2 comentários:
De ."Como foi/ é possível ? " chegar aqui. a 9 de Novembro de 2011 às 09:10
" Como foi/ é possível ? " chegar aqui (tão baixo na economia e na democracia) ?!!.
Perguntar-se-á

«Para muitos a proposta de referendo resumiu-se à rotunda humilhação do seu proponente, George Papandreous,
alguém que, pragmaticamente, terá acabado por perceber a magnitude da sua veleidade.
Pois bem, é uma leitura respeitável que só peca por estar olimpicamente errada.

Ao aventar a hipótese de referendo Papandreous desencadeou um outro escrutínio:
"A construção europeia tem algum pingo de respeito pela democracia?"
À falta de referendo tivemos, pois, uma significativa eurosondagem em que o não à democracia demarcou com maior nitidez as fronteiras do seu império.
No ostensivo esmagamento perpetrado pelo "Não ao referendo" está a dádiva de limpidez de Papandreous para toda uma geração de europeus.»

(Bruno Sena Martins, no Arrastão. A imagem é, evidentemente, da Gui Castro Felga :
« Quando os Mercados entram pela porta; a Democracia sai pela janela » ).

Quando se fizer a história dos tempos sombrios que a Europa atravessa, a perplexidade que hoje sentimos será porventura ainda maior.
Perguntar-se-á como foi possível convencer as opiniões públicas a esquecer a verdadeira origem da crise
(o desvario dos mercados financeiros, decorrente da sua liberalização e desregulamentação),
deixando-a intocada, e acreditar que o problema se encontra no Estado e nas políticas públicas.

Perguntar-se-á como foi possível subordinar deliberadamente a Política a esses mesmos mercados e aos seus instáveis humores.
Perguntar-se-á como foi possível continuar a acreditar (apesar dos ensinamentos do passado e dos sinais acumulados de fracasso do presente) que uma recessão se ultrapassa atravessando o fogo austeritário.

Perguntar-se-á como foi possível esmagar a decisão soberana de cada país em matéria de correcção dos défices públicos
(em larga medida agravados pelos impactos económicos da própria crise financeira),
impondo-lhes unilateralmente a esgotada cartilha, apresentada como inevitável, de desmantelamento do Estado.

Perguntar-se-á como foi possível que lideranças tão medíocres tomassem conta do ideal europeu e desprezassem - olimpicamente - um dos pilares que melhor o identificam: a própria democracia.

Perguntar-se-á, enfim, como foi possível deixarmo-nos chegar aqui.

(-por Nuno Serra às 6.11.11 , Ladrões de B.)


De . Abstenção e Queda . a 8 de Novembro de 2011 às 16:42
------- A Queda (da Itália e de Berlusconi)

Ironias da economia política europeia:
Berlusconi, que ao longo dos anos tem conseguido sobreviver a inúmeros processos judiciais e à indignação de milhões de italianos contra a sua versão especialmente abjecta de populismo neoliberal,
encontra-se agora num beco sem saída devido exactamente à mesma conjugação de processos que começou por afectar a Grécia e Portugal:
perda de competitividade devido à arquitectura do euro;
queda das receitas fiscais devido à recessão de 2008 em diante;
ataques especulativos contra a solvabilidade do Estado italiano dada a ausência de um Banco Central que actue como credor de última instância a uma escala credível.

No que diz respeito à política italiana, a possível saída de cena de Berlusconi, se se concretizar, obviamente só pecará por tardia.
Mas não deixará de ser curioso se, com tanta iniquidade que lhe pode ser apontada, o primeiro-ministro italiano acabar por ver-se forçado a demitir-se devido a um conjunto de factores que, apesar de contarem com a sua cumplicidade, não são da sua directa responsabilidade.

A quantos mais países terá esta crise de estender-se para que cessem os moralismos em torno do “viver acima das possibilidades” e se encare de frente o dilema inescapável da zona euro, que é reformar-se a sério ou dissolver-se?

(-por Alexandre Abreu às 8.11.11 )

-------- Acabou?

Alguém é capaz de me explicar por que é países em vias de desenvolvimento deviam ter ajudado a “salvar” uma Zona Euro substancialmente mais rica, participando num fundo tóxico?
Do Brasil à China, a recusa em entrar no buraco pensado por Merkozy e cavado pelos seus subalternos nas periferias é racional.

Os problemas estão num Zona Euro disfuncional, mas com recursos mais do que suficientes para os resolver e com soluções europeias imediatas, propostas durante muito tempo apenas por sindicatos, partidos de esquerda e economistas críticos,
que hoje nos permitiriam ganhar tempo para pensarmos em reconstruir relações económicas com dignidade – da acção de um verdadeiro Banco Central ao impulso do Banco Europeu de Investimento, passando pelas euro-obrigações.
Nada disto será instituído.

A aposta míope das elites há muito que é outra:
usar a crise e a austeridade como oportunidade para destruir o muito que resta dos modelos sociais nacionais.
Continuarão a deixar as forças da especulação jogar ao dominó, enquanto por cá tentam
intoxicar os cidadãos com moralismos, empobrecimentos dignos e equitativos,
a retórica dos intelectuais (des)orientados, e destroem imoralmente o laço social com utópicas “reformas estruturais” e com austeridade que só pode ser depressiva.

A França é a próxima peça impossível depois da Itália e da Espanha. A Alemanha pode esperar. Entretanto, parece que já há quem exija contratos em dracmas.

Neste contexto, será que só nos resta pensar no nosso futuro pós-euro, usando as armas de que dispomos para tentar almofadar esta mudança?

(-por João Rodrigues às 7.11.11 )

-------- Abstenção violenta

António José Seguro tem razão: a opção pela abstenção do PS em relação ao próximo Orçamento de Estado é violenta, pois legitima, de forma inexorável, uma proposta orçamental que o próprio classifica como contendo «medidas violentas e profundamente injustas».

De facto, ao apresentar «três moedas de troca» para não votar contra (poupar um dos cortes previstos aos funcionários públicos e reformados, reduzir o aumento do IVA para a restauração e criar uma linha de apoio ao crédito às empresas através do BEI), Seguro dá a sua benção a todos os outros golpes no Estado social e nas políticas públicas, que o OE consagra (nomeadamente os cortes brutais na Saúde e na Educação).

Não pense pois o secretário-geral do Partido Socialista que a abstenção o demarca do Orçamento. Quando o país estiver, no próximo ano, a viver dolorosamente o seu impacto, será como se o PS tivesse votado a favor. O acordo da troika não o obrigava a subscrever, mesmo que a tinta incolor, este orçamento, que está muito para lá das suas fronteiras.

Fica aliás uma dúvida inquietante por esclarecer: quanto pior teria que ser a proposta orçamental para que o PS votasse contra?

(-por Nuno Serra às 7.11.11 , Ladrões de B.)


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