4 comentários:
De .Parcerias e Ladrões. a 5 de Março de 2012 às 09:50
Ladrões, corruptos, vigaristas
(-por Sérgio Lavos, Arrastão,3.3.2012)

E enquanto vamos ficando todos mais pobres, há quem continue a não sentir os efeitos das medidas de austeridade, e até lucra com elas.

A história divulgada esta semana é exemplar: uma das primeiras decisões do Governo depois de tomar posse foi introduzir portagens na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto,
acabando com uma tradição antiga que beneficiava os lisboetas que não têm dinheiro para ir passar férias longe da cidade e apenas podem frequentar as praias da Costa da Caparica.

A ideia seria aumentar a cobrança dos impostos pagos nas protagens mas sobretudo poupar na indemnização compensatória paga à Lusoponte pela quebra nas receitas, no valor de 4.4 milhões de euros.

O problema é que a Lusoponte, cujo presidente é Joaquim Ferreira do Amaral, dirigente do PSD e antigo ministro das Obras Públicas que saiu directamente do executivo de Cavaco Silva para a administração desta empresa, exigiu ao Governo esses 4.4 milhões.

Este Governo, já sabemos, existe para pisar e roubar os mais fracos e ceder perante os mais fortes, para mais quando estamos a falar de alguém como Ferreira do Amaral, um dos amigos da quinta da Coelha e abutre do regime durante as horas de trabalho.
Em Novembro, depois do secretário de estado dos Transportes ter pedido um esclarecimento aos seus superiores no Governo, foi decidido que esse dinheiro seria pago à Lusoponte pelas Estradas de Portugal, por sinal uma das empresas públicas que pior desempenho tiveram em 2011.

E assim esta comovente história acabou por ter um final feliz:
a Lusoponte cobrou portagens em Agosto e recebeu a indemnização por não cobrar portagens, o que só demonstra como determinados paradoxos de sentido são possíveis caso realmente o Governo se esforce para isso.

O BE pediu a presença do secretário de estado dos Transportes, e fez bem.
Mas não sei porquê acho que vai tudo ficar em águas de bacalhau - não estou a ver como é que agora se irá obrigar a Lusoponte a devolver o nosso dinheiro, oferecido com todo o despudor pelo Governo.

Bom, deve ser disto que o primeiro-ministro e a cinderela da lambreta falam quando se lembram das ajudas aos mais carenciados.
Os 4.4 milhões de euros correspondem exactamente a quantos subsídios de Natal?
Vá lá, não sejam piegas, há sempre alguém que precisa mais do que nós.


De .Alex.Abreu - Ladrões B., 2.3.2012. a 2 de Março de 2012 às 13:59
Exegeses e polémicas

KRUGMAN é importante porque é escutado; e é escutado pq os símbolos contam. O prémio do Banco da Suécia para a ciência económica é um FALSO Nobel, mas - por mais que seja atribuído por um banco e por mais que a sua galeria de laureados, com raras excepções, seja um monumento à ideologia liberal, à vacuidade intelectual e à sobredeterminação do objecto pelo método - pede emprestado o prestígio dos outros prémios Nobel. Tem por isso peso simbólico, e esse peso simbólico conta na BATALHA das ideias.
Logo, excepto para quem queira limitar-se a pregar aos convertidos, não é de desprezar quando alguém como Krugman se assume como uma das raras vozes com uma audiência considerável que quebra os consensos mediaticamente impostos e publica análises e propostas susceptíveis de apropriação crítica por parte de quem defende posições progressistas. Sublinho, porém, a apropriação crítica - é aí que está o busílis da questão.

No meu último poste, remeti para uma série de exemplos de posições assumidas por Krugman, claramente em contra-corrente face ao discurso hegemónico, que correspondem precisamente a posições PROGRESSISTAS, na medida em que são favoráveis aos interesses dos trabalhadores e das classes populares.
Mas também referi que "as suas análises macroeconómicas, que são muitas vezes acertadas, perdem robustez por não serem enquadradas numa análise crítica do desenvolvimento histórico do capitalismo". Com a vantagem da retrospectiva, deveria ter sido mais claro e mais específico:
o problema das ANÁLISES de Krugman é que delas está AUSENTE um entendimento das dinâmicas e CONFLITOS de CLASSE.
Tal não impede que Krugman acerte, para dar um exemplo entre muitos, quando interpreta a crise de 2007-? como uma CRISE de DEFLAÇÃO de dívida à Fisher AGRAVADA pela AUSTERIDADE
(como muitos marxistas o fazem: ler em todas as crises o colapso iminente do capitalismo por acção da lei da queda tendencial da taxa de lucro não é marxismo, é confundir os DESEJOS com a REALIDADE).
Nem impede que as suas propostas políticas favoráveis à recuperação do EMPREGO sejam, lá está, progressistas (a chave para entendermos porque é que o são está não só nos benefícios directos que daí advêm para os trabalhadores como também na economia política do PLENO EMPREGO, que o J.Rodrigues já aqui tem explicado).

