4 comentários:
De .Daniel Oliveira : Miguel . a 30 de Abril de 2012 às 15:11
Miguel
(-por Daniel Oliveira)
Fica aqui o texto que publiquei, hoje, no "Expresso", sobre o Miguel.
Pela intensa amizade e cumplicidade pessoal, política e profissional que com ele mantive, nos últimos 22 anos, falta-me o distanciamento que consegui ler noutros, em textos muito mais claros e relevantes sobre o que foi a vida e o percurso do Miguel. Tentei, mas não consegui. Uma espécie de anestesia não me deixa.
Mas era obrigatório passar para o papel (era no papel que o Miguel se entendia) o imenso carinho que tinha, que tenho, que sempre hei-de ter por este ruivo que mudou, em muitas coisas, talvez em muitas mais do que ele julgava, a minha vida.
Sinto falta dele, e isso impede-me de escrever com clareza. Ficam as minhas desculpas por isso. Mas, mesmo assim, tenho de deixar escrito.

Nada tenho a escrever sobre política. O Miguel não me perdoaria isto. Deixar passar uma semana sem me entregar ao que sei fazer. As duas coisas a que me dediquei na vida – a política e o jornalismo – fiz ao lado dele, com ele.
E para ele, por pior que tudo corresse, a escrita e a política não esperavam pelos nossos estados de alma. Nessa matéria, era implacável. Mas tinha, apesar disso, uma fome de vida como nunca vi em ninguém.
E desconfiava de quem só vivia para grandes causas. Como podemos nós compreender o que devemos fazer pelos outros se nada sabemos deles?
Como podemos nós lutar pelo outro se ele não for mais do que uma abstração?
O Miguel gostava de pessoas antes de gostar de uma ideia.

Não, não me preparo para um panegírico. Panegíricos fazem-se a heróis. E o Miguel não era um herói. Não era uma estátua.
Sim, foi detido com 15 anos pela PIDE. Sim, foi militante comunista quando era difícil. Sim, viveu sempre dividido entre a lealdade à sua “tribo” e o imperativo de não defender aquilo em que não podia acreditar.
Mas, da sua coragem, o que mais importava era o desplante. Ter organizado os primeiros concertos em Lisboa quando isto era um deserto.
Ter lançado um jornal e uma revista de esquerda quando isso era impensável.
Ter-se mudado para o Alentejo e para a serra algarvia para trabalhar em desenvolvimento local quando o seu “estatuto” não o obrigaria.
Ter voltado ao jornalismo, várias vezes, para nos oferecer maravilhosos documentários e livros. Ser, e isso era uma das nossas muitas cumplicidades, um incurável viajante.
Os seus olhos terem continuado, até ao último dia, a brilhar com cada coisa nova que descobria, com cada coisa velha que defendia. Dos seus míticos ataques de fúria passarem com a mesma inesperada rapidez com que chegavam. Com as mulheres, com os lugares, com a política, com o trabalho, com tudo, o Miguel era intenso.

O Miguel era irremediavelmente humano em todos os seus defeitos e qualidade. Não faço um panegírico porque o Miguel não era apenas meu camarada. Não era sobretudo meu camarada.
Era meu amigo. Com fraquezas, erros, injustiças. Como com todos os amigos, que não o são apenas por hábito, claro que me zanguei tantas vezes com o Miguel como ele se terá zangado comigo. Fizemos sempre as pazes sem uma palavra, apenas voltando porque tem de ser.
O tempo permite que a amizade viva com o que não precisa de ser dito. E ao fim de 22 anos de um imenso carinho, mais de metade da minha vida, onde em cada momento me aparece o seu rosto, a sua voz, o seu riso estranho e o seu desvairado otimismo, os seus defeitos passaram a ser tão indispensáveis como as suas qualidades. Parte de mim.

