4 comentários:
De Mercados/especuladores ou Federação UE a 15 de Junho de 2012 às 11:53
Uma saída federalista?

Os comentadores das televisões já não sabem o que dizer.
A ajuda aos bancos espanhóis está decidida e, mesmo assim, os mercados financeiros estão a desfazer-se da dívida pública espanhola fazendo subir as taxas de juros implícitas para níveis históricos.
Pior ainda, têm a dívida pública de Itália sob mira.
Não é verdade que há poucas semanas se pretendia travar o contágio da crise às grandes economias europeias através de um Mecanismo Europeu de Estabilidade com uma grande dotação financeira?

Admitia-se que a simples existência desse Mecanismo seria dissuasora da especulação dos mercados. Afinal não foi.

O que é que está a falhar? A resposta é simples:
a UE está nas mãos dos mercados financeiros e estes ainda não estão convencidos da bondade das políticas.
Repare-se que, no caso espanhol, os mercados estão a dizer que o resgate dos bancos significa um enorme acréscimo na dívida pública espanhola.
Mais, num contexto de austeridade reforçada e sob tutela alemã, a recessão aprofundar-se-á.
O crédito malparado vai crescer e só fará piorar a situação dos bancos.
Ou seja, o montante necessário para evitar a falência dos bancos tenderá a subir.

Por outro lado, a recessão também agrava o défice público cujo financiamento nos mercados, a taxas exorbitantes, vai desencadear um efeito bola de neve na dívida acumulada.
A verdade é que a dívida pública espanhola é insustentável e por isso, mais adiante, virá um outro resgate para evitar a bancarrota do Estado Espanhol.

Admitindo que na Alemanha ainda há dinheiro e vontade política para liderar o financiamento de Espanha (bancos e Estado), e para dar continuidade ao financiamento da Irlanda e de Portugal, já a perspectiva de que a Itália vem a seguir faz do actual momento a hora da verdade da UE.

Neste quadro, o resultado das eleições na Grécia será o detonador de uma sequência de decisões que serão tomadas à revelia dos cidadãos.

Muitos comentadores entendem que, perante o descalabro da zona euro e os prejuízos que teria de suportar, a Alemanha acabará por aceitar a mutualização da dívida pública do clube da moeda única contra a imposição de um controlo férreo das políticas económicas.
Porém, esta solução não é tão simples como a têm apresentado à opinião pública. Há duas opções:
1) mutualizam-se as dívidas até 60% do PIB dos respectivos países, mas nesse caso a dívida restante, a cargo dos países em dificuldade, é dificilmente sustentável num clima de permanente austeridade;
2) mutualizam-se as dívidas acima de 60% do PIB dos respectivos países, o que elimina as dificuldades do presente mas cria um modelo que incentiva o desleixo orçamental.

Uma vez tomada a decisão, o recurso à mutualização da dívida poria termo, pelo menos no imediato, à pressão dos mercados financeiros sobre os países em dificuldades.
Mas aqui surge uma outra dificuldade.
Anular a pressão dos mercados financeiros desagrada profundamente à Alemanha.
Sabendo que a eficácia das regras de contenção orçamental seria sempre baixa, a Alemanha apenas abdicou da sua moeda na condição de a Europa se integrar plenamente nos mercados financeiros mundiais.

Seriam estes a impor a normalização das políticas económicas nacionais como hoje o vemos com clareza.
Por isso, se vier a aceitar as euro-obrigações, a Alemanha exigirá um controlo total da política económica dos restantes países que, em situações de crise, se tornará num verdadeiro protectorado.

Há quem chame a isto federalismo orçamental, mais um passo para um federalismo europeu sem nação, sem Estado, sem escolha dos cidadãos. Era bom que alguém explicasse isto aos portugueses.


