4 comentários:
De MoKa a 15 de Junho de 2012 às 10:38
A Grécia pode cair. Com ela a Europa.

Mas qual é o mal ? Que é que isso interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. E quem diz o Romano diz muitos outros impérios por todo o mundo...

Até que se repararmos bem a UE nunca existiu verdadeiramete como um todo. E só serviu os interesses económicos dos grandes lobbies atrvés dos palermas desta geração de líderes políticos que só olham para o seu próprio umbigo e não têm sentido de estado, para não dizer princípios e moralidade.

A UE acabou? Paciência! Se calhar até é bom para renascermos como humanidade e ainda a tempo de podermos ser felizes!



De Notas de Atenas, Grécia a 15 de Junho de 2012 às 11:04
14 Junho, 2012 - por Jorge Costa
(http://esquerda.net/artigo/notas-de-atenas-i/23553 )

Comício da Syriza em Patras. Mulheres com crianças, muitos reformados, poucos jovens. A selecção grega acaba de perder com a da República Checa e a noite cai sobre o jardim central de um subúrbio de Atenas - Kamatero.
Num comício de bairro, uma carrinha carregada de polícias parece um exagero. O aparato surpreende a própria Rena Dourou, deputada do Syriza cuja presença é a justificação dada pelo comandante.
Há uma semana, Rena foi atacada por um nazi do partido Aurora Dourada em directo na televisão. Antes de fugir do estúdio, o gangster ainda bateu numa deputada comunista e, desde então, anda a monte.

Mas no jardim de Kamatero, os apoiantes do Syriza e a polícia olham-se com distância. Um estudo de opinião recente indica que, nas eleições do início de Maio, o partido nazi foi o mais votado entre os membros das forças especiais e de choque, muito aumentadas em número pelo Pasok nos últimos anos.

Em Kamatero, na terça-feira à noite, fiz uma curta intervenção.
Referi-me à "bola de cristal" grega, onde a devastação causada pelo governo da troika tem antecipado (com um ano de avanço) a realidade de Portugal.
E informei sobre o apoio manifestado ao Syriza por muita gente - das artes, das universidades, da luta social - no apelo de solidariedade com o povo grego.
Nas eleições do próximo domingo, na possibilidade de um governo de esquerda, joga-se "a esperança da Europa", como diz o pano do Syriza no comício.

Na quarta-feira, participei numa assembleia de rua organizada pelo Syriza em Petralonas, bastião ateniense da resistência contra a ocupação nazi.
Em 6 de Maio, o Syriza ultrapassou aqui os 20%. Abrem-se sorrisos de simpatia ao anúncio da intervenção de um militante do Bloco de Esquerda português.
Desde as últimas eleições, o Syriza realizou em todo o país cerca de 300 assembleias como esta, microfone aberto, perguntas, respostas e muitas opiniões fortes de gente empobrecida.
Tomam a palavra velhos e jovens militantes do grande mosaico anti-capitalista grego, mas também muita gente que pela primeira vez se sente representada à esquerda, pelo único partido que propõe um governo de ruptura com a troika.

Depois da minha saudação, a intervenção de abertura coube a Zoi Konstantinopoulou, a candidata que se destacou em 2008 como advogada da família de Alexis, o jovem de 15 anos assassinado por dois polícias no bairro de Exharquia, desencadeando uma onda de revolta durante semanas nas ruas de Atenas.
A sentença exemplar aplicada aos autores do crime contrastou com a tradição de impunidade policial.

Depois de Zoi, um vendedor de lotarias inscreve-se para perguntar como vai o Syriza conseguir recuperar o dinheiro da corrupção escondido na Suíça;
segue-se uma senhora lembra as vantagens do clima grego para o turismo e as energias renováveis;
um desempregado que votou pela primeira vez no Syriza em Maio passado quer saber como se vai resolver o problema da imigração.

