Para os falantes de inglês, pois infelizmente sem legendas, uma interessante entrevista no HARDtalk da BBC com
Steve Keen, economista pós-
keynesiano australiano que é autor de uma
devastadora crítica dos fundamentos epistemológicos e metodológicos
da economia neoclássica no livro
Debunking Economics.
Keen, que enjeita afirmar-se anti-capitalista, dá ainda assim uma
rara demonstração de lucidez no espaço mediático ao referir-se às
origens sistémicas da crise actual, nas suas diversas manifestações; ao estado da economia como ciência; à
relação entre a crise do endividamento soberano e o aumento exponencial do endividamento privado (só faltando assinalar a relação
com a compressão neoliberal dos salários directos e indirectos); e à necessidade de proceder à
eutanásia dos sectores e interesses rentistas que, se não forem detidos, irão inevitavelmente condenar as nossas sociedades a um prolongado período
de pauperização.
Keen
advoga a eliminação de uma parte substancial de toda a dívida, pública e privada,
e a nacionalização da banca - e é sintomático que até um crítico relativamente tépido do capitalismo perceba a absoluta necessidade de que assim seja,
como única alternativa à barbárie parasitária. A conversa perde-se um pouco na parte relativa aos detalhes de como implementar este plano - Keen sugere que
a via deverá passar pelo financiamento monetário de défices públicos crescentes (precisamente o contrário do que, no contexto europeu, é actualmente imposto pelos
estatutos do BCE no plano monetário e em vias de consagração constitucional nacional no plano orçamental), mas depois perde-se por alguns instantes perante a incompreensão da entrevistadora. Em todo o caso, bastantes
elementos interessantes para animar a reflexão, o debate e o optimismo, nestes tempos em que ainda vão escasseando os motivos para tal. Depois de ontem ter visto a
reportagem Contracorrente, na SIC, sobre os movimentos sociais anti-austeritários em Portugal, e da
Convenção da Iniciativa de Auditoria à Dívida no fim-de-semana, a vontade fica um pouco mais optimista.
(-por Alexandre Abreu)
José Castro Caldas, economista, é um dos proponentes da Iniciativa para uma
Auditoria Cidadã à Dívida Pública, para "proporcionar à generalidade das pessoas
a compreensão do fenómeno do endividamento" do Estadoportuguês.
Joana Manuel, actriz, juntou-se ao Movimento 12 de Março porque acredita que cada pessoa não pode tratar apenas da sua "vidinha" e é preciso "fazer de cada cidadão um político".
Ana Gonçalves, professora de artes do 3º ciclo e secundário, envolveu-se na Plataforma 15 de Outubro porque não quer ter razão sozinha.
Marco Marques, engenheiro florestal à procura de emprego, está nos Precários Inflexíveis porque acredita que "só colectivamente podemos mudar alguma coisa no futuro".
Miguel Marques, "infoactivista", foi à Islândia no Verão passado fazer um documentário que pretende mostrar como os cidadãos daquele país se mobilizaram para enfrentar a crise.
Bruno Lavos, terapeuta expressivo, faz parte do Movimento Ocupar Lisboa e dormiu quase 2 meses ao relento frente ao Parlamento porque "algo tem de mudar".
A próxima Grande Reportagem SIC procura tomar o pulso à vitalidade dos movimentos sociais, num ano fértil em mobilização e protesto em Portugal, e saber quem são as pessoas nesses novos movimentos, o que as mobiliza e que propostas têm para a mudança que defendem.
Ficha técnica
Jornalista: Carla Castelo, Imagem: José Silva, Edição de Imagem: Vanda Paixão, Grafismo: Isabel Cruz, Produção: Isabel Mendonça, Coordenação: Cândida Pinto, Direcção: Alcides Vieira