Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Os trabalhadores são os únicos patriotas deste País , (-por Daniel Oliveira)

   O Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa está, como quase todos os centros de investigação, sem dinheiro. Os cortes cegos do ministro Crato, que tanta gente parece elogiar, foi a gota de água num copo cheio de problemas antigos e começa a fazer-se sentir no mais básico dos básicos. Resultado: o sofisticado sistema de refrigeração do edifício do ITQB, fundamental para o funcionamento das máquinas ali utilizadas, não podia ser renovado depois de uma avaria dos chillers. Se nada se fizesse perder-se-iam centenas de milhares de euros em equipamento e o trabalho científico ficaria paralisado.   
    Para resolver o problema o diretor da instituição fez um apelo pouco usual aos trabalhadores: que os funcionários doassem dinheiro, tendo mesmo sugerido, talvez meio a brincar, que prescindissem da metade que restava seu subsidio de Natal e o entregassem para pagar uma despesa de manutenção que cabe ao Estado. É também para este trabalho, fundamental para o nosso desenvolvimento, e não para o BPN e para cobrir benefícios fiscais à banca, que pagamos impostos. Apesar de não serem obrigados a faze-lo, 342 doadores (na sua maioria trabalhadores, colaboradores e bolseiros) entregaram 69 mil euros ao ITQB. As funcionárias responsáveis pela lavagem de material e equipamento, que não tinham folga para isso, fizeram rifas e conseguiram mil euros.
    Sobre este assunto, quero apenas dizer duas coisas:
    1-  Não é suportável para quem trabalha continuar, para além de todos os sacrifícios que já lhes são exigidos, a retirar o pouco que lhes sobra para poderem continuar a trabalhar.
Não é justo que sejam os investigadores a pagar aquilo de que todos beneficiamos.
Não é justo que trabalhar já seja visto como um privilégio pelo qual temos de pagar.
Não é saudável que os trabalhadores deem parte do seu salário, mesmo que voluntariamente, até porque nunca saberemos como será a reação do empregador quando disseram que já não podem dar mais.
Não é assim que as coisas devem funcionar.
    2-  Seja como for, este é mais um exemplo para mostrar quem, neste País, está disposto a tudo para nos tirar da crise.
Não é a banca, que não hesita a despachar os seus fundos de pensões para o Estado e, depois disso, a receber em troca créditos fiscais, pagando ainda menos impostos do que paga.
Não são as grandes empresas nacionais, como a EDP, que apesar de lucros brutais carrega, ano a após ano, ainda mais a nossa factura energética, obrigando-nos a pagar a eletricidade mais cara da Europa. Ou como a PT, que muda a data de distribuição de dividendos para não pagar impostos.
Não é o governo, que no País mais desigual da Europa exige sacrifícios aos que já não têm folga e continua a encher o Estado de boys sem currículo.     
   Os únicos patriotas são os trabalhadores, os desempregados e os reformados. Os únicos com amor suficiente ao que fazem para oferecer o que lhes pertence para tentar salvar o futuro de Portugal.
    Num tempo em que os portugueses se dedicam à autoflagelação ou que são diariamente insultados na televisão - como se tivessem tido, nos últimos anos, uma "vida fácil" -, vale a pena recordar
Que não é por causa dos trabalhadores portugueses que temos problemas de produtividade.
Que não é por causa do contribuinte (trabalhador por conta de outrem) que estamos endividados.
Que não é por causa de nós que a nossa economia é ineficiente.
Que não é por causa dos funcionários públicos que o Estado funciona mal.
Que não é por causa dos professores que a Escola Pública está aquém do que podia ser.
Que não é por causa dos médicos e enfermeiros que o Serviço Nacional de Saúde tem problemas de gestão financeira.
Que não é por causa dos investigadores que não somos competitivos.
     Os trabalhadores do ITQB mostraram mais uma vez que os trabalhadores que temos não merecem as elites que os comandam.
             [Publicado no Expresso Online]


Publicado por Xa2 às 19:15 | link do post | comentar

2 comentários:
De Izanagi a 5 de Janeiro de 2012 às 00:24
Correções:
Não há Fundo de Pensões da Banca, mas dos bancários (as pessoas coletivas não têm pensões).
Não são totalmente verdade as seguintes afirmações:
"Que não é por causa de nós que a nossa economia é ineficiente."
Somos responsáveis pelos governos que elegemos, logo somos responsáveis pelo estado da economia.
“Que não é por causa dos professores que a Escola Pública está aquém do que podia ser.
Que não é por causa dos médicos e enfermeiros que o Serviço Nacional de Saúde tem problemas de gestão financeira.
Que não é por causa dos investigadores que não somos competitivos"
Também estas afirmações não correspondem á realidade.
A escola está mal, não só mas também por causa de professores incompetentes;
O SNS tem problemas financeiros essencialmente pelo desperdício e má gestão dos meios quer por médicos, quer por outros profissionais de saúde;
Finalmente, numa economia aberta como a atual, a diferença faz-se pela inovação e inovação que possa produzir retorno do investimento, é coisa que os nossos cientistas não apresentam.
E esconder a realidade não ajuda.


De pois pois.... a 12 de Março de 2015 às 01:15
Curioso.... Nao sei porque e' que o director do ITQB (em 2012) se veio queixar (para os jornais) de falta de dinheiro se o proprio director tomou decisoes que contribuiram para essa mesma reducao do financiamento do ITQB. Se houve falta de dinheiro para o referido equipamento, em grande parte o referido director e' responsavel pela ausencia desse mesmo (ou grande parte desse) dinheiro em falta.


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