O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo.
Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou.
Cedo demais para todos, e éramos muitos, que dele dependiam, como se depende de uma casa que, mesmo com infiltrações, sempre foi a nossa. Mas uma coisa é certa: o Miguel teve uma vida cheia. E encheu as dos outros.
E como ele não me perdoaria que não falasse de política, deixou a nossa muitíssimo mais pobre. Há pouca gente com a sua ousadia.
Na política, mundo repleto de bonecos insufláveis, não há quase ninguém. Sim, talvez o País aguente todas as perdas. Talvez a esquerda supere esta.
Para mim, para todos os seus amigos, é que é mais difícil tapar este buraco.


De . Miguel ... isto irá . a 30 de Abril de 2012 às 11:01
Isto irá
(Crónica de amanhã para o jornal Público, por: RuiTavares.net/blog )
24 de Abril de 2012

[ Miguel Portas ]

Isto irá. Daqui a uma semana é 1º de maio. Ser-te-á prestada homenagem, quando já estivermos mais repostos. Os teus amigos farão outra coisa: festejarão o teu aniversário.

Há quinze dias a crónica não saiu. Não fui capaz de a escrever. Eu tinha sofrido uma grande perda e não quis receber uma avalanche de mensagens. Recebi apenas algumas. Uma delas era do Miguel Portas: “internado em Antuérpia”, dizia, desejava-me força naquele momento difícil. Nestas duas semanas, enviei-lhe duas mensagens, desejando-lhe força também, para os tratamentos. “Brigado”, respondeu ele, “isto irá”.

Hoje a crónica sai, não sei se em condições para ser lida, peço desculpa por isso. É 25 de abril, e o Miguel Portas morreu ontem. É duro. Daqui a uma semana será 1º de maio. O dia de anos do Miguel Portas, data que o enchia de vaidade. Isto é mais do que duro. É cruel.

Foi cruel morrer assim o Miguel Portas, tão dolorosamente. Mas ele não se zangou com a vida. Logo o Miguel, que tantas vezes na vida se zangou sem razão, não se zangou com a vida, mesmo quando teve toda a razão para isso. Mas ele só podia gostar muito da vida. Tanto que nunca acreditou que ela lhe pudesse fazer esta desfeita. Há mesmo pessoas em que o gostar muito da vida está na raiz de tudo.

Isto irá, Miguel. Hoje é 25 de abril. É dia de descer a Avenida da Liberdade. Vão lá muitos amigos, de cravo na mão, camaradas teus, namoradas tuas, gente com quem te zangaste, gente com quem te reconciliaste, gente com quem fizeste política, e jornalismo, e amizade, e com quem desfizeste também. Para qual das coisas tinhas mais talento? Também isso discutiremos ao descer a Avenida da Liberdade, mesmo os que não puderem descer a Avenida; lembraremos os jornais, e a política, e as amizades.

Isto irá. Daqui a uma semana é 1º de maio. Ser-te-á prestada homenagem, quando já estivermos mais repostos. Os teus amigos farão outra coisa: festejarão o teu aniversário. Mesmo aqueles que andaram à bulha contigo. Todos sentem a tua falta. Até de andar à bulha contigo. Falarão das coisas que fizeste, lembrarão como entraste na vida deles, e não esquecerão nada, das coisas mais importantes àquelas que não têm importância nenhuma. Como lhes arranjaste um emprego. Como o jornal foi à falência. Como fizeste um partido novo.

E, sabes, Miguel? Isto irá. Aprenderemos finalmente, talvez não seja já para amanhã, mas aprenderemos. A fazer as coisas de outra maneira. A ser camaradas. A respeitar as diferenças. A juntar forças, mesmo. Tu, que nunca foste sectário, vais gostar de ver. Mas como eras taticista, vais ficar surpreendido.

Isto irá, finalmente. Faremos deste um país melhor. Teremos de ser muito melhores para o conseguir fazer, é claro. Mas isto irá. As coisas estão difíceis agora. Mas um dia vamos reconstruir o que agora está sendo destruído. Nascerão as novas escolas, e teatros, e serão reconstruídos os prédios velhos.

