De .Em q.mundo vivem os governantes?! a 29 de Novembro de 2011 às 10:40
[carta aos)
Srs. Governantes de Portugal,
Sou uma Técnica Administrativa de uma empresa pública de transportes da área metropolitana de Lisboa (que está prestes a ser destruída), sou possivelmente uma candidata séria ao desemprego pois aquilo que está previsto para esta área é bastante preocupante.
Aufiro um vencimento que ronda os 1100? (líquido), tenho 36 anos e 'visto a camisola' da minha empresa desde os 19 anos.
Tenho o 12º ano de escolaridade porque na época em que estudava os meus pais, que queriam o melhor para mim, não tinham possibilidade de me pagar uma universidade, por isso tive de ingressar cedo no mercado de trabalho, investi na minha formação e tirei alguns cursos para evoluir e continuo a ambicionar tirar um curso superior.
Pensava efectuar provas no próximo ano para tentar ingressar numa universidade pública, faria um sacrifício para pagar as propinas (talvez com o dinheiro que recebesse do IRS conseguisse pagá-las) mas realizaria um sonho antigo.
Comprei casa há uns anos (cerca de 7 anos) consciente de que conseguia pagar a dívida que estava a contrair, nessa altura era possível e de acordo com a lógica de evolução das coisas a minha vida melhoraria gradualmente (este era o meu pensamento e julgo que partilhado pela maioria dos portugueses).
Não vivo nem nunca vivi acima das minhas possibilidades.
Tenho um carro de 1996 porque sou contra o endividamento e achei sempre que não podia dar-me ao luxo de ter um carro melhor.
Confesso que já me custa conduzir aquela lata velha mas peço todos os dias para que não me deixe ficar mal, esse carro foi comprado a pronto, custou-me cerca de 1.000? que paguei com um subsídio de férias ou de Natal, direito alienável de qualquer trabalhador.
Esses subsídios permitem-me pagar o condomínio, os seguros de carro e casa, o IMI ou outras despesas extra com as quais não estou a contar (como por exemplo a oficina quando a lata velha resolve avariar).
Até hoje paguei sempre as minhas contas a tempo e horas.
Tenho um cartão de crédito que a banca me ofereceu mas que nunca utilizo porque sou consciente dos juros exorbitantes que são cobrados e tenho exemplos de que não se deve gastar o que não se tem.
Não pago qualquer prestação para além da casa, se não tiver dinheiro não efectuo a compra.

Isto tudo para dizer que não devo nem nunca devi nada a ninguém.
Pago todos os meus impostos, portagens, saúde, alimentação, água, luz, gás, gasolina, etc.
Não tenho filhos e hoje dou graças a Deus porque não sei em que condições viveriam se os tivesse.
Esta pequena introdução sobre a história da minha vida que acho que não interessa a ninguém mas apenas a mim, serve para que percebam a minha realidade que certamente é a realidade de milhares de portugueses, haverá uns em situação muito pior e alguns em situação bem melhor.
Mas posso servir bem, como um pequeno exemplo ilustrativo, para aqueles que governam um país que por acaso tem pessoas, algo que me parece muitas vezes ser esquecido.
É esta a minha forma de demonstrar a minha indignação perante alguns comentários efectuados por alguns de vós e tendo em conta a actual situação do nosso país aproveitando também para lhes pedir alguns esclarecimentos.

Eu já ouvi o Primeiro-Ministro português dizer que não sente que tem de pedir desculpas aos portugueses pelo défice e pela dívida mas pergunto, Sr. Primeiro-Ministro, sou eu que tenho de pedir desculpas por um Orçamento de Estado herdado do Governo anterior que sem a sua ajuda não teria sido aprovado ou já se esqueceu desse pormenor?

