Um plano alvar
por FERNANDA CÂNCIO11 Novembro 2011

 

O Plano Estratégico dos Transportes foi ontem publicado no Diário da República. São 26 páginas que repetem os mesmos parágrafos três e quatro vezes e nas quais é notória a vocação propagandista que, em detrimento de concretização e de fundamentação estruturada das propostas, anima as intervenções do ministro da Economia. Aliás, a menção frequente a "opções erradas" e "investimentos duvidosos", à "situação económico-financeira a que o País foi conduzido" e "descontrolo e desgoverno das finanças públicas" faz crer que, em vez de uma estratégia para os transportes, é de um manifesto eleitoral que se trata - como se a prioridade deste Governo fosse diabolizar o anterior e não governar.

E isso é tanto mais preocupante quando 26 páginas não é muito para explanar a situação das várias empresas estatais que se pretende "sanear" e para apresentar as soluções que se preconizam para um sector que se admite estratégico e fundamental. Citam-se os passivos actuais e a dívida de cada empresa, assim como a estimativa da oferta, contabilizada em passageiros, e da procura efectiva. Atentando ao facto de a oferta ser muito superior à procura, parte-se para a ideia de "racionalização", que, nas propostas tornadas públicas do grupo nomeado para a operacionalizar, aponta para um corte brutal de serviços. Notória é a ausência de menção ao mercado potencial de cada transporte e à possibilidade de captação de mais clientes. Ou aos motivos que poderão levar as pessoas a não optar pelos transportes públicos, e cuja análise deveria ser primordial num plano que afirma caber ao Estado "uma correcta articulação entre as políticas de transporte e as políticas económicas, de ordenamento do território, energéticas, ambientais e sociais". Não: parece que o discurso da competitividade, tão caro ao ministro Álvaro Santos Pereira (que aliás insiste em articular "competividade", como articula "precaridade" e "empreendorismo"), só serve para justificar a entrega dos transportes públicos aos privados - porque, dogma intocável para este Governo, a gestão privada é sempre boa e a pública sempre má.

Há, é claro, nas empresas de transportes um problema grave de passivo e de dívida que é preciso encarar, e decerto existem, como aliás o Tribunal de Contas apontou em 2010, vários aspectos na respectiva gestão, da política de títulos e preços às chamadas "regalias" dos trabalhadores, que é preciso rectificar. Mas um plano que visa sobretudo ou mesmo só "despachar" as empresas para privados, sem sequer explicar em que condições (convindo citar exemplos de sucesso noutros países - a existirem, claro) e como isso se articulará com a necessidade de investimento em infra-estruturas, enverga a ineficiência congénita da gestão pública que é fetiche da sua visão liberalóide. Seria cómico se não fosse dramático - se não tivéssemos como ministro da Economia alguém que, na melhor tradição ditatorial, diz "é assim ou acabam-se os transportes públicos".



Publicado por Zurc às 14:51 de 13.11.11 | link do post | comentar |

2 comentários:
De Copy & paste e varreduras a 13 de Novembro de 2011 às 15:35
Lamentavelmente ou talvez não, as coisas as são o que são, parece que este blogue se tornou num simples copy e paste do que se vai escrevendo em outros blogues ou na comunicação social. Então não há quem escreva por mão própria e segundo os próprios pensamentos?
É pena que se tenha, assim tanto, desvirtuado quer as suas origens como o seu EDITORIAL. O LUMINARIA tem vindo a perder qualidade editorial, é pena!

Mas indo ao escrito de Fernanda Câncio, no DN a Resolução do Conselho de Ministros revela, entre outras, três coisas fundamentais:
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Lamentavelmente ou talvez não, as coisas as são o que são, parece que este blogue se tornou num simples copy e paste do que se vai escrevendo em outros blogues ou na comunicação social. Então não há quem escreva por mão própria e segundo os próprios pensamentos? <BR>É pena que se tenha, assim tanto, desvirtuado quer as suas origens como o seu EDITORIAL. O LUMINARIA tem vindo a perder qualidade editorial, é pena! <BR><BR>Mas indo ao escrito de Fernanda Câncio, no DN a Resolução do Conselho de Ministros revela, entre outras, três coisas fundamentais: <BR class=incorrect name="incorrect" <a>•A</A> primeira é que o referido documento é mais “ um manifesto eleitoral que se trata - como se a prioridade deste Governo fosse diabolizar o anterior e não governar” do que um sério projecto de restruturação do sector; <BR class=incorrect name="incorrect" <a>•A</A> segunda é a de que os políticos continuam a varrer para debaixo do tapete e a sacudir a água do capote das responsabilidades de má gestão política por parte dos dois partidos do arco governamental, que sempre se serviram das empresas de transportes, para campanhas eleitorais quer legislativas como das autarquias. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>•A</A> terceira, profundamente ideológica, é a de desmantelar, ainda que se argumente com a fusão de empresas, e posterior entrega à exploração de privados. Com o propósito gestionário que se pretende vir a implementar, a concessão publica, seria muito mais rentável e, garantido o serviço social, sem sustentar a gula dos lucros privados que os utentes e as compensações do Estado terão de suportar, então, a tempo e horas e com “língua de palmo” <BR>


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 13 de Novembro de 2011 às 15:33
Espanto para quê?
A Dona Fernanda até pode ter razão, na análise que faz no seu artigo sob este manifesto sobre os transportes públicos publicado recentemente no DR.
Mas o Álvaro, o dito ministro da economia, é um tecnocrata... Logo fala e age como tal.
A Dona Fernanda também anda nisto da escrita política vai para muito tempo para ficar «espantada» com o que um tecnocrata diz e faz.
Logo a Dona Fernanda possivelmente é uma hipócrita ou quanto muito uma pretensa manipuladora de opiniões, isto para não ser antipático...
E o que escreve, ou melhor a mameira como escreve o artigo, deixa logo para segundo plano a parte das razões que lhe assistem na análise feita, quando deveriam estar em primeiro plano se a senhora fosse mais limpinha na maneira de escrever. Mas isto é uma opinião somente.
Quero ainda chamar a atenção que a Itália se prepara, também ela, para nomear um tecnocrata para Primeiro Ministro.
Se os tecnocratas vão para o desempenho de cargos políticos, permito-me perguntar: para que servem, então, os políticos propriamente ditos?~
O u como diria o outro: E esta heim?


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