De Grécia da Democracia ou da DitaTróica... a 7 de Maio de 2012 às 18:08
Na Grécia, a troika quer governar com 33% dos votos (atualizado)
(-por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

Os títulos dos jornais deram a vitória à direita grega.
Mas isso está longe de ser a notícia. A verdade é que todas as previsões ficaram aquém do que realmente aconteceu nas eleições gregas.
O bloco pró-troika ficou com uma maioria muito estreita de deputados (à hora que escrevo tinham metade do parlamento).
Apesar da Nova Democracia (de centro-direita) ter conseguido o primeiro lugar (19%), o PASOK foi quase dizimado (13%, quando nas últimas eleições teve 44%).
A moleza que tem caracterizado o centro-esquerda europeu foi duramente punida.

Sendo claro que os Gregos Independentes (dissidência anti-austeridade da Nova Democracia, com 10,5%) e o Syriza (de esquerda) não aceitarão juntar-se a um governo com a mesma política do anterior, ND e PASOK preparam-se para negociar a formação de um governo de austeridade que representa 33% dos gregos (o sistema eleitoral dá um bónus de 50 deputados ao partido mais votado).
Ou seja, a esmagadora maioria dos gregos votou contra uma política que poderá continuar a ser-lhe imposta.

Em segundo lugar ficou o Syriza (o Bloco de Esquerda lá do sítio, com 16,5%), que conquistou uma brutalidade de votos aos socialistas.
A Esquerda Democrática, resultado de dissidências do PASOK e do Syriza, chegou a ser uma promessa, com quase 20 por cento nas sondagens.
Mas a sua hesitação em relação ao programa da troika, durante a campanha, saiu-lhe cara. Morreu antes de nascer (ficou-se pelos 6%).
Os comunistas do KKE, que lideraram muitas das manifestações de contestação, ficaram-se pelos 8,5%.
Assustador é o resultado da Aurora Dourada, o primeiro partido indiscutivelmente neonazi a conseguir representação parlamentar num país da União Europeia (7%).
A extrema-direita que estava no governo não conseguiu chegar ao parlamento.

Se Berlim (já não faz grande sentido continuar a falar de Bruxelas) precisa de mais recados sobre a inexequibilidade dos seus programas de austeridade criminosa em democracia, então a cegueira é ainda maior do se julga.
A troika, que continuará a governar, foi esmagada pelo voto popular.
Já não há chantagem que resulte e não sobra qualquer autoridade democrática para impor este absurdo aos gregos.
Merkel tem duas possibilidades:
fingir que não vê o que se está a passar e atirar a Europa para o caos ou arrepiar caminho.

François Hollande (sobre França escreverei amanhã) pode ter a chave para o problema:
rever o pacto de submissão com a senhora Merkel e dar o grito do Ipiranga para uma refundação europeia.
Se não o fizer será o derradeiro coveiro da social-democracia e da Europa.

ATUALIZAÇÃO:
Os partidos da troika não conseguiram, mesmo com o bónus de 50 deputados, maioria no parlamento. Precisa da Esquerda Democrática, o que os obrigará da mudar muita coisa.
Neste momento a situação é difícil.
A esquerda, liderada pelo Syriza, tem 138 deputados (são necessários 150), isto contando com o PASOK.
Teria de juntar os dissidentes da ND (Gregos Independentes), que apesar da proximidade em matéria económica, estão distantes em questões como a imigração.
E os comunistas do KKE já vieram acusar o Syriza de ser social-democrata e querer impedir a radicalização do povo. Ou seja, estão fora.
A direita só poderia governar com os neonazis da Aurora Dourada e andar com as sua milícias violentas ao colo. Impensável.
Fala-se de novas eleições, o que seria difícil de aceitar.


De .Grécia e neoliberais.. a 7 de Maio de 2012 às 18:11
Alhos e bugalhos
(-por Sérgio Lavos, Arrastão)

O neoliberal* Tiago Loureiro tem uma dúvida existencial:
se na equação democrática que deu aos partidos pró-troika um evidente cartão vermelho entra o partido neonazi que chegou aos 6% na Grécia.
Pois é, a democracia é uma coisa aborrecida porque aceita no seu seio partidos anti-democráticos, partidos que são a própria negação do sistema que parasitam.
Como lembra antes no mesmo blogue o Ricardo Lima, foi assim que o partido nazi ascendeu ao poder na Alemanha dos anos 30.
Mas se calhar os dois deveriam reler alguns livros de História:
como chamei a atenção neste texto escrito há uns meses, um dos principais factores que levaram à ascensão do populismo de direita na Alemanha foram as duríssimas medidas de austeridade aplicadas pelo chanceler conservador Heinrinch Brüning.
Quando um Governo aplica medidas contra o bem comum das populações, parece-me perfeitamente natural que estas se revoltem, e aí reside o grande perigo de uma Europa cuja única medida de bom governo é a austeridade puritana imposta por Merkel.

Governar destruindo o mínimo bem estar social no imediato com a intenção de melhorar a sociedade num futuro mais ou menos próximo está muito próximo de um qualquer plano quinquenal.

Não vale a pena culpar a democracia por uma preocupante minoria votar num partido que nega o sistema democrático.
Vale bastante a pena pensar nas lições da História e evitar que as tragédias do século XX se repitam.
O único caminho possível é a união e a solidariedade entre os povos da Europa.
O que está na génese da União Europeia é o contrário do que tem acontecido nos últimos anos, sob a batuta de Merkozy.
A paz social só se conquista com o bem-estar social.
É assim que conseguimos calar os extremismos de direita.

*Aparentemente, os insurgentes gostam tanto desta designação como eu gosto da expressão "esquerda caviar".
Preferem ser chamados de quê? Hayekianos? Friedmanianos? Anarco-liberais? Liberais radicais? Ou o mais científico radicais livres?
Ou simplesmente "right-wing conservatives", dado que tanto defendem o liberalismo económico total como escrevem contra a despenalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outros costumes mais "liberais" (à maneira de um Reagan ou de uma Thatcher, ou até de um Pinochet)?
Pensando bem, num blogue com tanta gente próxima do CDS, esta será talvez a melhor etiqueta.


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