De .Cidadão do Mundo. a 1 de Fevereiro de 2012 às 15:24

RACISMO e PATRIOTISMO : modos de usar
(-por Daniel Oliveira, 1.2.2012, Arrastão e Expresso Online)
...

Quando escrevo sobre o comportamento irresponsável do governo alemão nesta crise europeia e a sua aparente falta de memória sobre as condições que permitiram mais de meio século de paz na Europa há sempre alguém que me acusa de chauvinismo.
Geralmente, as mesmas pessoas que fazem generalizações depreciativas sobre os gregos ou os portugueses.

Apesar da dificuldade em ser, ao mesmo tempo, antissemita e anti-germanófilo, capacho dos americanos e anti-americano, politicamente correto e racista, ateu e islamista, quero ver se consigo, de uma vez por todas, pôr um ponto final nesta forma de debater.

Não tenho nada contra nenhum povo, cultura ou religião. Nem a favor.
Os povos são a sua história (cheia de contradições) e as suas circunstâncias. Não são homogéneos.
Não há uma cultura ocidental, não há uma rua árabe, não há um sonho americano, não há um sentimento judeu, não há um racismo alemão, não há um atraso africano e por aí adiante.
As sociedades são, todas elas, conflituais e contraditórias. Cabem nelas muitos povos, muitas culturas e muitos confrontos.

As criticas que faço ou são a governos concretos, que determinam políticas de Estados, ou a hegemonias que, em determinado momento, dominam o sentir maioritário de um povo.
Não acho que o expansionismo ou o trabalho estejam inscritos no DNA dos alemães.
Não acho que os judeus sejam vilões ou heróis para todo o sempre.
Não acho que os povos do sul da Europa sejam vítimas das potências europeias ou incorrigíveis preguiçosos.
Assim como não acho que os portugueses sejam especialmente tolerantes ou especialmente desorganizados.
Resumindo:
não acho que aqueles que hoje são vítimas das circunstâncias não passem a ser, se para isso tiverem oportunidade, os piores dos carrascos das desgraças alheias. E vice-versa.

Os debates sobre a natureza dos povos (que às vezes até se socorrem de argumentos biológicos, climáticos ou de outra qualquer patranha) ou a superioridade ou inferioridade das suas culturas não me dizem nada.
Não dou para esse peditório.

E é por ser profundamente antirracista que critico, sem pedir desculpas, o Estado de Israel.
E é por não achar nada sobre "os americanos" que não tenho de fazer introitos idiotas sobre o seu magnifico cinema para criticar o seu comportamento imperial.
E é por não gostar deste jogo de espelhos que critico a ditadura castrista sem ter de gastar dez parágrafos a falar do estúpido embargo americano.
E é por assumir que sempre fui coerentemente anticolonialista, e por isso inconfundível com quinhentos anos de exploração, que não meço palavras para falar do regime cleptocrático que governa Angola.

E é por ser um cidadão do Mundo que nenhum argumento em defesa de soberanias nacionais alguma vez me impedirá de criticar qualquer ofensa aos direitos humanos por parte de qualquer Estado.

E é por ser europeísta que responsabilizo o governo alemão (este, com rostos e nomes) pela desgraça de um projeto que tinha de ser democrático e incluir todos os povos.

Estou, isso posso garantir, cada vez mais cansado da desonestidade intelectual de tantos debates, que nos querem obrigar a ignorar as nossas convicções pelo medo de estereótipos e chantagens.

Sim, estou zangado com Alemanha. Com o seu Estado e com o seu governo.
E isto não muda um milímetro do que penso dos alemães:
gosto muito de uns, não gosto nada de outros e a maioria deles nem conheço.
Passa-se, aliás, exatamente o mesmo com os portugueses.
E se nunca me faltaram críticas aos mitos lusotropicalistas, que nos vendem uma falsa tolerância histórica do colonialismo português, ou ao patrioteirismo vazio com que tantos políticos adoram pavonear-se, também desprezo esta autoflagelação nacional que uma certa elite gosta de vender para continuar a ver o povo de cabeça baixa.
Talvez seja reação, mas por estes tempos sou mesmo um patriota.
Como sempre, tudo depende das circunstâncias.


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