Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

O euro e a "vida fácil" , (-por Daniel Oliveira, Expresso online)

 O Presidente da República disse uma mentira e uma verdade. Disse que os portugueses beneficiaram do euro e tiveram uma "vida fácil". É falso. E que negligenciámos a produção de bens transacionáveis. É verdade.
    A primeira mentira resulta da inversão entre causa e consequência. Vamos partir do princípio que a acusação de "vida fácil" não é dirigida a maioria dos portugueses. Se for o caso, o Presidente não vive no mesmo País que eu.
 Vamos então dar o beneficio da dúvida e achar que se refere à nossa economia. Não é verdade que a nossa economia tenha beneficiado com o euro. Pelo contrário, todos os dados económicos (é ver a balança comercial e a dívida externa a partir de 2000) demonstram o oposto: com uma moeda forte as importações foram facilitadas. Mas exportar tornou-se extraordinariamente difícil. Essa dificuldade começou, aliás, um pouco antes: com a convergência com o marco, que começou depois de Maastricht e antecedeu a adesão à nova moeda.
 Resultado: o País perdeu liquidez e endividou-se no exterior.
    A aposta em bens não transacionáveis, em serviços e na distribuição de produtos importados não resulta de uma negligência dos "portugueses". As privatizações de empresas de serviços, que canalizaram enormes investimentos privados, terão ajudado à subversão das prioridades. Mas a principal razão é a que já referi: com uma moeda forte e tendo perdido um dos argumentos competitivos que as economias fracas têm, os empresários procuraram outros negócios. Se exportar é caro e importar é barato, a escolha fica fácil. Importa-se em vez de se produzir. Por cá, dedicamo-nos ao que está, apesar de tudo, menos exposto à concorrência externa, por depender mais da proximidade.
    A verdade é esta: o euro foi mau para a nossa economia porque inverteu todas as prioridades. A "negligência" a que se referiu o Presidente resultou de escolhas empresariais racionais. E essas escolhas resultaram de uma adesão ao euro mal preparada e mal negociada.
    Os únicos portugueses que viram a sua vida facilitada foram os que viajam para o estrangeiro e os que importam bens e serviços. Não foram uns malandros sem escrúpulos. Apenas fizeram o lógico. Ficaram a perder os exportadores e os que, produzindo para o mercado nacional, deixaram de conseguir competir com produtos importados. Mesmo as nossas empresas que se internacionalizaram fizeram-no sem incorporar produtos ou mão de obra nacional. Ou seja, sem grande vantagem para a nossa economia. Em alguns casos, como o da EDP, com desvantagens óbvias.
    Sim, foram cometidos erros por parte dos sucessivos governos:
- a aposta quase exclusiva nas obras públicas (mais protegida da competição externa) e nos serviços;
- as privatizações feitas sem critérios de interesse nacional;
- a multiplicação de grandes superfícies que centralizaram a distribuição e esmagaram os produtores;ou
- o desinvestimento (apoiado pelo Europa) na indústria, na agricultura e nas pescas.Tudo foi feito para consumirmos importado em vez de produzirmos para exportar. Esses erros não resultam da nossa adesão ao euro. São anteriores. O euro apenas os acentuou. E neles, o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva deu o mote para os que lhe seguiram.
    O problema do discurso moralista sobre os portugueses e infantil sobre a economia que agora está em voga - "vida fácil", "viver a cima das nossas possibilidades" ou "viver com o que se tem" - é que não tem qualquer rigor económico.
 Vende uma narrativa para impor sacrifícios aos que nunca viveram com desafogo. Desta narrativa resultam falsos culpados e falsos inocentes. Os culpados são "os portugueses", que, apesar de viverem no País mais desigual da Europa, são tratados como uma massa uniforme de privilegiados e gastadores. Os inocentes são os sucessivos governantes, onde está seguramente incluído o homem que governou na nossa primeira década europeia.


Publicado por Xa2 às 07:37 | link do post | comentar

1 comentário:
De Desmontagens a 25 de Dezembro de 2011 às 23:48
Pela lógica do artigo, facilmente concluiríamos que a Dinamarca, a Holanda, a Finlândia, a França, a Alemanha, estariam com imensas dificuldades, pois com o euro forte não conseguiriam exportar e ao invés, importavam bastante, prejudicando a sua balança de transações, empobrecendo o país.
Já, países, como o Bangladesh, as Filipinas, a Indonésia, ou aqui mais próximo como a Argélia, Marrocos, Tunísia, etc. estariam com uma qualidade de vida brutal, pois com uma moeda fraca, exportavam bastante e importavam pouco.
Será assim?

Outra falácia. A CEE veio destruir a pesca e a agricultura: Nada mais falso. A Espanha, A Grécia, a Itália, que também receberam subsídios para a agricultura e pescas, não só desenvolveram estas nos seus países, como no caso espanhol, desenvolveram também em Portugal, como é o caso atual da olivicultura, em que finalmente, graças aos investimentos espanhóis conseguimos ser auto-suficientes


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