haja um novo impulso para a MUDANÇA na Política EUROPEIA.

Entretanto mais políticos se convencem que os Bancos vão mesmo ter de ''perdoar'' parte da dívida da Grécia (fala-se em 50%)... este tem de ser o caminho, juntamente com a AUDITORIA pública às Dívidas 'soberanas' ... ào combate à corrupção e aos 'offshores'...

a alternativa será o crescimento dos protestos populares, e da violência ... descontrolada ou direcionada para Alvos considerados RESPONSÁVEIS pela crise, burla e roubo do erário/património público e pela perda de direitos e condições de vida decentes para os Trabalhadores.


De . Direita e alta Finança, escondem... a 26 de Setembro de 2011 às 18:24
A dívida oculta da Alemanha
23 setembro 2011 , Handelsblatt,

"A verdade" – é o título do Handelsblatt, que baseando-se em números espantosos, põe termo ao mito da alegada parcimónia do Estado alemão.
Oficialmente, a dívida alemã, em 2011, é de 2 biliões de euros.
Mas isso é apenas uma meia verdade, porque a maior parte das despesas previstas com reformados, doentes e pessoas dependentes não foram incluídas nesse cálculo.
De acordo com os novos números, a dívida real ascende a mais 5 biliões de euros.

Por conseguinte, a dívida da Alemanha atingiria 185% do seu produto interno bruto e não os 83% oficialmente anunciados.
Como termo de comparação, a dívida grega em 2012 deverá ascender a 186% do PIB da Grécia e a dívida italiana é atualmente de 120%.

O limitar crítico a partir do qual a dívida esmaga o crescimento é de 90%.
Desde que chegou ao poder, em 2005, Angela Merkel "criou tantas novas dívidas como todos os Chanceleres das quatro últimas décadas juntos", refere o economista principal deste diário económico.

"Estes 7 biliões de euros são um cheque sem provisão que nós assinámos e que os nossos filhos e netos terão que pagar."
------------------

Ocultar a dívida (alemâ)
( por Sérgio Lavos, Arrastão )

Parece que Alberto João Jardim e Angela Merkel aprenderam a gerir dinheiros públicos na mesma escola.
E agora, será que a Alemanha vai ter de abdicar da sua soberania para poder cumprir os critérios de estabilidade?

É que a partir dos 90% a dívida começa a esmagar o crescimento económico e a Alemanha parece que afinal já vai nos 185%, a um passo dos 186 da Grécia e distanciando largamente a Itália (120%), Portugal e a Espanha.
Quererá a pátria de Frau Merkel entrar para o quadro de desonra do Euro ?

-------------
...
Andam por aqui uns quantos “maduros” (eu incluído) a “palrar” sobre a perda das Soberanias Nacionais
(cumprindo os planos para a destruição das Economias e consequente instauração do Neo- Esclavagismo do Século XXI)
mas, o “maralhal” devia pensar que era abuso do “tintol”.
Alucinação suprema, cheguei a designar esta União Europeia como o “IV Reich Financeiro”.
Teorias da conspiração, absolutamente, obscuras ...


De .+.EUROPA (con)FEDERAL.+. a 27 de Setembro de 2011 às 14:47
Com uma mulher perigosa no leme, dois caminhos para a Europa
(-por Daniel Oliveira, Expresso online)

Angela Merkel, chanceler de um dos primeiros estados europeu a violar os limites do défice - problema rapidamente resolvido com adiamentos -, propôs que os países que ultrapassem o défice e o endividamento público exigidos perdessem a sua soberania.

Suspeita-se que a dívida alemã seja, ela mesma, muito superior ao que é confessado.
Segundo o jornal "Handelsblatt", a maior parte das despesas previstas com reformados, doentes e pessoas dependentes não foram nos cálculos.
´O quer dizer que a dívida alemã poderia vir a corresponder a 185 por cento do PIB da Alemanha, quase igual à grega e muito superior à espanhola, italia e portuguesa. Já não quero que a Alemanha perca a sua soberania.
Basta-me que deixe de querer ter a nossa.

Acho que está então chegada a altura de pôr a chanceler no seu devido lugar.
E explicar-lhe que estas declarações são um ato hostil contra aliados, que a coloca na perigosa posição de séria ameaça à independência dos Estados e ao direito internacional.
A coisa resume-se de forma ainda mais direta:
Angela Merkel é um perigo para a segurança e estabilidade dos países europeus.
E é assim que deveria começar a ser tratada pelas instituições europeias e os membros da União.

Entretanto, temos de fazer uma escolha. E em qualquer delas a retórica imperial da senhora Merkel não cabe.

