5 comentários:
De via Trágica vs contra-ataque às causas. a 22 de Novembro de 2011 às 16:23
Não resulta

O novo governo espanhol, eleito ontem, pede aos mercados que lhe concedam "ao menos meia hora" para dar início à austeridade (*) com que espera tornar o país mais competitivo, diminuindo as suas importações e aumentando as suas exportações.

Mas há um problema:
o principal destino para as exportações espanholas é a França, cujo governo quer importar menos.
E o terceiro destino das exportações espanholas é Portugal, cujo governo quer, além de "empobrecer o país", importar menos e exportar mais.
Ora, o primeiro destino das exportações portuguesas é Espanha, cujo governo quer importar menos e exportar mais.

Expliquem-me como é suposto que isto dê resultado.

Rui Tavares, Público de hoje
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(*)- apesar da receita austeritária do costume, e proposta agora por um governo de direita com maioria absoluta, os 'mercados' agiotas não se apiedaram e logo os juros dispararam ! (como urubus a atacar animal frágil).

Quando é que os governos e a UE percebem que a via de saída da crise não é o austeritarismo recessivo mas sim o contra-ataque aos 'mercados especuladores, aos bancos agiotas e aos criminosos que se acoitam nos paraísos fiscais...


De .Banqueiros vampirizam Estado... a 22 de Novembro de 2011 às 15:08
Algumas perguntas sobre bancos

Não percebo esta lógica de que o Estado tem de estar ao serviço das empresas financeiras e do seu lucro
[São José Almeida , Público.pt, 19-11-2011]

Podemos sempre considerar que a lógica é uma batata, mas, por mais absurda que ela possa parecer, gosto de tentar perceber a lógica das coisas.
E há situações perante as quais me sinto com necessidade de pedir que me expliquem como se fosse a uma criança.
Uma dessas situações de absoluta perplexidade foi-me provocada ao ler o destaque do PÚBLICO do passado sábado, onde a jornalista Cristina Ferreira apresentava um trabalho
sobre a pressão dos banqueiros portugueses para fazer cair a exigência do Governo para que haja regras no acesso ao financiamento através do fundo de recapitalização de 12 mil milhões de euros, incluso no empréstimo de 78 mil milhões de euros, que foi possibilitado pelo acordo com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.

Qual a lógica da argumentação usada no discurso do poder económico, até porque ela contém uma contradição de base que é a de defender que o Estado se deve retirar da economia e deixar a missão de gerar riqueza aos privados e ao mesmo tempo querer que o Estado salvaguarde o interesse e o lucro dos privados?
Não percebo, assim, esta lógica de que o Estado tem de estar ao serviço das empresas financeiras e do seu lucro.
A função do Estado não é a regulação de sociedade?
E, em democracia, esse papel do Estado não passa pela garantia de que todas as pessoas são tratadas com a mesma igualdade de oportunidades perante a lei?
Por que razão defender uma lógica de privilégio para o sector bancário?
Não percebo de facto qual a lógica que suporta esta atitude absolutamente arrogante por parte dos donos das empresas financeiras, os banqueiros portugueses e europeus, de que podem colocar os Estados da União Europeia ao seu serviço.

Mas esta questão suscitou-me outra dúvida.
Por que razão é que a primeira medida que a União Europeia aprovou na Cimeira de 27 de Outubro foi a criação de um fundo de recapitalização dos bancos privados?
É certo que esta medida foi explicado com o argumento de que é preciso que a banca tenha capacidade de financiar a economia e as empresas, mas este argumento levanta outra questão.
Por que é que o investimento para o crescimento da economia tem que ser feito pela banca privada?
Por que não pode ser feito pelos Estados?
Por que não pode o financiamento europeu, nomeadamente do BCE, ser dado aos Estados para que estes garantam o investimento?
Por que é que, de repente, por puro totalitarismo ideológico, apenas o investimento privado é bom?
Durante séculos - precisamente os séculos da construção da modernidade - não foi o investimento dos Estados que garantiu o desenvolvimento das economias e das sociedades?
E, já agora, se é mesmo verdade que apenas o investimento privado gera desenvolvimento, por que razão é que mais de uma década de protecção nos EUA e na UE à economia privada empurrou esta zona geopolítica para o buraco da crise?

Em Portugal este relacionamento entre o Estado e a banca é ainda mais complexo, por causa da história recente.
Após o 25 de Abril, um dos Governos de Vasco Gonçalves nacionalizou a banca, como forma de evitar a fuga de capitais e a absoluta descapitalização da economia.
Medidas de bom senso e de defesa do interesse das pessoas e da sociedade portuguesa, quando se olha de forma desapaixonada para a história e para a conjuntura então vivida, mas que a interpretação e a manipulação da propaganda política tem demonizado.

