Lutar contra o mito e o roubo

Para acabar de vez com os mitos da crise 

 

    Se nalguma coisa a narrativa austeritária tem sido singularmente bem sucedida, é a disseminar e explorar o mito de que os países da periferia europeia viveriam acima das suas possibilidades por os seus trabalhadores trabalharem de menos e terem regalias a mais. Esta visão hegemónica foi abundantemente vendida aos eleitorados e opiniões públicas dos países do centro europeu, claro, mas tem também exercido grande influência na própria periferia.

    Acontece que é, simplesmente, mentira. Este post publicado no blogue da Real World Economics Review, que tem por base um exercício anterior de Kash Mansori, reúne cinco tabelas que mostram isso muito bem. É um conjunto de indicadores a que nós e outros já nos temos referido, mas que aqui se encontram convenientemente reunidos e resumem a questão de forma cristalina.

    As figuras falam por si, mostrando que, de uma forma geral, os trabalhadores da periferia europeia…

1) trabalham mais horas;

2) têm taxas de actividade idênticas ou mais elevadas (especialmente Portugal e Espanha);

3) no caso de Portugal e sobretudo da Grécia, apresentaram níveis de crescimento médio anual da produtividade do trabalho, entre 2000 e 2008, idênticos ou superiores aos do centro europeu;

4) registam níveis de despesas sociais per capita bastante mais reduzidos; e

5) apresentam um nível de despesas com pensões de reforma em percentagem do PIB (isto é, relativamente à capacidade da economia) idênticos aos do centro europeu;

    Ou seja, a narrativa hegemónica é uma rematada mentira de consumo fácil, destinada a persuadir as vítimas da espoliação de que "não há alternativa". Quanto à verdadeira história, resume-se nos seguintes pontos:

1) Uma perda de competitividade dos países da periferia europeia ao longo da última década que não se deveu à evolução da produtividade do trabalho mas sim à pertença a uma zona monetária perversa, com um euro sobrevalorizado face ao exterior e, no interior da zona euro, uma competição cerrada ao nível da compressão salarial promovida acima de tudo pela Alemanha...

2) …perda de competitividade essa que, ao longo da última década, provocou o gradual aumento do défice comercial e constrangeu o nível de actividade económica, com consequente perda de receitas fiscais (aumentando o défice orçamental)...

3) …a que se seguiu uma recessão mundial, de 2008 em diante, que implicou uma contracção dos mercados de exportação, com consequente aumento adicional do défice externo e contracção adicional da actividade económica, implicando uma perda adicional de receitas fiscais e um aumento dos gastos do estado por acção dos estabilizadores automáticos (como o subsídio de desemprego)…

4) …recessão mundial essa que incluiu uma crise bancária que esteve na origem da opção política pelo resgate público de bancos falidos em condições desastrosas (somando défice ao défice), aliás na sequência das gigantescas rendas que os estados vêm há muito, e por diversas vias, assegurando à banca…

5) …somando-se ainda ao desperdício obsceno de fundos públicos decorrente da captura do Estado por interesses rentistas, nomeadamente através das ruinosas parcerias" público-privadas.

      Portanto: uma crise cujos fundamentos residem nas estratégias do capital centro-europeu; que foi despoletada por uma recessão mundial também ela decorrente do funcionamento do capitalismo financeirizado; e que se tornou insustentável devido ao desperdício acumulado do erário público em benefício de interesses rentistas nacionais, com a banca e os grandes grupos económicos à cabeça.

     E pela qual são os trabalhadores, pensionistas e classes populares a pagar - de uma forma nunca vista e, se não reagirmos à altura, permanente.

Mais do que uma crise, é um gigantesco roubo. E temos todos a obrigação de lutar contra ele nas ruas, nos locais de trabalho… e nas mentes daqueles com quem falarmos.


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Publicado por Xa2 às 13:35 de 26.10.11 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Gov.Ataca Trabalh. e favorece Bangsters. a 27 de Outubro de 2011 às 09:50
Um Gaspar pouco honesto

«ministro das Finanças voltou hoje a colocar completamente de parte a hipótese de Portugal reestruturar a sua dívida, como deve acontecer com a Grécia, garantindo que em causa estaria a capacidade do Estado de pagar salários e pensões.» [DN]

Parecer do Jumento:
Vítor Gaspar sabe muito bem que no caso da reestruturação da dívida não serão os salários e as pensões a estarem em causa, como, aliás, poderemos constatar num futuro próximo na Grécia.

