Estados e povos 'ajudadores'/fornecedores vs. devedores

As dívidas da Alemanha

por Sérgio Lavos

  (Museu Pergamon, em Berlim) 
Absolutamente a ler até ao fim, esta resposta de um grego a uma carta enviada para a revista Stern escrita por um alemão que se sente ofendido com o "estilo de vida" grego. Traduzida por Sérgio Ribeiro, via Aventar. Já agora, seria bom que, tanto o Rui Rocha como o Pedro Correia, que andam entretidos no Delito de Opinião a convencer-nos de que os gregos merecem aquilo por que estão a passar, lessem este post até ao fim. Talvez ganhassem algum bom senso e deixassem de apontar o dedo a quem mais sofre com o austeritarismo imposto por Merkozy. 

     "Há algum tempo, foi publicada , na revista, uma “carta aberta” de um cidadão alemão, Walter Wuelleenweber, dirigida a “caros gregos”, com um título e sub-título:

«    Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia

Os gregos, que primeiro fizeram alquimias com o euro, agora, em vez de fazerem economias, fazem greves

     Caros gregos,

    Desde 1981 pertencemos à mesma família. Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E.

    Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.

    Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos. O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós.

    No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.

    Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm.

    Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional.

    Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante  !!!  »

 

Na semana seguinte, o Stern publicou uma carta aberta de um grego, dirigida a Wuelleenweber:

«    Caro Walter, Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas.

    O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!... não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares.

    Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa. Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.

    A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar.

    Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO.

    Estimado Walter,

    Passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia.

    Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:

1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial;

2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.

3. Os empréstimos em obrigações que contraíu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.

4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.

5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., et.).

6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.

    Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o.

    Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas.

    Amigo Walter:

na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA.

    Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, Perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia? Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pretendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.

    Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc.

    E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia:

    EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM  !!!  

Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nossos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.

    E EXIJO QUE SEJA AGORA !!  Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.

Cordialmente,

Georgios   »



Publicado por Xa2 às 18:00 de 08.11.11 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Ricardo a 9 de Novembro de 2011 às 17:26
Ora nem mais,o caso dos submarinos é um bom exemplo,e Portugal é que arrisca ir ao fundo.Esta europa merkozy é uma fraude!


De Zé T. a 9 de Novembro de 2011 às 15:40
CARTA GREGA

Tirando algumas grandes 'minudências' e especificidades... também se podia substituir o nome «gregos» pelo de «portugueses», ...
(embora, em boa perspectiva, os ''Grandes Descobrimentos dos Portugueses'' sejam de grau menor do que os ''Ideais Humanísticos'' que a cultura Grega nos ofereceu; mas já o contributo da diáspora/ emigrantes portugueses e gregos é semelhante), ...idem para outros povos...

Mas o que quero mesmo salientar são 3 aspectos da EXEMPLAR carta do grego ao ignorante sobranceiro alemão
(este é um mau exemplar, demasiado vulgarizado por muitos países,
mas, felizmente, muitos alemães são/foram de primeira grandeza Humanística, património não da Alemanha mas do Condomínio Terra)::

1- o INSULTO e ofensa moral e intelectual que alguns fazem a outos povos, culturas e indivíduos;

2- a análise ECONÓMICO-POLÍTICA de interligação de produtores/vendedores a consumidores;

3- a CO-RESPONSABILIZAÇÂO de quem 'decide/governa' com a daqueles que corrompem/'compram' governantes para obterem concessões e contratos RUINOSOS para o erário/ património público !!


De ... a 9 de Novembro de 2011 às 18:06
A dívida da Alemanha à Grécia
(-por Sérgio Lavos, Arrastão)

Esclarecedor artigo publicado no Guardian em Junho passado, escrito pelo historiador Albrecht Ritschl (link deixado pelo Luís Rainha na caixa de comentários de um post mais abaixo) que eu decidi traduzir:

"Os alemães não andam muito divertidos. Basta olhar para os tablóides ou para os blogues para se perceber que a opinião pública está em ponto de ebulição.
Obrigados a financiar mais um aumento da dívida pública e mais um resgate das contas, os alemães começaram a questionar tudo, desde a sensatez de apoiar a Grécia ao próprio Euro, e chegam a pôr em causa as vantagens da integração europeia.
Isto pode parecer estranho num país que está perto de não ter desemprego e de recuperar o primeiro lugar aos chineses nas exportações.
Mas os alemães dizem que estão fartos: chega de subscrever a integração europeia, chega de pagar tudo e mais alguma coisa, e seguramente chega de resgates à Grécia.

Contudo, o que é verdadeiramente bizarro é a curta duração da memória colectiva da Alemanha.
Durante grande parte do século XX, a situação era radicalmente diferente: depois da Primeira Guerra Mundial e novamente após a Segunda Grande Guerra, a Alemanha tornou-se o país do mundo com maior dívida externa, e em ambos os casos a sua recuperação económica apenas foi possível com o perdão generalizado da dívida.

A crise da dívida alemã entre guerras começou há exactamente 80 anos, nos últimos dias de Junho de 1931.
O que a espoletou foram os empréstimos excessivos contraídos nos últimos anos da década de 20 para pagar indemnizações.
Uma bolha no crédito foi o resultado, e quando rebentou, em 1931, acabou com as indemnizações, o preço do ouro e, mais importante, a democracia de Weimar.

Os americanos adiaram o pagamento da dívida para depois da Segunda Grande Guerra, até terem imposto em 1953 aos seus aliados o acordo para a dívida de Londres, um exercício de perdão da dívida da Alemanha em termos bastante generosos.
O milagre económico da RFA, a estabilidade do marco alemão e a saúde das suas finanças públicas foram o resultado deste generoso perdão.
Mas colocou os credores da Alemanha em desvantagem, ao verem-se confrontados, eles próprios, com as consequências financeiras da ocupação alemã.

Na verdade, o acordo de dívida de Londres adiou a questão das indemnizações - incluindo o pagamento de dívidas de guerra e o dinheiro dos impostos nos países ocupados pela Alemanha durante a guerra - para uma conferência a ter lugar depois da reunificação.
Esta conferência não chegou a acontecer: desde 1990, os alemães teimosamente têm-se recusado a abrir esta caixa de Pandora.
As poucas indemnizações pagas, a maior parte a trabalhadores escravizados, foram canalizadas através de ONG's, sobretudo para não ser aberto um precedente.
Apenas um país se tem oposto abertamente a este procedimento, tendo tentado ser compensado através dos tribunais: a Grécia.

Terá sido ou não sensato ter deixado de parte a questão das compensações e indemnizações da Alemanha depois de 1990.
Nessa altura, os alemães argumentavam que qualquer pagamento plausível excederia os recursos do país, e que uma contínua cooperação financeira na Europa seria infinitamente mais desejada.
Poderiam ter alguma razão.
Mas agora é tempo da Alemanha cumprir a promessa, agir sabiamente e afastar o elefante da loja de porcelanas."


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