2 comentários:
De Xa2 a 26 de Setembro de 2011 às 14:13
Estes dias que passam 254
(Por mcr, http://incursoes.blogs.sapo.pt/ 24.9.2011)

«Estes partem, aqueles partem e todos, todos, se vão...»
Lembrando o Zé Niza

Mais um! A partir de agora, ou de há algum tempo já, a contagem é sempre decrescente. Mas com o Niza mais velho não contava. Eu explico-me. Na Coimbra do meu tempo, os Niza eram dois. O Zé em Medicina e o Luís, meu colega e caloiro do mesmo ano. Ambos moradores numa republica infernal, a Baco, se bem recordo. Nunca percebi o que é que estas duas gentis almas tinham a ver com a Baco, república estimabilíssima, sem dúvida, mas eles não pareciam nada talhados para a vida de “repúblicos”. E na Baco aquilo era sem piedade:

“já Afonso Henriques
dizia a sua mãe:
na República Baco
é que se bebe bem.”

Estão a ver o desenho, espero.

Deixemos o Niza mais novo, em paz, com um forte e inconsolável abraço, e debrucemo-nos sobre o Zé.

Conheci-o, se não estou em erro, num novel (naqueles anos) club de Jazz do Orfeon nas instalações da Associação Académica. O Niza tocava numa banda caseira e esforçada e foi o meu primeiro jazz live. Era ele, o Proença de Carvalho (esse mesmo!) o Caixeiro (outro abraço, onde quer que estejas) e o Zé Cid (o homem do quarteto 1111). Isto se a memória não me está a pregar uma partida das gordas.

Haveria mais um ou dois preopinantes mas eu, neste momento, não me lembro dos nomes.

De todo o modo esse pequeno jazz band, ou esse pequeno bando de loucos a tentar fazer jazz numa terra de fados e guitarradas era uma janela aberta para outros mundos, para tudo.

Depois, o Zé Niza andava por todo o lado. Com o Adriano, o Zeca, o Manel Alegre, sempre na música mas nunca descurando outras coisas. Por exemplo: a conspirata. Os Niza eram democratas, de esquerda, e nunca se deixaram ficar para trás. Isto, dito hoje, parece pouco importante mas, naquele tempo, as coisas eram um bocadinho mais a sério e as opiniões e o agir em consequência eram muito mais a sério. Muitíssimo. Nunca me admirei de ver o Zé como deputado do PS (dos tempos em que o PS parecia de facto um partido de esquerda) e aliás, excelente deputado.

A nossa intimidade cresceu quando, o Zé Niza veio para o CITAC, ou melhor, começou a colaborar com o CITAC. Terá sido o Adriano a traze-lo, a ele e à sua prodigiosa capacidade de musicar fosse o que fosse. E foi assim que, em 69, estava ele já formado, que colaborou num espectáculo morto no ovo e que se chamaria “Castelao e a sua época”. Este Castelao era o galego, o Alfonso, um dos pais do galeguismo progressista, escritor, dramaturgo, artista plástico, enfim alguém de que valia a pena falar. O espectáculo encenado por Ricardo Salvat, um catalão que já aqui referi (estes dias que passam 148), teria muitas canções e, entre elas, uma retirada de um poema da Rosalia de Castro “Cantar da emigração” (cujos dois primeiros versos estão aí em cima) que foi criada por Maria João Delgado, uma das actrizes da peça (e que também seguramente estará desolada com a morte do Zé N.) e mais tarde cantada em disco pelo Adriano. A canção correu o seu mundo, pelo menos correu Portugal e tornou-se rapidamente uma das mais usadas pela esquerda. Cá e na Galiza, convém acrescentar.

A peça foi obviamente proibida, Salvat acabaria expulso de Portugal, muitos dos intervenientes na peça tiveram os seus dares e tomares com a policia política e Niza deu com os costados em África, destino aliás a que nunca escaparia dado ser médico. Depois, depois... já se sabe e os jornais hão-de o referir: uma carreira pejada de êxitos, outra paralela como médico, notável médico, uma terceira como político e uma montanha de amigos que hoje se sentem mais pobres e muito mais desamparados.

A história, pelo menos da música popular portuguesa, provavelmente dar-lhe-á um pequeno espaço porque Niza aparecia sempre em segundo plano. Todavia, o seu segundo plano, bem estudado, passa para primeiro se quisermos ser sérios e meditar a sério no que foram os anos 60, 70 e mesmo 80 musicalmente. Mas disso, espero, falarão outros.

Eu ainda o estou a ver no Club de Jazz, aplicado mas iluminado a entusiasmar um grupo de ouvintes a que ele abria as portas do jazz ao vivo, da vida de uma outra maneira, num Portugal nocturno e pardacento que ele e os amigos queriam melhor e..


De aqueles partem e todos, todos, se vão... a 26 de Setembro de 2011 às 14:20
...
queriam melhor e mais limpo. E conseguiu. Isso ninguém lhe pode tirar.

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Em tempo:
já que estou numa de necrologia, não quero deixar de prestar a minha homenagem a um homem digno, simples, corajoso e bom. Refiro-me a
Aristides Pereira,
primeiro Presidente da República de Cabo Verde, com quem tive a honra de jantar. Na altura, o Corsino Tolentino, então embaixador de Cabo Verde, convidara-me para ser cônsul honorário de Cabo Verde no Porto. E, embora tenha pedido um tempo para reflectir, fui convidado para esse magnífico jantar nas instalações da Ferreirinha, em Gaia.
Conheci o Presidente Aristides e tive o privilégio de falar longamente com ele. E de lhe explicar de viva voz as razões que, na altura, finalmente. me levaram a não aceitar o cargo.
Hoje, provavelmente já não seriam tão fortes, tanto mais que Cabo Verde é um exemplo marcante do que a África é capaz de fazer, mas eu, naquele conturbado tempo, entendia que
o facto de o PAICV ser a única estrutura partidária poderia indiciar uma democracia de via reduzida, como de resto ocorreu (e ocorre!...) noutras ex-colónias portuguesa.

Lembro-me que, depois de termos chegado a acordo sobre várias outras coisas, Aristides Pereira que, suponho, bebia pouco, quase nada, me disse brincalhão:
“Vou recomendar aos meus amigos este vinho de que V. diz tanto bem. Mesmo sem ser nosso cônsul já nos deu uma bela informação”.

E tinha razão, pois o vinho servido era uma espantosa “Reserva Especial” da Ferreirinha, marca que, para mim, não fica atrás da celebrada Barca Velha.

* lembrei-me agora de outro nome do grupo de jazz de Coimbra: Rui Ressurreição. Saravah!

** Os leitores mais benevolentes perdoarão o tom descosido desta crónica.
Apesar do que, em escrito anterior deixei, vou fazer gazeta ao regime de dieta que, aliás, não cumpro e beber a última garrafa de Reserva Especial que por aqui aguardava algum amigo em visita.
Com queijos vários e a CG por testemunha e companheira de copos.
Não posso despedir-me do Zé e do homem frágil que me quis honrar com um consulado, de gravata preta.


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