É de um grande cinismo o ministro Gaspar estar a usar os grupos que ele sacrificou para agora se armar em seu protector encobrindo os verdadeiros prejudicados por uma reestruturação da dívida, os bancos e os seus accionistas.
Esses sim que ele está a proteger desde o primeiro dia em que é ministram das Finanças.



De Falsos: 'ajuda', 'perdão', 'Merkozy', UE a 28 de Outubro de 2011 às 11:34
- Houve perdão da dívida grega?

Falou-se e escreveu-se muito (eu escrevi...) que o perdão da dívida grega seria de 50%.

À medida que vamos dominando melhor a informação que nos chega, a realidade parece bem outra.
- E naquilo que resta será mesmo um perdão a sério?
Alguns dados para raciocínio.

Os empréstimos públicos recebidos pela Grécia do FMI e UE somados aos títulos do tesouro comprados pelo BCE correspondem a 30% da dívida grega.
Ora, o "perdão", assim, só incide sobre os restantes 70%, ou seja, 35%, uma vez que os montantes (FMI+BCE+UE) não entram.

Segundo aspecto, estamos de facto perante um "perdão"?

O mecanismo do perdão consiste no seguinte, segundo entendi.
Os bancos credores vão trocar os títulos da dívida grega que valem zero por títulos a 30 anos, cujo reembolso é garantido nessa data pelo FEEF e, durante estes 30 anos, esses bancos recebem um juro anual pelos respectivos montantes "perdoados".

Ao fim e ao cabo o perdão é pago pelo povo grego transformando-se num bom negócio (para os bancos 'caridosos').

Tanto alarido para uma solução destas da Cimeira !!.
Esta matéria merece análise aprofundada.
- Quem saiu beneficiado: a Grécia ou os bancos?!

- Quem vai pagar os custos?

Os 17 países do euro acordaram cerca das 4 da manhã de 27 de Outubro por "tentar resgatar" o projecto europeu na base de quatro decisões:

O perdão parcial da dívida grega (50%)
A recapitalização da banca europeia
O reforço do FEEF
Uma integração orçamental reforçada.

Vejamos quem vai pagar, por exemplo, no caso do reforço do FEEF e as contrapartidas.

Soube-se pela comunicação social, ainda este reforço não estava assegurado, que Sarkozy já estaria a tentar convencer o Primeiro ministro chinês a contribuir para este reforço.

Neste já longo processo de crise da dívida soberana europeia, o que tem "safo" esta história, tem sido o BCE com a compra de títulos no mercado secundário (está impedido de intervir no mercado primário).
O FEEF pode ir às emissões de dívida. Daí este interesse.

Será que os asiáticos e outros países emergentes entrarão neste reforço?

Há razões para pensar nisso. A Europa já os ajudou nos finais dos anos 90 a superar uma crise financeira.
Mas sobretudo vêem neste apoio uma forma de criar condições para adquirir as empresas europeias em que estão interessados.
Esta será a grande razão. Sem garantias neste domínio dificilmente entrarão com montantes significativos.

- Mas pergunta-se: estas medidas salvaram o projecto?

Em meu entender não, anestesiaram a situação e não por muito tempo. O comportamento das bolsas hoje foi esse sinal.

A crise europeia não é económica, é de modelo político que condiciona tudo, tendo influência na própria concepção do BCE.
- Pode alguma vez entender-se que um banco central não possa ter acesso à emissão da dívida dos países membros?
- Pode alguma vez entender-se que a UE tenha um orçamento tão reduzido (apesar dos fabulosas despesas com a sua 'máquina') ?
- Pode alguma vez entender-se que agora a Comissão e os outros países membros possam intervir nos orçamentos nacionais, antes das respectivas Assembleias, sem todo o aparelho europeu estar formatado para de forma atempada apoiar o país em dificuldades?
- Onde está a solidariedade que tanto se apregoou como uma trave mestra da UE?

Tudo isto é um contra senso.

# posted by Joao Abel de Freitas, PuxaPalavra, 28.10.2011


De ... a 26 de Outubro de 2011 às 15:02
----C.Albuquerque :
A proposta de OE 2012 vai contra muito do que tinham sido até aqui as políticas defendidas pelo PSD e CDS e, mais do que reduzir o défice, visa essencialmente desvalorizar o trabalho.