Agora, esta LACUNA ontológica e política do pensamento de Krugman tem como consequência, isso sim, a sua incapacidade para ENTENDER as dinâmicas político-económicas em curso em Portugal e na Europa enquanto OFENSIVA levada a cabo por uma aliança de circunstância entre diferentes fracções do CAPITAL nacional e internacional:
Krugman entende estes processos como resultado de ignorância ou equívoco por parte dos decisores.
Como corolário, tem também como consequência o seu entendimento dos governos, nomeadamente os da periferia europeia no contexto actual, como entidades BENÉVOLAS que procuram maximizar o bem-estar das populações, ainda que, eventualmente, de forma EQUIVOCADA.
E é aqui, ao limitar-se a expor tecnocraticamente o leque de OPÇÕES à disposição dos governos, assinalando timidamente as vantagens e desvantagens dessas opções, que Krugman expõe o FLANCO a todas as MANIPULAÇÔES e APROPRIAÇÔES por parte de todos os Camilos Lourenços desta praça, bem identificadas pelo Sérgio Lavos.
Quando Krugman refere a 'desvalorização interna' dos salários e restantes preços como uma ALTERNATIVA PIOR a uma POLÍTICA EXPANSIONISTA à escala EUROPEIA (essa sim, advogada), está a subestimar não só os constrangimentos estruturais da política à escala europeia como o gigantesco processo de REDISTRIBUIÇÃO do RENDIMENTO, do TRABALHO para o CAPITAL, que está em curso em Portugal - e ainda a facilidade com que a sua posição pode ser DISTORCIDA.
E eu, ao afirmar a expectativa de que Krugman contribuísse de forma mais positiva para os actuais debates e combates, sobrestimei a sua compreensão da situação e a sua inteligência táctica.

No meio do vendaval de exegeses que tem varrido a blogosfera, convém perceber o que está em causa. De resto, leiam este poste do João Rodrigues. E, como nota final, não posso deixar de sugerir à Raquel Varela (que tenho em boa conta apesar de diversas discordâncias) q.leia um pouco + este blog...


De .Spinning, deturpação e propaganda. a 2 de Março de 2012 às 16:47
O mistério dos salários encolhidos
(-por Sérgio Lavos, Arrastão)

Os augúrios começaram a soar com bastante antecedência. Paul KRUGMAN passou por cá ontem para receber o (triplo) doutoramento honoris causa, e os ventos de desgraça sopraram mais fortes.
As posições de Krugman em relação à crise da dívida soberana são relativamente conhecidas num certo meio, mas o povo que sabe do mundo pelos telejornais não sabia o que este Prémio Nobel da Economia achava do que se passa em Portugal.
Para mais, por ter passado por cá no período pós-evolucionário, teria mais autoridade para opinar sobre a crise que atravessamos.
Não será necessário repisar as suas teorias - quem quiser que passe pelos Ladrões de Bicicletas e pesquise por Krugman.
O que me interessa é o tratamento mediático que a visita dele teve.
De tanta coisa que disse, entre a conferência que deu em Lisboa e a entrevista que deu ao Jornal de Negócios (e que passou na RTP Informação), o que acabaria por ser mais destacado seria a afirmação de que os salários dos portugueses teriam de ser desvalorizados entre 20 a 30%.
Já não é a primeira vez que esta informação corre pelos jornais.
Mas será verdade?
No blogue Jugular, houve uma primeira versão desmontada. A TRADUÇÃO que o Jornal de Negócios publicou de uma entrevista dada pelo economista ao Le Monde estava ERRADA.
Krugman NÃO tinha recomendado um corte de 20% nos salários portugueses.
Tinha apenas sugerido um ajustamento salarial de Portugal em relação à Alemanha, fosse através da subida generalizada da taxa de inflação ou através de um aumento dos salários alemães muito acima de um aumento em Portugal.
Trocado por números, como esclareceu na entrevista dada ontem, o ideal seria que, por exemplo, a Alemanha subisse os salários 5 ou 6% e Portugal apenas 1 ou 2%.
Esta medida seria suficiente para esse ajustamento de 20% das tabelas salariais entre Portugal e a Alemanha, o que provavelmente tornaria o nosso país mais competitivo sem que fosse preciso cair na espiral recessiva para onde os países periféricos da UE estão a deslizar.

É de resto esta a luta de Krugman, no seu blogue do New York Times e nas outras intervenções públicas que tem feito a propósito da crise do Euro:
DENUNCIAR as políticas de AUSTERIDADE impostas pelo directório germano-francês, as que estão a levar os países periféricos à BANCARROTA e ao fim da moeda única.