De Notas de Atenas, Grécia a 15 de Junho de 2012 às 11:04
14 Junho, 2012 - por Jorge Costa
(http://esquerda.net/artigo/notas-de-atenas-i/23553 )

Comício da Syriza em Patras. Mulheres com crianças, muitos reformados, poucos jovens. A selecção grega acaba de perder com a da República Checa e a noite cai sobre o jardim central de um subúrbio de Atenas - Kamatero.
Num comício de bairro, uma carrinha carregada de polícias parece um exagero. O aparato surpreende a própria Rena Dourou, deputada do Syriza cuja presença é a justificação dada pelo comandante.
Há uma semana, Rena foi atacada por um nazi do partido Aurora Dourada em directo na televisão. Antes de fugir do estúdio, o gangster ainda bateu numa deputada comunista e, desde então, anda a monte.

Mas no jardim de Kamatero, os apoiantes do Syriza e a polícia olham-se com distância. Um estudo de opinião recente indica que, nas eleições do início de Maio, o partido nazi foi o mais votado entre os membros das forças especiais e de choque, muito aumentadas em número pelo Pasok nos últimos anos.

Em Kamatero, na terça-feira à noite, fiz uma curta intervenção.
Referi-me à "bola de cristal" grega, onde a devastação causada pelo governo da troika tem antecipado (com um ano de avanço) a realidade de Portugal.
E informei sobre o apoio manifestado ao Syriza por muita gente - das artes, das universidades, da luta social - no apelo de solidariedade com o povo grego.
Nas eleições do próximo domingo, na possibilidade de um governo de esquerda, joga-se "a esperança da Europa", como diz o pano do Syriza no comício.

Na quarta-feira, participei numa assembleia de rua organizada pelo Syriza em Petralonas, bastião ateniense da resistência contra a ocupação nazi.
Em 6 de Maio, o Syriza ultrapassou aqui os 20%. Abrem-se sorrisos de simpatia ao anúncio da intervenção de um militante do Bloco de Esquerda português.
Desde as últimas eleições, o Syriza realizou em todo o país cerca de 300 assembleias como esta, microfone aberto, perguntas, respostas e muitas opiniões fortes de gente empobrecida.
Tomam a palavra velhos e jovens militantes do grande mosaico anti-capitalista grego, mas também muita gente que pela primeira vez se sente representada à esquerda, pelo único partido que propõe um governo de ruptura com a troika.

Depois da minha saudação, a intervenção de abertura coube a Zoi Konstantinopoulou, a candidata que se destacou em 2008 como advogada da família de Alexis, o jovem de 15 anos assassinado por dois polícias no bairro de Exharquia, desencadeando uma onda de revolta durante semanas nas ruas de Atenas.
A sentença exemplar aplicada aos autores do crime contrastou com a tradição de impunidade policial.

Depois de Zoi, um vendedor de lotarias inscreve-se para perguntar como vai o Syriza conseguir recuperar o dinheiro da corrupção escondido na Suíça;
segue-se uma senhora lembra as vantagens do clima grego para o turismo e as energias renováveis;
um desempregado que votou pela primeira vez no Syriza em Maio passado quer saber como se vai resolver o problema da imigração.

Esta questão é central no debate eleitoral e corresponde a um verdadeiro problema, desde que a assinatura do tratado de Dublin II transformou a Grécia num autêntico campo de concentração para onde são recambiadas centenas de milhar de pessoas que entraram ilegalmente no território da União através das fronteiras gregas.
Ao trauma social que a intervenção da troika causa no país, a União Europeia soma a desgraça humanitária destes imigrantes, fugidos de países em guerra e forçados a viver numa Grécia que não escolheram, mergulhada na crise, punida pela sua situação geográfica de "porta de entrada" e sem qualquer apoio dos restantes países da União Europeia, que recusam receber quem os procura para sobreviver.
A centralidade do tema alimenta a demagogia da Nova Democracia e a violência dos gangs nazis, que resultou já em diversas mortes.

Na noite de hoje, quinta-feira, a campanha terá o seu momento alto, com o comício na praça Omonia.
...