A primeira:
os países europeus começam a preparar a desagregação da União Europeia, regressando às velhas nações, e a Alemanha voltará ao degredo de onde a Europa, solidária e complacente, a retirou, esquecendo os seus crimes passados.
Sem qualquer possibilidade de, com o seu marco, competir com o dólar.
Crescerá enquanto a galinha dos ovos de ouro do Leste render e, quando a festa acabar, fica reduzida à sua dimensão. Dimensão na qual, bem sabemos, sempre sentiu alguma claustrofobia.

A segunda:
damos definitivamente o passo para uma Europa FEDERAL.
Com harmonização fiscal, orçamento europeu, obrigações da dívida europeias, moeda única e, claro está, união política.
Um parlamento europeu com poderes soberanos, um senado com representação igual para cada Estado, um governo e uma Constituição.
E nesse projeto europeu os países periféricos deixarão de ser tratados como um simples mercado, onde se comprou a destruição de toda a capacidade produtiva, se despejou os produtos e, quando já nada se podia fazer com eles, se atirou para o lixo.
O euro deixará de ser um instrumento ao serviço da economia alemã.
O Banco Central Europeu deixará de ser um representante das conveniências de Berlim.
Ou seja, Angela Merkel, ou quem a substituir, terá de saber viver com os seus parceiros. O
s mesmos que ajudaram a Alemanha - com compromissos políticos e cedências económicas - a reerguer-se e a reunificar-se.

Estas são as duas possibilidades da Europa:
voltar para trás ou andar para a frente.
Se ficar em cima da ponte que está a ruir as repercussões podem ser terríveis para as democracias europeias.

Só que antes disto, ao que tudo indica,
a irresponsabilidade europeia deverá levar a Grécia a sair do euro.
E se isso acontecer nós seremos os senhores que se seguem.
Ou seja, para nós e para os gregos as ameaças criminosas da senhora Merkel valem pouco.
Poderemos vir a recuperar, da pior forma, a nossa soberania:
através da saída do euro.
E não seria mau que, pelo menos, trabalhássemos nesse cenário. E nos preparássemos para ele.
A esse assunto irei um destes dias.


De ..Fortuna da Igreja Grega é tabu ... a 26 de Setembro de 2011 às 17:24
A intocável fortuna da Igreja (Ortodoxa Grega)

26 setembro 2011Le MondeParis
Atenas, 2 de abril.

Enquanto o país se defronta com a crise e as suas consequências, o património da Igreja Ortodoxa continua a escapar às severas medidas de austeridade do Governo. Um tabu que é protegido pelas suas estreitas ligações com o Estado e pela sua influência no domínio da política.

Alain Salles
A Igreja e os mosteiros gregos não vão pagar o muito impopular novo imposto sobre o imobiliário, aprovado com caráter de urgência no domingo, 11 de setembro, pelo Governo grego, para cumprir os objetivos orçamentais impostos pelas entidades financiadoras. "A Igreja pagará impostos sobre os bens que explora comercialmente", precisa contudo um porta-voz do Ministério das Finanças, perante o tumulto causado por este anúncio. Ficarão isentos os locais de culto e as organizações de caridade. Mas, em alguns casos, as fronteiras são difusas e as contas da Igreja ortodoxa não são muito transparentes.

O dinheiro da Igreja continua a ser um tabu na Grécia. "Os seus rendimentos são tributáveis mas há dois grandes problemas", adverte o professor de sociologia da religião da Universidade do Egeu de Rodes, Polikarpos Karamouzis. "Não há um sistema económico que permita fazer o levantamento dos seus verdadeiros rendimentos e ninguém sabe quantas propriedades tem, porque não há cadastro."

Esta situação convém tanto à Igreja como ao Estado, "porque os políticos não querem ficar de mal com as autoridades ortodoxas", explica o deputado independente Stefanos Manos, que é um dos raros políticos a pedir a separação entre a Igreja e o Estado. "A Igreja da Grécia é uma igreja nacional, o que significa que há uma ligação política entre a Igreja e o Estado, que lhe confere os seus privilégios", explica Polikarpos Karamouzis. "O seu papel espiritual está estreitamente associado ao seu papel político, o que alimenta a confusão entre fiéis e cidadãos, que é explorada pelos políticos em busca de votos."

Papas e bispos são pagos pelo Estado
Os sacerdotes são líderes de opinião que os políticos preferem não ofender. Em dezembro de 2010, num texto distribuído em todas as paróquias, o Sínodo Sagrado, que reúne 13 bispos, classificava a "troika" – os representantes do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu – como uma força de "ocupação estrangeira".

