Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Um  europeísmo  realista

     A crise da zona euro parece encaminhar-se a grande velocidade para um desfecho ditado pela dinâmica especulativa dos mercados financeiros, sendo esta acelerada pelo impasse político em que a Grécia caiu após as recentes eleições e pela recusa da Alemanha, da Comissão e do BCE em admitir que a política de austeridade é contraproducente. Fala-se agora numa agenda para o crescimento, uma retórica que está longe de obter consenso e, mesmo que venha a traduzir-se em decisões, está ainda mais longe de se concretizar em investimentos reais com efeitos significativos sobre a criação de emprego em Portugal. Por agora ainda não se reconhece que a crise é muito mais privada do que pública e que é sistémica já que une devedores do Sul e credores do Norte.
     Em Julho de 2009 escrevi no Ladrões: "De facto, uma moeda única não é sustentável quando as grandes desigualdades de nível de desenvolvimento dos estados envolvidos não são contrabalançadas por uma política económica comum. Confirmando esta objecção de fundo, o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) aguentou-se mal no passado recente e teve de ser flexibilizado. Agora a recessão global em que estamos mergulhados está a criar as condições que vão precipitar o fim do próprio euro. Custa-me fazer esta afirmação, mas o meu europeísmo é um projecto político realista e não uma ideologia que transporta para fora da realidade. E a realidade a que não podemos fugir é que a Alemanha está a criar as condições perfeitas para acabar com o euro."
     Decorridos mais de dois anos de crise do euro, ainda há muitos europeístas que tomam os desejos pela realidade. Alguns acreditam que a Alemanha até poderá deixar cair a Grécia, contra a qual construiu uma narrativa de culpabilização extrema. Já quanto à Irlanda, Portugal, e sobretudo a Espanha, todos esperam uma viragem de política que evite o colapso. Mas estão enganados. Nos próximos meses vão ter de se render à evidência. Vão ter de reconhecer que a saída para esta crise não se fará por reformas a partir do que existe, antes exige uma refundação do projecto europeu.
     O tempo das ilusões já se esgotou. Talvez o Norte da Europa possa suportar perdas da ordem dos 400 mil milhões de euros em créditos de diferente natureza concedidos à Grécia. Mas há que contar com a corrida aos bancos após a bancarrota grega e com os efeitos de contágio que produzirá. Ora a recente nacionalização do Bankia, o quarto maior banco de Espanha, criado pela fusão de várias caixas de aforro que não foram reestruturadas, com 10 milhões de clientes e cerca de 37 mil milhões de euros em crédito imobiliário tóxico, é um sinal precursor da enorme escala das perdas que vêm a caminho. Como em Portugal, a recessão em Espanha vai fazer crescer o crédito malparado que se adicionará aos créditos imobiliários tóxicos, ou seja, ainda avaliados aos preços anteriores à explosão da bolha.
     Percebe-se a crescente preocupação dos EUA com a crise europeia.
     Não me parece realista pensar que as dívidas públicas alemã, holandesa e finlandesa vão explodir para financiar a reestruturação do sistema financeiro espanhol e recapitalizar os bancos credores europeus, a que terá de se juntar o financiamento do estado espanhol e o segundo pacote à Irlanda e a Portugal.

     A emissão de eurobrigações e uma inundação de moeda criada pelo BCE, para financiar tudo o que fosse preciso, permitiria ganhar o tempo necessário para enfrentar a dimensão estrutural desta crise. Acontece que os eleitorados do Norte não parecem dispostos a caminhar em direcção ao federalismo. Um europeísmo realista deveria reconhecer que a União Europeia só sobrevive se for libertada desta união monetária insustentável.
     (O meu artigo de hoje no jornal i , 



Publicado por Xa2 às 13:56 | link do post | comentar

MARCADORES

administração pública

alternativas

ambiente

análise

austeridade

autarquias

banca

bancocracia

bancos

bangsters

capitalismo

cavaco silva

cidadania

classe média

comunicação social

corrupção

crime

crise

crise?

cultura

democracia

desemprego

desgoverno

desigualdade

direita

direitos

direitos humanos

ditadura

dívida

economia

educação

eleições

empresas

esquerda

estado

estado social

estado-capturado

euro

europa

exploração

fascismo

finança

fisco

globalização

governo

grécia

humor

impostos

interesses obscuros

internacional

jornalismo

justiça

legislação

legislativas

liberdade

lisboa

lobbies

manifestação

manipulação

medo

mercados

mfl

mídia

multinacionais

neoliberal

offshores

oligarquia

orçamento

parlamento

partido socialista

partidos

pobreza

poder

política

politica

políticos

portugal

precariedade

presidente da república

privados

privatização

privatizações

propaganda

ps

psd

público

saúde

segurança

sindicalismo

soberania

sociedade

sócrates

solidariedade

trabalhadores

trabalho

transnacionais

transparência

troika

união europeia

valores

todas as tags

ARQUIVO

Novembro 2019

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS