De Rebelião das massas vs políticos à deriv a 15 de Julho de 2015 às 15:56
À deriva

Em 1930, Ortega y Gasset publicou o seu livro mais famoso: “A rebelião das massas”.
É impressionante a actualidade de algumas das suas intuições. O objectivo de Gasset era fazer um diagnóstico do “nosso tempo”, da “vida actual”.

Para Gasset, o facto característico, o mais importante da vida europeia, é o advento das massas.
A rebelião das massas consiste na obliteração das almas médias. O homem-massa não é tonto; ao invés,
tem ideias taxativas sobre tudo, perdeu o sentido da audição, não tem referências, não respeita nada nem ninguém, não tem interesse nenhum pela história
- segundo Gasset, é a história que nos distingue dos outros animais ao permitir-nos não ter que começar sempre do zero.
O homem-massa só tem direitos e nenhuma obrigação, e está muito satisfeito consigo próprio.
É um menino mimado. Isto leva à barbárie no sentido literal do termo:
ausência de normas e de possível recurso.
Gasset define ainda a subespécie dos
“bárbaros especialistas”, pessoas que, por dominarem uma pequena parcela do saber, falam com petulância e autoridade sobre tudo o que desconhecem.

Curiosamente, Gasset achava que a unidade da Europa era inevitável.
As nações haviam-se tornado insuficientes e pequenas, era por isso necessário integrá-las numa Europa Unida. Gasset não fazia ideia que tipo de Estado europeu nasceria, mas falava de uma supernação que manteria a pluralidade.
De qualquer maneira, Gasset ficaria decerto horrorizado com a actual burocracia europeia, que dedica o tempo a normalizar o tamanho das gaiolas dos grilos e outros assuntos que tais.
Talvez volte um dia à visão de Gasset sobre uma "Europa unida", mas não é isso que me interessa agora (uma pessoa começa a escrever com uma ideia e quando dá conta já está a caminho da China).

Gasset achava que viver é “sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo”.
É, pois, falso dizer que são as circunstâncias – as possibilidades do mundo - que decidem. Pelo contrário:
“as circunstâncias são o dilema, sempre novo, perante o qual temos de decidir. Mas é o nosso carácter que decide.”

Esta ideia aplica-se também à vida coletiva.
As escolhas feitas pela sociedade dependem do seu carácter ou do tipo de homem dominante nela. No nosso tempo, domina o homem-massa: “é ele quem decide.”

Especialmente nos países em que o triunfo das massas é mais evidente (nos países mediterrânicos segundo o autor), a vida política é vivida ao sabor dos acontecimentos diários.
O poder está nas mãos dos representantes das massas.
Estes são tão poderosos que aniquilam qualquer oposição.
O poder público, o governo, vive sem programa de vida, sem projecto.
Não sabe para onde vai, porque, em rigor, não vai a lado nenhum, não tem um caminho definido, uma trajectória percetível.
Este poder público não evoca o futuro, refugia-se no presente e assume que o seu modo anormal de governo é imposto pelas circunstâncias.
Isto é, pela urgência do presente e não por avaliações em relação ao futuro.

Daí que a acção do poder público se reduza a esquivar-se aos conflitos e aos problemas de cada dia ou de cada hora.
Não se trata de resolver os problemas, trata-se de escapar aos problemas de cada momento.
Para o efeito, recorre-se a todos os métodos e expedientes necessários, mesmo que
isso implique acumular problemas e conflitos maiores para o dia de amanhã ou para a hora seguinte.
O poder público é sempre assim quando é exercido pelas massas: “omnipotente e efémero”.
Segundo Gasset, o “homem-massa não tem projectos, anda constantemente à deriva.”

(-por José Carlos Alexandre, 14/7/2015, http://destrezadasduvidas.blogspot.pt/2015/07/a-deriva.html#comment-form )


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