Esta questão é central no debate eleitoral e corresponde a um verdadeiro problema, desde que a assinatura do tratado de Dublin II transformou a Grécia num autêntico campo de concentração para onde são recambiadas centenas de milhar de pessoas que entraram ilegalmente no território da União através das fronteiras gregas.
Ao trauma social que a intervenção da troika causa no país, a União Europeia soma a desgraça humanitária destes imigrantes, fugidos de países em guerra e forçados a viver numa Grécia que não escolheram, mergulhada na crise, punida pela sua situação geográfica de "porta de entrada" e sem qualquer apoio dos restantes países da União Europeia, que recusam receber quem os procura para sobreviver.
A centralidade do tema alimenta a demagogia da Nova Democracia e a violência dos gangs nazis, que resultou já em diversas mortes.

Na noite de hoje, quinta-feira, a campanha terá o seu momento alto, com o comício na praça Omonia.
...


De Notas de Atenas a 15 de Junho de 2012 às 11:12
Notas de Atenas
(-por Jorge Costa)

... comício na praça Omonia. Estão previstas apenas as intervenções de Alexis Tsipras e de Sophia Sakorafa, a deputada expulsa do Pasok em 2010 por votar contra o primeiro memorando e entrevistada pelo Esquerda.net há um ano.
Estarão também presentes vários representantes da esquerda europeia, entre eles Francisco Louçã.
Poderá ser o maior comício eleitoral da história da esquerda grega.

A divulgação de sondagens está proibida durante o período oficial de campanha, mas as últimas a serem divulgadas, há uma semana, apontavam para um resultado do Syriza na ordem dos 30%, com possibilidade de vitória.

Neste caso, o apelo de Tsipras à esquerda será testado.
O Partido Comunista Grego (KKE), abertamente estalinista e ultra-sectário, já respondeu - o partido teoriza a inviabilidade de qualquer forma de governo patriótico e de esquerda sem uma revolução que o anteceda.
Faz cartazes com o slogan "Não confiem no Syriza" e, mesmo perante a campanha de terror e chantagem que ameaça com o abismo em caso de vitória do Syriza, a porta-voz do KKE não hesita em afirmar que o governo de esquerda proposto por Tsipras é o projecto predilecto da burguesia industrial, etc...

Por outro lado, a Esquerda Democrática, de Fatis Kouvelis, tenta agregar eleitorado de um Pasok em queda livre e aposta na ambiguidade.
Se a direita ganhar sem maioria? "A Grécia não pode ficar sem governo".
E se o Syriza precisar da Esquerda Democrática para romper com o memorando da troika? O mandato maioritário teria que sujeitar-se à "renegociação faseada da austeridade" defendida por Kouvelis.
Em caso de vitória sem uma improvável maioria absoluta, formar uma maioria parlamentar não será coisa simples.

Numa conferência de imprensa na terça-feira, ao longo de três horas, Alexis Tsipras frisou por várias vezes que um governo de esquerda só pode sobreviver e realizar o seu programa apoiado numa permanente mobilização da maioria da sociedade.
E que, além disso, conta com o efeito europeu de uma vitória da esquerda na Grécia - uma urgente primavera continental, capaz de mudar a relação de forças a partir da periferia e quebrar as políticas da austeridade.
Tsipras não promete facilidades para amanhã, nem para depois de amanhã.
Quem acompanha o noticiário deste portal sobre a situação grega, conhece o essencial da proposta política do Syriza e isso basta para compreender que nem Angela Merkel, nem a elite económica grega, nem as clientelas suas protegidas, ninguém fará fácil a vida de um governo de esquerda na Grécia.
Mas estaria o Syriza preparado para uma vitória agora?
Vinda de vários dirigentes com quem falei, a resposta é essencialmente a mesma:
perante a situação extrema do país, poderia haver quem pensasse que o melhor seria perder por pouco e acumular forças para mais adiante.
Esses estariam errados: um governo de esquerda deve existir agora porque depois pode ser tarde demais.

