Populismo, ensino superior e promiscuidade de (ex-)políticos

O populismo rasca de Medina Carreira a nu 

    “Resolveu-se nos últimos anos endeusar as universidades. Mas então por que é que estamos tão mal? Porque não precisamos de tantos doutores, precisamos é de gente média que saiba fazer. As universidades aturam uma data de vadios e preparam a meia dúzia de gente que sempre foi boa”. -Medina Carreira, Casino da Figueira da Foz, 20/09/2011.

      Esta trapalhada rasca e mal educada num país saudável nem teria resposta. Mas dada a tribuna mediática - sempre sem contraditório - que é atribuída a este indivíduo, se não se responder, estas asneiras tantas vezes proferidas passam a ser verdade.
    A primeira frase revela apenas que os progressos significativos registados nas universidades públicas e na ciência incomodam Medina Carreira. Porquê? Atrapalha a sua intervenção política em prol das ideologias do estado mínimo.

    O falhanço estrondoso de uma sociedade fortemente dependente dos mercados responde à segunda frase, que no nosso caso se traduz numa dívida privada de 220% do PIB (sobretudo externa), dívida que Medina Carreira evita evocar.

    A terceira frase revela um misto de ignorância e rasteireza. Portugal não tem licenciados (doutores em medina-carreirês) a mais, tem licenciados a menos. Todos os países com melhor nível de vida que nosso têm uma maior percentagem de pessoas formadas no ensino superior do que nós temos. Nesses países os quadros médios (gente média em medina-carreirês) passaram quase todos pelo ensino superior (escolas técnicas, bacharéis ou licenciaturas). Essa ideia é reforçada pelo relatório que estabelece os objectivos científicos da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target", que descreve o sucesso da aposta da Finlândia na ciência e nas universidades nos anos 90 para responder à maior recessão registada num país da Europa ocidental desde a II Guerra Mundial, a uma taxa de desemprego de 20% e a uma dívida externa incomportável.

Número de publicações científicas por ano de autoria ou co-autoria de investigadores portugueses incluídas no Science Citation Index Expanded (Thomson Reuters/ISI).

     No tempo de Medina Carreira não eram os melhores alunos que entravam nas universidades, eram os filhos dos ricos. O próprio Medina frequentou a universidade graças ao nível de vida do seu pai, o historiador António Barbosa Carreira. Nesse tempo, tirando algumas honrosas excepções Portugal era praticamente um zero em ciência. Havia departamentos inteiros nas universidades que não tinham qualquer actividade científica. A maioria dos alunos andava a passear os livros, não acabava o curso, mas isso não os impedia de ostentar o título de doutor no quotidiano (começamos a perceber a origem do medina-carreirês). No entanto a aposta que foi feita nos últimos 20 anos nas universidades e na ciência teve um retorno científico exponencial (ver gráfico). O número de patentes e de empresas científicas e tecnológicas disparou. Quer instituições quer empresas de investigação participam hoje em redes científicas internacionais juntamente com a ESA, o CERN e outras instituições muito prestigiadas. Apesar de tudo ainda há um caminho longo a percorrer, mas prefiro de longe esta universidade de "vadios" do que a velha universidade de filhinhos do papá



Publicado por Xa2 às 08:08 de 28.09.11 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Maria Henriques a 19 de Outubro de 2011 às 17:56
O medina é apenas um dos do baralho cavaquista que se alimenta do saque.

Quanto ao resto é assim;-os constantes ataques a sócrates têm a mesma raiz:à esquerda , porque a esquerda fez merda pensando ganhar com isso, à direita , porque a direita pensou ganhar e para isso fez merda.do ponto de vista da merda são os dois iguais.