No entanto, o que se foi ouvindo ao longo destes dias, a parangona mais repetida, é o tal SUPOSTO corte nos salários.
Eu poderia achar que este é mais um caso de sensacionalismo, que aos jornalistas interessa mais o sangue e a desgraça do que a verdade bem explicada a quem pouco percebe de economia.
Mas desconfio que as razões serão outras, bem mais graves.
É que na Grécia acabou de ser aprovado o enésimo pacote de austeridade, e desta vez eles vão ser forçados a cortar o salário mínimo em 200 euros.
O que se passa, sem rodeios, é muito simples:
é preciso MENTALIZAR ("fazer a cabeça de'') os portugueses para o que aí vem - não esqueçamos que a Grécia é o futuro de Portugal, daqui a um ano - e o Governo, através do ministro da PROPAGANDA Relvas e dos seus assessores pagos a peso de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, já meteu mãos à obra.
Spinning e MAU JORNALISMO, em todo o seu esplendor; e isto é apenas um exemplo do que vemos e lemos diariamente, o discurso único a que estamos submetidos desde que começaram a notar-se os primeiros sinais da crise.
Habituem-se!


De .o q. é "COMPETITIVIDADE" ?. a 2 de Março de 2012 às 11:55
Diga lá, Senhora Merkel, o que entende por competitividade?

Parece que Angela Merkel afirmou hoje que a Zona Euro "não pode sobreviver de forma estável e a longo prazo", a não ser que reduza o fosso da competitividade entre os seus países membros.

Digamos que já é um passo em frente face ao discurso da indisciplina orçamental e da preguiça dos povos do sul como origem de todos os males.
Resta saber o que entende Merkel - e os vários tele-economistas portugueses que se apressam a repetir a ladainha - por competitividade.

O conceito, oriundo da gestão e tradicionalmente aplicado a análise das empresas, começou a ser utilizado de forma generalizada desde a década de 1980 na análise das economias nacionais.

O problema é que um PAÍS NÃO É uma empresa e o que faz sentido a um nível de análise pode não fazê-lo noutro.
Num mercado concorrencial, uma empresa só cresce se for melhor que os concorrentes.
Mas, em princípio, um país pode desenvolver-se e proporcionar melhores condições de vida às populações sem penalizar outros países por isso.
O que é então a competitividade quando aplicada aos países?

Perante o uso e abuso da palavra, a OCDE tentou trazer alguma ordem à discussão propondo uma definição de competitividade de uma economia. Segundo esta organização, a
« COMPETITIVIDADE seria
"a capacidade de um país para produzir bens e serviços competitivos nos mercados internacionais,
em condições de concorrência livre e justa,
consolidando e expandindo o nível de rendimento real das populações". »

A definição é apelativa, mas deixa muitas questões em aberto:
como é que isto se mede?
Interessa-nos olhar para o desempenho competitivo, ou para as condições que favorecem a competitividade? ''concorrência livre e justa'' como se mede/verifica ?
E de que depende a competitividade?
Será que os factores que favorecem a "capacidade para produzir bens e serviços competitivos nos mercados internacionais" são sempre compatíveis com "a consolidação e expansão do nível de rendimento real das populações"?
Será que o objectivo da competitividade no curto prazo é compatível com a competitividade no longo prazo?
E em que condições a competitividade de um país pode aumentar sem pôr em causa a competitividade dos outros países?

Para ter melhor noção da ambiguidade do conceito, pense-se em dois exemplos.
Primeiro:
a recuperação da 'competitividade' das periferias é hoje vista como passando necessariamente pela redução dos salários reais;
e, no entanto, a história do desenvolvimento económico mostra-nos que os países com melhor desempenho nos mercados internacionais são frequentemente aqueles cujos salários reais mais crescem (trata-se do famoso 'paradoxo de Kaldor');
será a redução dos salários, de facto, compatível com "a consolidação e expansão do nível de rendimento real das populações"?
E, se não for, de que serve a um país ser bem sucedido no comércio externo?
Segundo exemplo:
o indicador hoje mais utilizado para medir o desempenho competitivo é o saldo da balança corrente;
mas como pode um país manter saldos correntes positivos sem que outros países tenham saldos negativos?

Na verdade, pouco disto interessa a Merkel e às elites que governam a Alemanha.
A sua "agenda da competitividade" é inequívoca e não requer muita clareza e coerência conceptuais:
trata-se apenas de aproveitar a crise e o clima de chantagem para forçar a descida dos salários e a fragilização dos estados nos países periféricos da UE.

Fica assim garantido o controlo político e financeiro por parte dos grandes interesses alemães de vastas zonas da periferia da Europa
- cada vez mais especializada em actividades de mão-de-obra barata - ao mesmo tempo que a concorrência salarial dentro do mercado interno ajuda a manter na linha os próprios sindicatos alemães.

Enfim, se a sobrevivência do euro depende mesmo da redução do fosso de competitividade - entendida nos termos em que é definida pela OCDE - então não há que ter muitas esperanças.

(-por Ricardo Paes Mamede às 29.2.12, Ladrões de Bicicletas)


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