Não à revolução ultra-liberal

AJUSTE DE CONTAS

    A Europa está ameaçada, não pelo anúncio do referendo grego, mas pela ausência de democracia e solidariedade, pela deriva de um directório sem mandato nem legitimidade (como sublinhou, em Florença, Cavaco Silva), pela impotência da Comissão Europeia e por políticas, comandadas pela Alemanha, que provocam recessão, desemprego, empobrecimento, destruição do modelo social e desvalorização do mundo do trabalho.

    E também pela sobreposição de poderes não legitimados e sem rosto (mercados e especuladores) ao poder legítimo dos Estados, em dimensões nunca vistas. A democracia e a soberania estão sequestradas pelo poder incontrolado e desregulado do capital financeiro. Esta é a raiz da crise, da qual não se sairá enquanto se propuserem e impuserem soluções destinadas a preservar o sistema que a originou. O referendo grego não é uma causa, é um efeito e um revelador.
    Repetem-se as mesmas receitas:    supressão da procura e do crescimento internos, apoiadas na fé monetarista do BCE e na sua cruzada contra a inflação. Nem políticas fiscais e orçamentais comuns, nem um BCE com uma função adequada em matéria de emissão monetária, crédito e controle da taxa de câmbio, nem eurobonds como garantia mútua do endividamento europeu.
    Em 2010, a UE absorveu quase 80% do excedente comercial alemão (56% para a zona euro). Apenas uma parte de 20% desse excedente alemão resultou de exportações para o resto do mundo. A França foi, de longe, o maior contribuinte do excedente alemão (29 mil milhões de euros de saldo favorável para a Alemanha nas trocas entre os dois países). Ao longo dos últimos anos, e sobretudo desde o surgimento do euro, este fosso foi sendo cavado e alimentado pelo recurso ao endividamento (público e privado) pela maioria dos países da UE, numa pirâmide de dívida que tem, no seu topo – sem surpresa –, os maiores bancos alemães. Ou seja os mesmos que os actuais planos de resgate visam agora proteger, depois de anos a emprestar à tripa forra. A imprudência não veio apenas de quem pediu emprestado (a taxas de juro que eram inferiores à inflação, é bom lembrar), mas também de quem emprestou.
    A Alemanha teve o mérito de saber prosperar à custa dos outros europeus, mas está na hora de o resto da Europa acordar, incluindo Portugal. Sem o conjunto das cigarras europeias (do qual fazem parte a francesa e a italiana, que estão agora aflitas), não haveria nenhuma formiga rica alemã.
    O projecto de construção europeia -baseado na solidariedade de facto, do carvão e do aço até ao mercado interno e à moeda única - trouxe décadas de paz e de prosperidade partilhada ao velho continente. Poucos países beneficiaram tanto deste projecto como a Alemanha. Com muito mérito e esforço dos alemães, mas a verdade é que nada do que conseguiram teria sido possível sem os outros europeus.
    O limite do tolerável está a ser ultrapassado. É o que explica o anúncio de um referendo na Grécia. Os que não têm nada a perder, para além da sua dignidade, podem sempre dizer não. Assim escreveu Miguel Torga: “ Temos nas nossas mãos /o terrível poder de recusar”.
    Também Portugal deve trilhar o seu próprio caminho. Não o que defende o PM, empobrecimento da generalidade da população, destruição da classe média, degradação de serviços públicos essenciais como a saúde e a educação. Não tirando aos pobres e remediados para poupar os ricos, nomeadamente a banca. Não virando os trabalhadores do privado contra os funcionários públicos. Não privatizando as empresas públicas ao desbarato, em sectores de interesse estratégico nacional, como a água, nem desvalorizando os custos do trabalho para além do limite da dignidade de cada trabalhador.
    Os ditames externos de austeridade não podem servir de pretexto para um ajuste de contas ideológico em Portugal, com o qual a direita sempre sonhou.
    É tempo de compreender que este não é um ciclo político normal. O governo está a aproveitar a crise para fazer uma revolução ideológica, conservadora e ultra liberal. Essa é a estratégia consagrada no OE. Ultrapassa a agenda da troika e põe em causa o consenso sobre o nosso modelo de organização democrática e social. Passos Coelho o disse, no Paraguai: “Temos de mudar o regime económico”. Só que essa mudança significa uma mudança de democracia. O que já nada tem a ver com a consolidação das contas públicas nem com o interesse nacional. É um PREC de direita. Contra o qual têm de estar todos aqueles, em primeiro lugar os socialistas, que ajudaram a construir a nossa democracia.