De Notas de Atenas a 15 de Junho de 2012 às 11:12
Notas de Atenas
(-por Jorge Costa)

... comício na praça Omonia. Estão previstas apenas as intervenções de Alexis Tsipras e de Sophia Sakorafa, a deputada expulsa do Pasok em 2010 por votar contra o primeiro memorando e entrevistada pelo Esquerda.net há um ano.
Estarão também presentes vários representantes da esquerda europeia, entre eles Francisco Louçã.
Poderá ser o maior comício eleitoral da história da esquerda grega.

A divulgação de sondagens está proibida durante o período oficial de campanha, mas as últimas a serem divulgadas, há uma semana, apontavam para um resultado do Syriza na ordem dos 30%, com possibilidade de vitória.

Neste caso, o apelo de Tsipras à esquerda será testado.
O Partido Comunista Grego (KKE), abertamente estalinista e ultra-sectário, já respondeu - o partido teoriza a inviabilidade de qualquer forma de governo patriótico e de esquerda sem uma revolução que o anteceda.
Faz cartazes com o slogan "Não confiem no Syriza" e, mesmo perante a campanha de terror e chantagem que ameaça com o abismo em caso de vitória do Syriza, a porta-voz do KKE não hesita em afirmar que o governo de esquerda proposto por Tsipras é o projecto predilecto da burguesia industrial, etc...

Por outro lado, a Esquerda Democrática, de Fatis Kouvelis, tenta agregar eleitorado de um Pasok em queda livre e aposta na ambiguidade.
Se a direita ganhar sem maioria? "A Grécia não pode ficar sem governo".
E se o Syriza precisar da Esquerda Democrática para romper com o memorando da troika? O mandato maioritário teria que sujeitar-se à "renegociação faseada da austeridade" defendida por Kouvelis.
Em caso de vitória sem uma improvável maioria absoluta, formar uma maioria parlamentar não será coisa simples.

Numa conferência de imprensa na terça-feira, ao longo de três horas, Alexis Tsipras frisou por várias vezes que um governo de esquerda só pode sobreviver e realizar o seu programa apoiado numa permanente mobilização da maioria da sociedade.
E que, além disso, conta com o efeito europeu de uma vitória da esquerda na Grécia - uma urgente primavera continental, capaz de mudar a relação de forças a partir da periferia e quebrar as políticas da austeridade.
Tsipras não promete facilidades para amanhã, nem para depois de amanhã.
Quem acompanha o noticiário deste portal sobre a situação grega, conhece o essencial da proposta política do Syriza e isso basta para compreender que nem Angela Merkel, nem a elite económica grega, nem as clientelas suas protegidas, ninguém fará fácil a vida de um governo de esquerda na Grécia.
Mas estaria o Syriza preparado para uma vitória agora?
Vinda de vários dirigentes com quem falei, a resposta é essencialmente a mesma:
perante a situação extrema do país, poderia haver quem pensasse que o melhor seria perder por pouco e acumular forças para mais adiante.
Esses estariam errados: um governo de esquerda deve existir agora porque depois pode ser tarde demais.

Hoje, é certo, muita gente passa frio no inverno porque já não pode pagar a energia do aquecimento.
Mas a maioria da população ainda não passou fome. Isto pode alterar-se rapidamente - diz-nos um dirigente do Syriza - porque a continuação da austeridade, mesmo suavizada, é uma garantia de bancarrota e fome, de declínio social com risco de violência generalizada.
Nessa altura tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para as milícias da extrema-direita.


De MoKa a 15 de Junho de 2012 às 10:38
A Grécia pode cair. Com ela a Europa.

Mas qual é o mal ? Que é que isso interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. E quem diz o Romano diz muitos outros impérios por todo o mundo...

Até que se repararmos bem a UE nunca existiu verdadeiramete como um todo. E só serviu os interesses económicos dos grandes lobbies atrvés dos palermas desta geração de líderes políticos que só olham para o seu próprio umbigo e não têm sentido de estado, para não dizer princípios e moralidade.

A UE acabou? Paciência! Se calhar até é bom para renascermos como humanidade e ainda a tempo de podermos ser felizes!



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