E mesmo com este ...


De Bancos Gangsters e Rentistas do Estado a 22 de Novembro de 2011 às 15:12
Algumas perguntas sobre bancos
...

E mesmo com este pano de fundo histórico, a verdade é que foi aplaudido que o Estado, através de uma medida do Governo de José Sócrates, privatizasse o BPN, em 2008, afastando o clima de pânico social que a falência poderia provocar.

Mas facto é também que, quando continua adiado o julgamento dos responsáveis pelos crimes que foram cometidos no BPN, é do domínio público que este caso custou já ao Estado mais de quatro mil milhões de euros,
quando, por exemplo, o imposto extraordinário que vai ser cobrado aos trabalhadores este Natal perfaz, quando muito, um quarto desta quantia, ou seja, mil milhões de euros.
E quando no Orçamento do Estado para 2012 está anunciado a inconstitucional tributação de dois salários, o 13.º e o 14.º mês, aos funcionários públicos.
Qual a lógica então desta transferência de riqueza das populações europeias para as empresas financeiras na UE?

Voltando ao fundo de recapitalização dos bancos portugueses:
será que não há mesmo outra forma de assegurar o investimento na sociedade?
E, já agora, por que é que a CGD não pode recorrer a esses empréstimos?
É por ser do Estado?
Por que é que este banco - porque a CGD é um banco - vai ficar em situação desigual?

Mais uma perplexidade:
por que razão é que os bancos portugueses estão a questionar as regras que o Governo quer impor à sua recapitalização com dinheiro emprestado pelas instituições europeias através do Estado português?
Não vivem eles mesmo de emprestar dinheiro e de cobrar juros?
Por que estão a questionar o facto de o terem de fazer dentro de prazos pré-estabelecidos, ou seja, de três ou cinco anos?
Por que será que os bancos querem rejeitar o direito de o Estado poder nomear um administrador e a participar na gestão de empresas, onde investe capital, se este dinheiro, que entrará nos bancos a titulo de empréstimo, não for pago de volta?
Não são estas as regras da própria banca quando empresta dinheiro às pessoas e estas não pagam?
Não é penhorando e tomando posse dos bens em causa?
Por que razão não pode o Estado fiscalizar a aplicação, a gestão e o retorno do dinheiro que empresta aos bancos?

Jornalista (sao.jose.almeida@publico.pt)


De Demissão da Esquerda e Crise a 22 de Novembro de 2011 às 14:26
2008 foi a oportunidade da esquerda. Demitiu-se e perdeu.
(-por Daniel Oliveira, Expresso Online, via Arrastão 22.11.2011)

Quando, em 2008, a crise financeira rebentou e ficámos a saber até onde nos tinha levado a desregulação dos mercados financeiros, que iniciou a sua longa marcha no final dos anos 70, parecia ter-se estabelecido um consenso:
a de que os Estados e as instituições internacionais em que estes estão integrados iriam voltar a assumir as suas obrigações.
Que não nos deixaríamos levar para o buraco.
Que as nossas vidas não voltariam a estar dependentes da ganância do casino.

De caminho, debatia-se - sobretudo nos Estados Unidos, mas esse debate também seria pertinente na Europa - a crescente DESIGUALDADE fiscal.

Em 1979, 1% dos americanos mais ricos detinha 9% da riqueza, em 2007 detinha 23,5%.
Entre 1949 e 1979, os 20% mais pobres aumentaram os seus rendimentos em 122% e os 20% mais ricos em 99%.
Entre 1980 e 2009, os mais pobres perderam 4% e os mais ricos ganharam 55%.

Esta crescente concentração de riqueza (não, o empobrecimento dos ocidentais não é geral nem resulta exclusivamente da abertura dos mercados às economias emergentes),
nos países desenvolvidos, deu a uma pequena elite uma extraordinária capacidade de pressão junto dos governos.
O que lhes garantiu políticas fiscais simpáticas e, assim, não contribuir para as contas públicas.
Estava na altura de ajudarem a pagar a factura e voltarmos a redistribuir a riqueza - seja através de salários, seja através de impostos.
Uma minoria vivia em cima das nossas possibilidades e isso deveria mudar.

Os bancos foram salvos com dinheiros públicos para, dizia-se, evitar o descalabro.
Mas esse resgate veio com a convicção generalizada de que alguma coisa ia mudar.
Não foi preciso esperar muito para que os mesmos que salvámos e que não tiveram de mudar um milímetro na sua forma de agir nos voltassem a bater à porta.