Hoje, é certo, muita gente passa frio no inverno porque já não pode pagar a energia do aquecimento.
Mas a maioria da população ainda não passou fome. Isto pode alterar-se rapidamente - diz-nos um dirigente do Syriza - porque a continuação da austeridade, mesmo suavizada, é uma garantia de bancarrota e fome, de declínio social com risco de violência generalizada.
Nessa altura tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para as milícias da extrema-direita.


De Mercados/especuladores ou Federação UE a 15 de Junho de 2012 às 11:53
Uma saída federalista?

Os comentadores das televisões já não sabem o que dizer.
A ajuda aos bancos espanhóis está decidida e, mesmo assim, os mercados financeiros estão a desfazer-se da dívida pública espanhola fazendo subir as taxas de juros implícitas para níveis históricos.
Pior ainda, têm a dívida pública de Itália sob mira.
Não é verdade que há poucas semanas se pretendia travar o contágio da crise às grandes economias europeias através de um Mecanismo Europeu de Estabilidade com uma grande dotação financeira?

Admitia-se que a simples existência desse Mecanismo seria dissuasora da especulação dos mercados. Afinal não foi.

O que é que está a falhar? A resposta é simples:
a UE está nas mãos dos mercados financeiros e estes ainda não estão convencidos da bondade das políticas.
Repare-se que, no caso espanhol, os mercados estão a dizer que o resgate dos bancos significa um enorme acréscimo na dívida pública espanhola.
Mais, num contexto de austeridade reforçada e sob tutela alemã, a recessão aprofundar-se-á.
O crédito malparado vai crescer e só fará piorar a situação dos bancos.
Ou seja, o montante necessário para evitar a falência dos bancos tenderá a subir.

Por outro lado, a recessão também agrava o défice público cujo financiamento nos mercados, a taxas exorbitantes, vai desencadear um efeito bola de neve na dívida acumulada.
A verdade é que a dívida pública espanhola é insustentável e por isso, mais adiante, virá um outro resgate para evitar a bancarrota do Estado Espanhol.

Admitindo que na Alemanha ainda há dinheiro e vontade política para liderar o financiamento de Espanha (bancos e Estado), e para dar continuidade ao financiamento da Irlanda e de Portugal, já a perspectiva de que a Itália vem a seguir faz do actual momento a hora da verdade da UE.

Neste quadro, o resultado das eleições na Grécia será o detonador de uma sequência de decisões que serão tomadas à revelia dos cidadãos.

Muitos comentadores entendem que, perante o descalabro da zona euro e os prejuízos que teria de suportar, a Alemanha acabará por aceitar a mutualização da dívida pública do clube da moeda única contra a imposição de um controlo férreo das políticas económicas.
Porém, esta solução não é tão simples como a têm apresentado à opinião pública. Há duas opções:
1) mutualizam-se as dívidas até 60% do PIB dos respectivos países, mas nesse caso a dívida restante, a cargo dos países em dificuldade, é dificilmente sustentável num clima de permanente austeridade;
2) mutualizam-se as dívidas acima de 60% do PIB dos respectivos países, o que elimina as dificuldades do presente mas cria um modelo que incentiva o desleixo orçamental.

Uma vez tomada a decisão, o recurso à mutualização da dívida poria termo, pelo menos no imediato, à pressão dos mercados financeiros sobre os países em dificuldades.
Mas aqui surge uma outra dificuldade.
Anular a pressão dos mercados financeiros desagrada profundamente à Alemanha.
Sabendo que a eficácia das regras de contenção orçamental seria sempre baixa, a Alemanha apenas abdicou da sua moeda na condição de a Europa se integrar plenamente nos mercados financeiros mundiais.

Seriam estes a impor a normalização das políticas económicas nacionais como hoje o vemos com clareza.
Por isso, se vier a aceitar as euro-obrigações, a Alemanha exigirá um controlo total da política económica dos restantes países que, em situações de crise, se tornará num verdadeiro protectorado.

Há quem chame a isto federalismo orçamental, mais um passo para um federalismo europeu sem nação, sem Estado, sem escolha dos cidadãos. Era bom que alguém explicasse isto aos portugueses.


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