De Faladura de barriga cheia e dourada.. a 3 de Outubro de 2011 às 13:38
. Os privilégios
(-por Daniel Oliveira, Arrastão)

"A batalha está longe de estar ganha e é necessária uma extraordinária determinação, mas também muita lucidez. O que Portugal não pode fazer é deixar tudo na mesma, manter todos os privilégios e todas as ineficiências e esperar sair-se bem deste combate sem quartel" (roubado ao Tiago).
Assino por baixo as palavras de António Borges,
diretor do departamento europeu do FMI, ex-vice-governador do melhor PPR que se conhece em Portugal - a que chamamos Banco de Portugal - e ex-vice-presidente do Conselho de Administração da Goldman Sachs.

Estarei é a pensar nos PRIVILÉGIOS que ele TEM e defende
e não nos nossos DIREITOS, que ele quer DESTRUIR.
Por isso, hoje estarei na Avenida da Liberdade.


De Economistas'' ? e estruturas político-ec a 3 de Outubro de 2011 às 11:50
O que é um bom economista?

Para os "guardas/apóstolos" da ortodoxia, um bom economista é aquele que publica artigos em inglês nas revistas de prestígio e mostra uma capacidade de construir modelos abstractos com elegância matemática, partindo da hipótese que os mercados obedecem em permanência a forças de equilíbrio.

Se tiveres a infelicidade de pensar que as matemáticas constituem apenas uma simples ferramenta de análise,
que é preciso ter em atenção as relações de força presentes em toda a actividade económica,
ou pior se pretenderes mobilizar a história, a ciência política ou a sociologia para explicar os fenómenos económicos
e se ainda estiveres decidido a sublinhar a tendência dos mercados a derrapar, o melhor é ir procurar trabalho algures....


(Tradução livre e apenas de uma parte pequena do artigo Qu'est-ce qu'un bon économiste ? de Cristian Chavagneux em L'Economie politique de Julho de 2011.
A piada do inglês reflecte a nacionalidade francesa do autor. (ou a sobrevalorização do inglês no mundo actual e em especial entre os seguidores do pensamento anglo-saxónico, do liberalismo e capitalismo desenfreado)

# posted by Joao Abel de Freitas
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ESAME – Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos ('acordos' com a Troika)

Estava a reler o relatório da Inspecção Geral das Finanças sobre a Madeira e deparei-me com uma sigla que desconhecia - ESAME

Por curiosidade fui saber o que era. Olhei para a composição. Li os curricula e pensei para mim, a sigla está mal pensada. Deveria ser antes exame. Acho é gente muito capaz para ir a exame e depois....

A ESAME depende do Secretário Adjunto do Primeiro Ministro, Carlos Moedas, constituída por técnicos de fora da Administração pública, percebe-se na Administração é só incompetentes... portanto tudo de fora.

Mas outra surpresa, dei-me ao trabalho de adicionar os seus vencimentos e esta pequena estrutura custa ao País 29 889,73 € brutos. em salários/técnico.
Juntando uns pozinhos mais de outras despesas, a festa deve ficar no mínimo por 120 000.
Esta ordem de grandeza é apenas um dado de referência, mas não deverá ficar por menos:
umas despesas de representação, uns almoços aqui e ali, umas viagens, uns hotéis a pagar no estrangeiro, uns carros distribuídos, umas secretárias e outro pessoal de apoio e ainda despesas de funcionamento e comunicação.

Brincando, brincado vai -se a exame por 1 milhão e meio de euros/ano

Etiquetas: ESAME Carlos Moedas
# posted by Joao Abel de Freitas


De .Contra populismo rasca. a 28 de Setembro de 2011 às 11:04

contra o populismo rasca

(-por Miguel Cardina, Arrastão)


Nestes novos tempos em que a direita tem uma oportunidade de ouro para aplicar o seu programa histórico, temos direito a tudo.

Até à reemergência dos velhos e gastos oráculos.
Explicando ao povo no Casino da Figueira da Foz as razões pelas quais chegámos a esta "piolheira", Medina Carreira lá fez a sua conversa de taxista ressentido.
Afiançou, por exemplo, que neste país se "endeusam" as universidades e que, claro está, temos "doutores a mais".
E o Rui Curado Silva, cheio de paciência, lá demonstrou a falsidade desta ideia.
Com um gráfico e tudo.

tags: populismo


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