Desde essa altura, portanto, desde o início deste ano, que vejo o meu vencimento reduzido em 5% e que contribuo mais que os outros portugueses para o equilíbrio das contas públicas e para o défice.
Sim, porque ao que me parece eu e todos os funcionários públicos que têm o azar de trabalhar para o Estado ou na máquina do mesmo, são mais portugueses do que os outros.
Não sei se eles se contentariam em receber uma medalha, pela parte que me toca dispenso essa honra pois isso contribuiria para o agravamento da despesa, por isso não se incomodem, prefiro que poupem esse dinheiro e me continuem a pagar os subsídios a que tenho direito.
Direito, Estado de Direito? ...


De Carta de uma trabalhadora aos governante a 29 de Novembro de 2011 às 10:47
Srs. Governantes de Portugal,
...
Direito, Estado de Direito?
Neste momento e em Portugal não consigo descortinar o que isso é, até porque a legislação e Constituição têm sido ajustadas à medida, de acordo com os interesses em vigor, pois se assim não fosse teria sido inconstitucional a redução do meu salário bem como seria impossível cortarem-me o subsídio de Natal e de férias nos próximos dois anos.
Peço que me esclareçam também nestes pontos pois existem muitas coisas que não estou a perceber, acredite que não sou assim tão ignorante.
Outra coisa que me faz alguma confusão é ouvi-lo dizer que o Orçamento é seu mas o défice não?
Pergunto Sr. Primeiro-Ministro, o défice é meu?
O défice é dos trabalhadores portugueses mas não é seu?
O Senhor porventura não é português?
Não contribuiu em nada para a situação em que nos encontramos?
Há qualquer coisa aqui que não bate certo.

Agora aquilo que mais me transtorna é pedirem ainda mais sacrifícios ao povo português e terem a ousadia de dizer que (sobretudo) o povo vive acima das suas possibilidades.
Como já tive oportunidade de demonstrar a minha realidade, acho que não preciso voltar a explicar a minha forma de viver e a 'ginástica' que tenho de fazer com o meu vencimento para conseguir pagar as minhas contas e ainda assim sobreviver.
Nem consigo imaginar como farão famílias inteiras que apenas recebem o ordenado mínimo nacional, é para mim um exercício difícil, apenas me posso compadecer pela situação miserável em que devem estar a viver e dar-lhes também voz nesta minha missiva.

Por isso posso garantir que pela parte que me toca não vivo acima das minhas possibilidades mas certamente que (partes d)o Estado português e as empresas públicas estão a viver acima das possibilidades de todos os trabalhadores portugueses.
Apesar de relativamente a este assunto ainda não o ter ouvido dizer que ia haver cortes ou os poucos que referiu ainda não me conseguiram convencer?
Dou-lhe alguns exemplos práticos para que perceba e qualquer leigo no assunto também?

Vou referir-me a todos os que ocupam cargos relevantes na nossa sociedade - são eles os Administradores de empresas, os Directores, os Autarcas, os Deputados, Ministros, Assessores, Vogais, etc.
Todos eles e vocês auferem vencimentos superiores ao meu e ao da maioria dos trabalhadores. Vamos supor que ganham entre os 2.000€ e os 10.000€ mensais - sabemos bem que estas contas não são as reais e que os valores são bem superiores nalguns casos, mas para demonstrar o que pretendo podemos usar estes valores como base.

Tudo o que vou descrever abaixo é a realidade do meu país e da vossa má gestão enquanto Governo.
Não vos dei o meu voto nem a todos os que passaram por aí desde o 25 de Abril de 1975.
Apesar de concordar com os princípios básicos da Democracia há muito que deixei de acreditar que vivo numa.
Isto não é Democracia, em Democracia também se ouve o povo, em Democracia os órgãos de Comunicação Social não manipulam a opinião pública nem são marionetas do Governo.

Acredito mesmo assim que a maioria daqueles que votaram e vos deram a vitória nestas eleições acreditavam de facto numa mudança mas mais uma vez mudaram apenas as moscas e rodaram as cadeiras.
Por tudo isto agradeço que descontem tudo o que descrevo em baixo dos meus impostos porque isto, meus senhores, nem eu nem os trabalhadores portugueses temos possibilidades de pagar!

Esclareçam-me ...


Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres