Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Não seja piegas :  quanto é que o velho dura ?   (-por Daniel Oliveira )

     Enquanto se espera que os contornos da negociação com a Grécia fiquem mais claros, vale a pena espreitar aquilo a que se dedicam os respeitáveis mercados financeiros.  O Deutsche Bank, sempre empreendedor, tem uma nova oportunidade de negócio para os seus clientes: o db Kompass Life 3. Trata-se, no fundo, de um jogo de apostas com apólices de seguro. Se o reformado morre mais cedo, ganha o investidor. Se vive mais tempo, fica a ganhar o banco. Para o jogo de apostas ser realmente emocionante os segurados têm entre 70 e 90 anos.
     Quando os investidores perceberam os contornos deste produto, sentiram-se ultrajados. É que as tabelas de longevidade não são atualizadas e ainda ninguém recebeu um chavo. Os velhos não há maneira de morrerem. Um escândalo! Foi apresentada uma queixa. A provedoria da banca alemã, talvez distraída em relação às suas funções, concentrou-se noutro tema: achou este negócio "um macabro jogo de contas". Um advogado que representa trinta investidores neste fundo aproveitou a deixa para que os seus clientes recebam de volta o dinheiro que ali não rende: o fundo "é contrário aos bons costumes e, portanto, nulo". Tivesse o retorno esperado e quer-me cá parecer que os costumes destes investidores aguentavam bem todas as contrariedades.
     Claro que na Alemanha e fora dela este negócio está a causar grande indignação. Mas o que julgam que andam a fazer 'os mercados' nos últimos anos? Apostas de vida ou de morte. Primeiro foi com empresas e Estados. Agora com pessoas. Este mórbido jogo até é pedagógico. Fica muito mais claro o ambiente moral em que se move este casino. E o que são exatamente os "mercados financeiros", sobre os quais continuamos a falar cheios de imperativos éticos de bons pagadores. Os mercados não são ninguém. São a ganância à solta. Não sejam piegas. Deixem o mercado funcionar sem entraves. A começar pelos velhos americanos, que, seguramente por serem inimigos da livre inicativa, teimam em não morrer.
     Se as maiores empresas alemãs, incluindo o Deutsche Bank, ganharam tanto com o trabalho escravo nos campos de concentração nazis, imaginem o que podiam ter ganho com estas estimulantes apostas. Como dizia o imperador Vespasiano, o dinheiro não tem cheiro. E quem defende a liberdade absoluta do capitalismo financeiro não deve sentir nojo de nada. Deixem que seja a ganância do mercado a determinar a política dos Estados e verão como ainda seremos capazes de grandes feitos.


Publicado por Xa2 às 13:35 | link do post | comentar

4 comentários:
De 'Cartel' financeiro e 'reguladores distr a 10 de Fevereiro de 2012 às 15:00
Os "mercados financeiros"

Com toda a turbulência em torno da crise do euro, as notícias acerca da MANIPULAÇÂO das taxas de juro inter-bancárias de referência têm passado por debaixo do radar.
Estas taxas (Euribor, Libor, Tibor, etc...) são referência para um conjunto imenso de activos financeiros. No caso da Libor (a taxa britânica) estima-se que 350 biliões de dólares de activos estejam indexados. As famílias portuguesas também conhecem esta realidade pois os seus empréstimos à habitação estão normalmente indexados à Euribor.

Estas taxas são calculadas através de uma média ponderada do que é reportado pelos principais bancos de cada praça financeira.
Ora, aparentemente, seis GRANDES BANCOS(UBS, JPMorgan,Citigroup, Barclays, Deustche Bank, RBS e ICAP) articularam-se para MANIPULAR os valores de referência em SEU PROVEITO.

Dois aspectos impressionam nesta história. O primeiro está na forma como uma mão-cheia de instituições consegue manipular os preços, mostrando assim como a ideia de mercados COMPETITIVOS não passa de uma FICÇÂO dos manuais de economia.
O segundo diz respeito ao facto destas operações, algumas delas de 2008, terem passado ao lado dos REGULADORES públicos.

Não tivesse havido uma denúncia e nada se descobriria.

(-por Nuno Teles , Ladrões de B.)


De 'Mercados' e UE: « Ponham-se finos ! » a 10 de Fevereiro de 2012 às 15:13
Não há alternativa

Em Janeiro de 2011, o Jorge Bateira fez aqui umas contas sobre a BOLA de NEVE da DÍVIDA pública portuguesa e chegou à conclusão que “a ‘ajuda’ da UE/FMI não trava a dinâmica da dívida em que estamos lançados (…) no actual quadro institucional, o Estado Português já é INSOLVENTE.”

Passado um ano, a dívida pública portuguesa atinge os 110% do PIB (68,9% em 2008), graças sobretudo às múltiplas crises e à incapacidade europeia em lhes dar outra resposta que não seja uma austeridade contraproducente.
Nada de garantir, por exemplo,
financiamento a taxas de juro idênticas às que são garantidas aos bancos pela acção de um verdadeiro Banco Central,
emissão de euro-obrigações e reforço do BEI (hoje o Banco de Inglaterra 'criou e injectou' + 50.000 Milhões na economia, mas o BCE nada !!), passos para uma recuperação económica, condição necessária para diminuir o fardo da dívida.

Sabemos a resposta à questão que se pode colocar neste contexto:
por que é que o governo não usa a dívida e a sua inevitável REESTRUTURAÇÂO, desde já, como arma NEGOCIAL em Bruxelas?