Os Estado e as famílias estavam endividados por anos de demissão fiscal dos mais ricos e de uma desigualdade na distribuição dos rendimentos da economia
(entre 1979 e 2007, a produtividade nos EUA cresceu 80% e os salários apenas 8%, enquanto, entre 1949 e 1979, a produtividade aumentou 119% e os salários 79%),
que teve de ser compensada pelos dinheiros públicos e pelo crédito.
Havia ali uma oportunidade de negócio e os bancos, descapitalizados pelos seus próprios erros, voltaram-se para as dívidas soberanas.
Era ali que estava o jogo onde poderiam ficar a ganhar.
Salvos pelos Estados, estava na altura de esmifrarem os Estados.

Uma gigantesca máquina de propaganda conseguiu convencer as pessoas de que eram elas, e não quem andava a brincar com o seu dinheiro, que viviam acima das suas possibilidades.
Que o Estado Social, que garantiu décadas de prosperidade e de desenvolvimento, era insustentável.
E que o deveríamos sacrificar para garantir a sustentabilidade dos grupos financeiros.
Que devíamos entregar a nossa segurança social aos fundos de pensões, para que eles possam jogar com ela.
Que deveríamos pôr as empresas do Estado, que prestam serviço público, no mercado.
Que deveríamos, tal como se fez com os mercados financeiros, desregulamentar o mercado de trabalho.
Que tínhamos de baixar salários, aumentando ainda mais a desigualdade que se agravou nos últimos trinta anos.
E que tínhamos de esmifrar o pouco que sobrava aos trabalhadores em impostos.

Ou seja: que a melhor forma de sairmos desta crise era repetir em doses cavalares o que nos trouxe até ela.
Porque o problema éramos nós.
E o Estado, com o seu Serviço Nacional de Saúde, as escolas públicas para todos, as reformas que recebemos, as leis laborais que nos protegem do abuso.
O Estado gordo e as nossas mordomias, portanto.

Onde esteve a esquerda nos últimos três anos? ...


De Descrença nos 'socialistas modernos'... a 22 de Novembro de 2011 às 14:31
2008 foi a oportunidade da esquerda. Demitiu-se e perdeu.
(por Daniel Oliveira)
...

Onde esteve a esquerda nos últimos três anos?
Aquela que tinha de ter aproveitado a oportunidade de 2008 para mudar a hegemonia do discurso?
Que tinha de impor mudanças radicais na relação dos Estados com a economia?
Que tinha de mudar esta construção de uma Europa que só tem harmonizado a destruição do contrato social que construímos no pós-guerra?

O centro-esquerda, no poder, limitou-se a aceitar o mal menor e nem se deu ao trabalho de contrariar com firmeza este embuste.
Incapaz de assumir a agressividade de uma direita cada vez menos envergonhada, incapaz de combater os verdadeiros interesses instalados, incapaz de assumir uma ruptura, foi cedendo.
Isto quando, como aconteceu na Grécia e em Portugal, não foram os socialistas a assinar os tratados de rendição.
Depois de três décadas de apatia e colaboração ativa na construção deste cenário dantesco, demitiu-se.

Em Espanha - como em Portugal e na maioria dos países europeus - o centro-esquerda foi corrido do governo.
O PSOE perde, em relação a 2008, 4,3 milhões de votos, mas o PP só ganha 550 mil.
Os votos socialistas foram para a ABSTENÇÃO (que, no entanto, só subiu 2%) e, mais ainda, para OUTROS partidos (PSOE e PP tinham 83% dos votos e passaram para 73%).
A coragem de Zapatero para atacar tabus culturais e religiosos foi positiva.
Mas esse era o combate contra uma velha Espanha em decadência.
Faltou-lhe o mesmo arrojo na economia.
Porque aí, do lado contrário, está o poder a sério.
Que compra políticos ou os faz cair.

É verdade que o governo socialista espanhol é o 10º a cair na Europa.
Mas tem sido a direita a ganhar no deve e haver eleitoral.
E, se, há três anos, me dissessem que a direita seria quem iria tomar as rédeas do poder na Europa para nos fazer "sair da crise" e que teríamos homens da Goldman Sachs espalhados por governos e instituições europeias, diria que se tratava de excesso de pessimismo.
Mas assim aconteceu.
E nesta tragédia, socialistas e social-democratas europeus têm fortíssimas responsabilidades.
Como se vê em Espanha, o eleitorado de esquerda não passou para o lado de lá.
Apenas deixou de acreditar nos socialistas.
E, lá e cá, quem os pode condenar?


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