A Igreja Ortodoxa é um dos elementos constitutivos da nação grega. A Constituição foi escrita "em nome da Santa Trindade indissociável e indivisível". Os sacerdotes abençoam a reabertura das aulas e os novos governos; o catecismo é ensinado nas escolas públicas; pessoas de todas as idades benzem-se quando passam por uma igreja.

Foi em março de 2010 que o Governo socialista de Georges Papandreou decidiu tributar as igrejas em 20% dos rendimentos comerciais e em entre 5% e 10% dos donativos declarados. Os 10 000 sacerdotes e os seus bispos são pagos pelo Estado, o que representa um montante de 220 milhões de euros anuais.

O antigo ministro das Finanças, Georges Papaconstantinou, tentou reduzir a contribuição do Estado mas, quando este tipo de informações transpirava, a vontade do Governo desaparecia. O atual ministro das Finanças, Evangelos Venizelos, muito próximo dos meios ortodoxos, não tem esse género de veleidades.

A riqueza da Igreja, "um mito"?
...


De www.presseurop.eu/ a 26 de Setembro de 2011 às 17:28
A intocável fortuna da Igreja
...
A riqueza da Igreja, "um mito"?

As polémicas suscitadas pela isenção deste novo imposto sobre o imobiliário levaram a Igreja a abandonar a sua reserva e a divulgar, na sexta-feira, 16 de setembro, o montante dos seus impostos. A sua direção dos serviços económicos afirma ter pago 2,5 milhões de euros de imposto predial e imposto sobre o rendimento, em 2010. Refere de passagem que possui 30 propriedades em Atenas (seis das quais desocupadas) e 14 em Salónica.

Quando a Igreja é atacada por causa dos seus bens, o que é cada vez mais frequente, o arcebispo de Atenas, Hieronymos, que é a mais alta autoridade ortodoxa na Grécia, reage e explica que a riqueza da Igreja é "um mito": restarão apenas 4% dos bens que a Igreja detinha antes da revolução grega de 1821, sendo de destacar as numerosas confiscações de propriedades pelo Estado.

Os jornais publicaram documentos sobre a fortuna da Igreja Ortodoxa. Segundo o Kathimerini (de centro-direita), em 2008, os seus bens ascenderiam a 700 milhões de euros. O antigo ministro da Economia, Stefanos Manos, avalia-a em mais de mil milhões de euros. Os 2,5 milhões de euros pagos pela Igreja parecem bem pouco, em função destes montantes não confirmados oficialmente. Mas trata-se apenas de uma parte dos bens eclesiásticos, geridos pelos serviços centrais da Igreja. Não abrange as paróquias, algumas das quais são muito ricas. Nem as propriedades diretas dos 80 bispos gregos, que beneficiam de uma grande autonomia. Isto sem contar com os bens dos 450 mosteiros, dependentes ou não da Igreja da Grécia (como os do Monte Athos, que têm um estatuto especial). Para a lista ser completa, seria preciso acrescentar os bens detidos na Grécia pelos patriarcas ortodoxos de Constantinopla, Jerusalém e Alexandria.

Segundo proprietário do país
A Igreja é o segundo proprietário fundiário (depois do Estado grego), detendo 130 000 hectares de terrenos. "Trata-se de florestas e de terrenos não urbanizáveis", explica Vassilis Meichanetsidis, do serviço de comunicação do arcebispo de Atenas. Trata-se também de imóveis nos bairros chiques de Atenas e nas ricas estâncias balneares a sul da capital.

A Igreja detém 1,5% das ações do Banco Nacional da Grécia e conta com um representante no Conselho de Administração, o bispo de Ioannina, Theoklitos, que, segundo a revista financeira Forbes, terá recebido 24 000 euros em senhas de presença, em 2008.

Até os terrenos incultos permitem fazer negócios. Os monges do rico mosteiro de Penteli, a norte de Atenas, procuram investidores, para um montante de mil milhões de euros, para explorar uma parte da sua montanha, a fim de a transformar num parque fotovoltaico e captar a energia solar. É a nova estratégia oficial da Igreja: rentabilizar os seus bens em benefício das suas organizações filantrópicas. Em 2010, a Igreja gastou mais de 100 milhões de euros em atividades caritativas, que aumentaram com a crise. "Em Atenas, fornecemos entre 10 000 e 12 000 refeições por dia", explica Vassilis Meichanetsidis.

Contudo, a vocação filantrópica da Igreja Ortodoxa é relativamente recente e registou altos e baixos. Em 2010, foi obrigada a encerrar e depois a mudar o nome da sua associação Solidariedade, por motivos de péssima gestão.

(- http://www.presseurop.eu/pt/content/article/992021-intocavel-fortuna-da-igreja )


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