Até porque Merkozy, falando na Grécia, afirmou que “deixar que um país com 9 milhões de pessoas entre em BANCARROTA não é uma opção”, o que só que dizer que o centro não tem interesse num INCUMPRIMENTO.
Expulsar alguém do euro nem se fala.
Está tudo demasiado interligado pela finança. Por isso, as ameaças do centro parecem pouco credíveis. Surge logo outra questão:
quando é que um país será capaz de dizer (aos mercados/agências/bancos, à troika e à UE/BCE): «ponham-se finos !» ?

(-por João Rodrigues , Ladrões)


De Prioridades ... e alvos a 10 de Fevereiro de 2012 às 15:26
Prioridades

Enquanto se aguarda o acordo grego a mais uma ronda de crueldade social - descida de 20% do salário mínimo, redução de 15% de complementos de pensão, despedimento de 150 mil funcionários públicos até 2014, etc-,

o duo Merkozy arranjou forma de prevenir um incumprimento da Grécia, que afectaria o sistema financeiro europeu, sem aligeirar a pressão.

Aparentemente, a troika irá disponibilizar os fundos necessários ao pagamento dos credores gregos directamente, sem interferência de Atenas.

Os restantes fundos, que cobrem o défice orçamental e, portanto, pagam salários, pensões, saúde e educação, ficarão cativos até que o governo grego ceda às condições impostas.

Ou somos todos gregos hoje, ou ver-nos-emos gregos amanhã.
(vamos já aprender a dançar «sirtaki»... e a acertar no alvo...)

(-por NunoTeles, Ladrões)


De .calado Portugal segue Grécia... a 10 de Fevereiro de 2012 às 15:34
Nos passos da Grécia


Com eleições dentro de dois meses, os partidos que apoiam o governo grego estão encurralados.
Para evitar a bancarrota já em Março, aceitam as condições que lhes são impostas.
Mas sabem que o acordo é rejeitado pela população e que serão penalizados nas eleições.
As sondagens apontam para uma pesadíssima derrota dos socialistas e uma vitória magra da direita.

Porém, falta saber até que ponto a fúria dos eleitores é (ou não) canalizada para uma votação nos partidos da esquerda do protesto a um nível tal que ponha em causa a estabilidade do apoio parlamentar de que o novo governo precisa.

Em breve os gregos vão ter a última palavra:
suportam o aprofundamento do desastre sem fim à vista ou vencem o medo de deixar o euro.
E veremos se os partidos que se batem contra a austeridade estarão à altura do drama que o seu país vive.

O drama da Grécia diz-nos respeito. Por muita propaganda que o governo faça, a verdade é que, no essencial, Portugal também é a Grécia.

No comentário que passa nas televisões já se admite que Portugal vai ter de recorrer a novo financiamento em 2013.
A razão invocada é quase sempre o efeito de contágio da situação grega.
Quer dizer, os mercados financeiros teriam deixado de acreditar que a Grécia é caso único e passaram a incorporar nos preços das suas transacções um futuro corte nos seus créditos.
Mas a questão é muito mais complexa.

Por muito que os economistas da ortodoxia ocultem o fundo da questão quando chamados a comentar nas televisões,
a verdade é que a falta de competitividade da economia portuguesa no seio da zona euro,
a política recessiva entretanto imposta e a consequente dinâmica da dívida pública, no seu conjunto,
criaram um problema que não é resolúvel com sucessivas injecções de liquidez.

Portugal tem um problema de insolvência (pública e privada) de que só sairá com uma RESTRUTURAÇÂO drástica da DÌVIDA pública e dos seus bancos, acompanhada de uma estratégia de desenvolvimento económico que não é compatível com a integração numa zona monetária liderada pela Alemanha.

O afundamento da nossa economia ao longo do corrente ano vai tornar claro que um novo pacote de financiamento, mesmo sem as condições cruéis que agora foram impostas à Grécia, apenas permitirá reciclar dívida velha e financiar o défice, mantendo-se o país na depressão.

Entretanto, as ditas reformas estruturais vão passar ao lado do problema, ou vão mesmo agravá-lo produzindo retracção do consumo e aumento do desemprego.

Quando o FRACASSO da estratégia de EMPOBRECIMENTO tiver sido assimilado pela maioria dos portugueses, e com a aproximação das negociações para o SEGUNDO PACOTE financeiro, em 2013, não faltarão vozes a clamar por um governo de salvação nacional com o apoio do Partido Socialista.
Para a Alemanha, esse apoio seria uma garantia adicional de que a reengenharia ordoliberal do país seria de difícil reversão.

Que o PAÌS fique ARRASADO social, económica e financeiramente e que grande parte da população jovem tenha de emigrar, isso é coisa que não preocupa a Alemanha.
Tal como na Grécia, haverá sempre alguém em Bruxelas ou Berlim para nos lembrar que a saída do euro é a alternativa para quem não aceita a punição.

O pior é que os partidos da esquerda portuguesa continuam tolhidos por uma dupla ILUSÂO:
com eleições em França, e com a luta social na Europa, haverá condições para uma reforma da UE que crie um “euro bom”;
com transferências orçamentais da Europa rica, no quadro de uma outra União, Portugal teria condições para se desenvolver.
Enquanto estas ilusões se mantiverem, não haverá luz ao fundo do túnel para os portugueses.
Pela simples razão de que não será possível construir uma solução política alternativa, portadora de regeneração e de esperança.
Algo de que os gregos, aliás, também carecem.

(Artigo no jornal i de ontem)
(-por Jorge Bateira , Ladrões)


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