De PM doPSD- Partido do Sub Desenvolvimento a 16 de Maio de 2012 às 13:04
Os sermões de Pedro e a realidade
(-por Daniel Oliveira, Expresso online)

Como quase toda a minha geração, nunca estive no quadro de uma empresa. A situação mais estável que conheci foi a do contrato a prazo. A mais habitual foi a do recibo verde.
Como a generalidade da minha geração conheci o desemprego algumas vezes. Conheci-o jovem, o que, apesar de tudo, é menos grave do que quando ele nos chega aos 50 anos. Não o conheci em tempo de crise, quando muito poucas são as oportunidades que nos surgem.
É por ser desta geração - as que se seguiram têm um currículo contratual ainda mais precário e de exploração e abuso mais desenvergonhados - que é evidente para mim que grande parte do que foi afirmado por Passos Coelho só pode resultar de ter passado grande parte da sua vida num casulo.
Quem conheça, como trabalhador ou como empresário, a realidade laboral portuguesa, sobretudo para a geração "com maior formação" de que falava o primeiro-ministro, nunca poderia olhar assim para os portugueses.

"A cultura média é de aversão ao risco. A generalidade dos nossos jovens licenciados têm hoje um nível de qualificações muitíssimo mais elevado do que alguma vez aconteceu na história portuguesa e preferem ser trabalhadores por conta de outrem do que serem empreendedores. E esta cultura tem de ser alterada."

Vale a pena olhar para os números para confrontar os mitos que Passos Coelho tem na sua cabeça com a realidade.
Portugal é o terceiro país da Europa com mais autoemprego. Sabem qual é o primeiro? A Grécia.
Nós com uma taxa de autoemprego de 23,5%, a Itália com 24,9% e a Grécia com 30,1%.
Sabem qual é o último da OCDE? Os Estados Unidos da América.
E na Europa? Os países escandinavos.
Teríamos de concluir que mesmo que fosse verdade que os portugueses têm "aversão ao risco" (coisa que a nossa emigração desmente de forma esmagadora), o desejo dos jovens de serem "trabalhadores por conta de outrem" não tem qualquer tradução na concretização real.
E que são muitos os que se arriscam no autoemprego.

Poderão dizer que o número de pessoas com autoemprego em Portugal (e provavelmente na Grécia) não é verdadeiro. Porque, na realidade, grande parte trabalha com falsos recibos verdes. São apenas trabalhadores por conta de outrem sem direitos.
E então, a conclusão é ainda pior para as teses do nosso governo:
apesar de termos uma impressionante massa de trabalhadores absolutamente móvel, fácil de despedir e de empregar, não abrangida por qualquer lei laboral, o nosso terceiro lugar no pódio da flexibilidade no trabalho não fez nada pelo "empreendedorismo" e pelo emprego.
O risco absoluto em que estas pessoas vivem (apesar da aversão que compreensivelmente lhe tenham) não ajuda a economia. Não lhes dá novas oportunidades. Não cria emprego. Tudo ao contrário.

Alguém duvida que nos países escandinavos e nos EUA existe o tão adorado "empreendedorismo"?
Acontece que, como se vê pelos números, ele nada tem a ver com as pessoas quererem trabalhar - e conseguirem - por conta de outrem ou por conta própria.
Não é a insegurança no emprego que cria sociedades criativas.
Se assim fosse, ninguém bateria os países do terceiro mundo na competitividade empreendedora.
É a economia, estúpido.

"Quem já passou por experiências mal sucedidas tem obrigação de acrescentar alguma coisa ao seu saber de não voltar a repetir esses erros. Os erros são limitados, não pudemos estar sempre a cometer os mesmos erros. Mas devemos ter a oportunidade de ser consequentes quando aprendemos com os erros que cometemos.
Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de ser uma oportunidade de mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade."

Ao contrário do que pensa Passos Coelho, a taxa de desemprego (e é dela, e não de pessoas que desejam mudar de emprego, que o país fala) não diz rigorosamente nada sobre a mobilidade numa sociedade.
Pelo contrário: países com maior desemprego são países onde essa mobilidade é menor.


De PM/Gov. inútil, insultuoso, empobrecedor a 16 de Maio de 2012 às 13:10
Os sermões de Pedro e a realidade
(-por Daniel Oliveira, Expresso online)
...
Pelo contrário:
países com maior desemprego são países onde essa mobilidade é menor.
Porque a taxa de desemprego não nos diz quantas pessoas foram despedidas ou se despediram. Diz-nos quantas pessoas, depois disso, ficaram sem emprego.
O que a nossa atual taxa de desemprego nos diz é que a saída de um emprego não se transforma, para a esmagadora maioria, e ao contrário do que o primeiro-ministro julga, numa oportunidade.

Por isso, para além do drama pessoal, o desemprego é um drama económico.
Porque corresponde ao desperdício das capacidades da geração "com um nível de qualificações muitíssimo mais elevado do que alguma vez aconteceu na história portuguesa".
E porque reflete uma economia em recessão.
Quando sabemos que o desemprego abaixo dos 25 anos é de 36,1%, temos de perceber que o problema é a falta de oportunidades reais (e não as imaginadas por Passos Coelho) e não a ausência de uma cultura de risco.

A não ser, claro, que Passos Coelho pense que esta impressionante quantidade de jovens está desempregada porque se sente muito melhor em casa, sem dinheiro nem nada para fazer.
Quando sabemos que o desemprego de longa duração é de 6,2%, 2% acima da média europeia, temos de perceber que não há mobilidade nenhuma na nossa sociedade e que o desemprego é, obviamente, um estigma e uma desgraça para imensa gente.

E quando sabemos que quase 300 mil desempregados não recebem qualquer subsídio, temos de concluir que não é por falta de "cultura de risco" que a situação está como está.
Há maior exposição ao risco que a miséria absoluta?
Ou Passos Coelho acha que estas pessoas preferem passar fome a trabalhar?

O que Passos Coelho não parece perceber é que, numa economia em recessão, em que o crédito às empresas é quase impossível e as oportunidades de negócio são cada vez mais reduzidas,
já que ele se encarregou de estrangular o mercado interno numa altura em que o mercado externo está tão difícil, não basta querer muito para "empreender".

Cabe-lhe a ele (PM/Governo) criar as condições económicas para que o risco não seja apenas uma enorme irresponsabilidade.
Ou acha que que os jovens se devem endividar para lançar negócios falhados à partida?
Basta dizer isto:
só no segundo semestre de 2011 encerram mais de 30 mil empresas. O triplo do que no semestre anterior.
Perceberá Passos Coelho a diferença entre "cultura de risco" e suicídio?

Parece-me que Passos Coelho vive equivocado em relação às suas funções.
Os amigos dão-nos conselhos.
Os políticos criam condições para que as pessoas possam fazer escolhas nas suas vidas.
Passos Coelho até poderia ter razão, e não tem nenhuma, no que disse. Mas a sua razão seria irrelevante.
O seu papel é outro: criar condições de emprego para que as pessoas possam aproveitar "a oportunidade" de não o terem.
Assim, Passos Coelho limita-se a exibir a sua inutilidade como político.
Para receber conselhos não precisamos de eleger ninguém.
Temos a família e os amigos a quem não damos os nossos impostos.


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