E haverá mais. Haverá viagens, Miguel, em que se arrancará logo de madrugada. E piadas contadas em várias línguas, francês desenrascado, italiano macarrónico, inglês acabado de aprender, uma ou duas palavras em árabe. Isto irá. Hão de cair mais uns tantos muros, vais ver. E vai haver jogos de futebol contigo como guarda-redes. E vão aparecer uns jornais e umas revistas novas, com um pessoal novo, talentoso, que havemos de descobrir. Vamos ter umas boas ideias. E, tal como garantiste tanta vez, vamos dar a volta a isto. Vamos dar a volta a tudo. Nem sempre acreditei, é certo. Mas isto irá.


De « isto irá...» a 30 de Abril de 2012 às 10:58
...
---Alda Ceia
26 de Abril de 2012 at 17:31
Isto irá…É preciso lutar e ontem como hoje, é preciso ABRIL!
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Isto irá. Com mais dificuldade, é certo, porque sem a inteligência do Miguel, mas isto irá!
----26 de Abril de 2012 at 20:48
Parabéns. Está escrito com uma enorme beleza e sensibilidade.

----Conceição C. Barros
26 de Abril de 2012 at 22:50
Caro Rui, muito obrigada por este belo, tocante e positivo texto;
neste momento em que de repente senti que uma das poucas pessoas que eu achava que fazia e faria alguma coisa por este país, partiu. Mas, Isto Irá!Percebo que o Miguel tivesse orgulho em fazer anos no 1º de Maio! Ele era um Primeiro de Maio!
No Dia 25 de Abril ( ontem ) achei que o dia estava muito triste e pensei:- ” Até o Dia 25 de Abril está triste porque um dos seus Grandes ( em todos os aspectos ) Defensores, partiu. Chorei pelo Miguel e por tudo. Depois deler a sua bela e tocante Crónica, sei que Isto Irá, e sósinha ou acompamhada vou celebrar os anos do Miguel. Obrigada Rui.

--- M.Azevedo
26 de Abril de 2012 at 22:58
O que é que eu penso da morte? Não penso nada porque nunca morri,não tenho nada que me pronunciar sobre esse assunto.Deixa-me morrer,porque depois,se houver alguma coisa e eu puder dizer,eu comunico para voçê,sou seu amigo,porque não hei-de comunicar,não é? isto é de Agostinho da Silva.Os amigos e camaradas esperam que Miguel continue a dizer coisas importantes para ele e para o povo portugues.

--- Maria José Isidro Aragonez
26 de Abril de 2012 at 23:57
Obrigada, Rui, por esta crónica, esta Homenagem belíssima que só um Amigo pode e sabe prestar. Vai fazer muita falta a este país, o Miguel, mas … isto irá.

--- fernanda carmo
27 de Abril de 2012 at 0:01
Claro que irá……Assim o Miguel disse “Isto irá” vamos ter fé e o tempo dirá… descansa em paz grande Miguel se perpetue as tuas palavras será a nossa homenagem

--- fatima pereira
27 de Abril de 2012 at 10:52
Porque será que Deus só leva os bons? A sua perda é irreparavél, sinto a sua perda como da minha familia se tratasse, não consigo nem pensar, que vou ser privada dos seus comentarios. O Miguel Portas ficará na nas nossas mentes, como um dos politicos; mais sério, mais honesto e integro do nosso País. (porque os politicos que nos têm governado, na ultima decada, são Associaçoes de malfeitores, que estão no Governo para defenderem os seus interesses deles e dos seus amigos)
--- ...


De MoKa a 26 de Abril de 2012 às 11:38
Não me lembro de «ver» um outro qualquer deputado europeu ou não, discursar contra o aumento do seu vencimento de deputado e considerar escandalosas as mordomias a que tinha direito por ser deputado. Miguel Portas fê-lo no Parlamento Europeu e na altura foi aqui referido essa sua atitude e coerência pessoal/política. Foi sempre um político diferente e distinto mesmo dentro do BE. Faz falta à democracia portuguesa e europeia.


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