    [-por Manuel Alegre, JN, 04-11-2011, via MIC]


Publicado por Xa2 às 13:35 de 04.11.11 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 5 de Novembro de 2011 às 08:47
Parlamento português gastou, em 2010, cerca de três milhões de euros em ajudas de custo.
Quem é que é ultra-liberal?
Deixemo-nos de nomes, etiquetas e outras pseudeo-intelectualizações para tentar classificar a classe política portuguesa. São todos uma cambada de mamões. Mamam todos da teta da porca.


De . Ideias para ... Tugas. a 4 de Novembro de 2011 às 16:58
Ideias lebres para salvar Portugal (6)
(-por Sérgio Lavos, Arrastão)

Aumentar impostos às classes baixa e média.
Cortar-lhes os subsídios de férias e de Natal.
Aumentar impostos sobre o consumo.
Cortar nas compartições de medicamentos.
Deixar que a Galp e a Petrogal continuem a chafurdar no seu desmando monopolista, fazendo com que Portugal tenha os preços de combustíveis mais altos da União Europeia (em relação ao ordenado médio).

Cortar nas ligações dos subúrbios à capital e na rede de transportes públicos citadina, depois de anos de investimento nessa mesma rede.
Aumentar brutalmente o preço dos transportes públicos.
Daqui a uns tempos, nem de carro, nem de autocarro; vamos todos a pé para o trabalho - até porque ciclovias, nem vê-las.
Pelo menos, decretando o recolher obrigatório na cidade de Lisboa (com a supressão das carreiras nocturnas e o encerramento do metro às 23, em algumas linhas às 21), iremos poupar uns bons cobres em copos
(Garanto-lhe que se entrar no metro à meia-noita dificilmente encontra lugar sentado. E não, não é gente que vai para os copos, é gente que vai ou vem do trabalho. Já pensou que enfermeiros, empregados dos centros comerciais, vigilantes e tantos outros profissionais não vivem nos locais de trabalho?).
Está certo.

tags: criminalidade violenta, crise
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(- O que eles estão a fazer já sabemos.
Gostava era de ver as suas ideias alternativas
para atingir essas metas do défice em vez de enumerar as do governo. )

É muito fácil :

quase 40% das nossas importações são relativas a automóveis e combustíveis para transportes e quase 1/4 do orçamento familiar médio vai também para os transportes, no qual o automóvel é rei.

Se conseguirmos reduzir todos estes factores com melhoria do transporte público, política agressiva comercial e de tarifário e cancelamento de mais incentivos aos automóveis e eliminarmos 50% dos kM percorridos em automóvel a nossa balança comercial fica POSITIVA.

Isto se não contar sequer a maior poupança das famílias, a redução de uma sinistralidade que mata 900 pessoas e fere outras 40.000 todos os anos e os ganhos em termos de ambiente urbano.

Não precisa agradecer


De . P'S' e Direita : logro colossal. a 4 de Novembro de 2011 às 16:30
Derrotas seguras da esquerda

A abstenção na votação do OE 2012,
o orçamento do empobrecimento desigual, da desvalorização salarial e social, a antítese da social-democracia,
indica que a nova direcção do PS já desistiu de dizer qualquer coisa de esquerda, qualquer coisa civilizada, qualquer coisa.
Já desistiu do país. O definhamento é seguro.