A partir da apresentação da proposta do OE 2012 fiquei convencido que o combate ao défice deixou de ser a primeira prioridade. Agora o mais prioritário é resistir por todos os meios à aplicação em Portugal da doutrina do choque.

Espero que consigamos todos estar à altura do combate nesta guerra que nos foi imposta por outros.

Uma abstenção do PS significará uma cumplicidade gravíssima com o pior do neoliberalismo.

-----D.H :
Ou seja, muito antes de 2008, Portugal e outros periféricos vinham já talhados para o “sacrifício”.
Hoje, no estertor da queda do Muro - versão Stiglitz, o desespero está a levar ao atropelo de tudo e de todos. Por cá, isto já nem precisa de revisão da Constituição, pois não há tempo a perder. Razão tem o Prof. João Ferreira do Amaral…O controlo do défice, coisa nenhuma!

------Luis :
Até já mesmo a Troika assumiu o erro no caso da Grécia.
Vejam aqui um relatório confidencial que saltou cá para fora:
http://www.creditwritedowns.com/2011/10/greece-expansionary-fiscal-consolidation-failure.html#.TqQeiL4W3Lo.gmail

-----SFF :
"aliás na sequência das gigantescas rendas que os estados vêm há muito, e por diversas vias, assegurando à banca…"
Se não for pedir muito, que diversas vias?

-----JBarbosa :
Tenho lido por aqui, que o nosso crescimento anémico nos ultimos dez anos se deve fundamentalmente à entrada no euro, uma moeda extremamente valorizada, que fez cair as nossas exportações, levando assim a um défice na balança de pagamentos, que levou também a um endividamento do país.

Sempre tomei este facto como verdadeiro. No entanto outro dia reparei que o défice da balança comercial não se alterou muito nos últimos dez anos, em relação aos anos anteriores.

Está aqui uma não correspondência dos argumentos com a realidade, ou uma (mais provavel) falta de formação económica da minha parte, que me leva a interpretar mal um destes dois factos?

----- A.Abreu :
---Caro SFF;
Assim de repente,
i) não sujeição a impostos equiparáveis aos que incidem sobre os rendimentos do trabalho, ou sequer sobre os lucros das empresas não financeiras;
ii) comissões sobre operações financeiras realizadas pelo estado, nomeadamente no contexto das PPPs e privatizações;
iii) ausência de política de habitação digna desse nome, empurrando a população para a aquisição de casa própria a crédito;
iv) bonificação dos juros dos empréstimos à habitação, tornando mais baratos esses empréstimos, ou seja, subsidiando a concessão de crédito;
v) juros sobre a dívida pública num contexto em que os estados não se podem financiar directamente junto do banco central mas a banca pode fazê-lo em condições privilegiadas, funcionando na prática como um intermediário principescamente pago que para todos os efeitos seria desnecessário.

---Caro J. Barbosa,
O Euro entrou em circulação em 2002, mas os critérios de Maastricht, que impuseram a convergência nominal, foram aprovados em 1992 e entraram em vigor em 1993. Desde aí, a imposição dos critérios de convergência ao nível das taxas de câmbio, inflação e juros impôs na prática a ancoragem do escudo ao marco, funcionando desde logo como se se tratasse de uma moeda só (ou antes, com limites muito apertados em termos de possibilidade de flutuação). E é precisamente a partir dessa altura que o défice da balança de transacções correntes começa consistentemente a deteriorar-se. Mas tem toda a razão - eu poderia ter tido mais cuidado na exposição desta questão e sobretudo na indicação do horizonte temporal em causa.

---Caro C.Albuquerque,
Seja muito bem-vindo - todos somos poucos para lutar contra a barbárie.
Não que as suas chamadas de atenção anteriores acerca da importância de evitar o desperdício no sector público ou os elefantes brancos sejam descabidas. Pelo contrário: a exigência, o rigor e a boa utilização dos recursos públicos têm de ser preocupações fundamentais da esquerda. O problema é que é muitas vezes esse o pretexto sob o qual se procede a coisas muito mais sinistras, como a privatização das funções sociais do estado ou a espoliação dos trabalhado


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