Num outro plano, personalidades de esquerda subscreveram uma petição que, independentemente das intenções, aceita um enquadramento do debate que garante estruturalmente a derrota de qualquer projecto progressista.
As convergências são mais do que nunca necessárias, mas o problema é a hipótese de partida, que desgraçadamente se aprofunda no texto:
"Os signatários reconhecem a necessidade de medidas de austeridade, mas aquelas medidas são excessivas e iníquas".
Pela minha parte, não tenho razões para alterar o que aqui escrevi há um ano atrás:

É preciso recusar a lógica da austeridade, mesmo que esta pudesse ser mais simétrica na distribuição dos fardos entre os diferentes grupos sociais.
Esta opção de política económica amputa o mercado interno, uma das pernas necessárias ao crescimento,
acentua a desindustrialização,
mina as possibilidades de crescimento qualificado no longo prazo e
atola duradouramente o país numa taxa de desemprego de dois dígitos (...)

Perante esta catástrofe, o discurso das esquerdas sobre a política económica não pode ficar exclusivamente amarrado a propostas de justiça social focadas nas questões estruturais dos défices de equidade do sistema fiscal,
traduzidos nos favores fiscais à banca e ao restante capital financeiro,
ou na predação dos recursos públicos, por exemplo, através de ruinosas privatizações ou parcerias público-privadas,
promotoras do controlo privado de serviços e infra-estruturas públicas.

(-por João Rodrigues às 4.11.11 , Ladrões de B.)
--------------------

O logro colossal
...
Este pensamento errático de Passos Coelho coloca dois problemas:
o da legitimidade política e o de saber quem manda em Portugal. É evidente que é Passos Coelho que se reúne semanalmente com Cavaco Silva, que aparece nas fotos de família dos Conselhos Europeus ou que faz as comunicações dramáticas a
informar os portugueses de que vai tirar o escalpe aos burgueses dos funcionários públicos,
mas também é cada vez mais evidente que num governo que vive para a dívida e para o orçamento quem manda mesmo é o ministro das Finanças.

O fundamentalismo liberal que preside à política económica é de Vítor Gaspar,
é o ministro das Finanças que inventa desvios para justificar os seus exageros,
é ele que decidiu desvalorizar os trabalhadores portugueses,
é ele que decide a quem se corta direitos e rendimentos.

Passos Coelho serve apenas para dar a cara no pressuposto de que é ele que consegue os votos.

Vítor Gaspar está para o governo de Passos Coelho como Salazar estava para o governo saído das eleições de Carmona em 1928,
tal como sucedeu na ocasião Gaspar quer superar a crise em dois anos
e detém o controlo sobre a despesa de todos os ministérios, uma exigência que Salazar também fez a Carmona.

Isto coloca um problema de legitimidade,
o país está a ser governado com base numa política que foi escondida dos cidadãos quando estes foram chamados a pronunciar-se em eleições legislativas,
e está a ser mandado por alguém que nem conhecia nem foi proposto para primeiro-ministro.


De Substitui-los! mas como? a 4 de Novembro de 2011 às 14:24
Pois é, até que estou de acordo com Manuel Alegra mas, onde andam esses socialistas?
Que evolução tem trilhado o próprio PS no âmago do debate interno, na dinamização da sua estrutura, supostamente, de funcionamento democratico desde as bases (leia-se secções) até ao topo?
Quais são, efectivamente, os espaços de debate, abertos e sem calculismos, sobre a ocupação de um qualquer pelouro na própria estrutura e de defesa dos que já estão agarrados?
Será convocando, com duas horas de antecedência, os militantes para um qualquer debate sobre o momento político que o país atravessa, que se mobilizam os socialistas?
Quando, como e quem debate a situação interna partidária e o respectivo exercício da democratico, com exigências de funcionamento transparente, a todos os níveis?
Como são obtidos os dinheiros gastos em campanhas internas?
A “ausência de democracia e de solidariedade” na Europa começou/nasceu dessa mesma ausência no interior dos próprios partidos e em quem os controla. Assim, a cura de tal doença só será conseguida quando e na medida em que se resolva dentro desses partidos a menos que surja algo que os substitua.


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