Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

    Não ficou tudo na mesma   (por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

 Alexis Tsipras, eleito líder do Synaspismos (principal partido da coligação Syriza) há três anos e sério candidato a primeiro-ministro da Grécia nas últimas eleições, com apenas 38 anos, conseguiu um feito extraordinário: multiplicou por seis (tinha 4,6%) a percentagem do seu partido, em apenas três anos, e, desde as últimas eleições, há dois meses, passou de 17% para 27%. Mas tudo isto não chegou para ganhar as eleições. Os eurocratas e a senhora Merkel suspiraram de alívio. A chantagem a que se dedicaram, numa desenvergonhada e nunca vista ingerência na vida política de um país membro da União Europeia, não retira às eleições gregas as sua legitimidade democrática. Não foi ontem que a Europa sentiu o abalo de que urgentemente precisa para não se autodestruir.
         Antes de coisas mais importantes, três lições menores destas eleições.
A primeira: os comunistas ultraortodoxos do KKE baixaram, em dois meses, de 8,5% para 4,5%. O sectarismo de se recusarem a participar num governo de esquerda paga-se caro. Até na tradicionalmente sectária vida política grega.
A segunda: os neonazis (da Aurora Dourada), mesmo depois das extraordinárias agressões na televisão, mantiveram a sua percentagem. O desespero de um povo torna o impensável aceitável.
A terceira: segundo uma sondagem, entre os 18 e os 34 anos, 33% dos eleitores votaram no Syriza, e apenas 20% votaram na Nova Democracia; entre os 35 e os 54, 34% votaram no Syriza e 24% na Nova Democracia; acima dos 55, 39% votou na Nova Democracia e 20% no Syriza. Foi o eleitorado tradicionalmente mais temeroso da mudança que garantiu a vitória da (conservadora NovaDemocracia) de Samaras. E a jovem Grécia, que quer emprego, não quer imigrar, e é a única que tem condições para fazer o país avançar, quer mudar de vida.
        Mas não se julgue que tudo está na mesma na Grécia.
Os coveiros da Grécia, que a faliram e que a entregaram à troika, Nova Democracia e PASOK, juntos, conseguem a maioria dos deputados, graças ao extra de cinquenta deputados para o partido mais votado. Mas os partidos que defendem o memorando têm apenas 41% dos votos. O governo, que o pode continuar a impor à Grécia, se chegar a existir, será extraordinariamente fraco e sem a maioria dos votos dos gregos. Com uma agravante: com o Syriza com uma votação tão próxima da Nova Democracia (apenas menos 3%), há, sempre à espreita, uma alternativa clara.
        Compreendendo isto, o PASOK (que caiu ainda mais um bocadinho) quer amarrar o Syriza a um governo que aceite a continuação deste caminho. Os socialistas perceberam que, continuando a cumprir o papel que têm tido, se condenam à extinção. E querem o resto da esquerda no governo, assegurando-se que não há alternativa.
Esta é a primeira vitória do Syriza: deixar claro, para o PASOK mas para toda a social democracia desistente, que ou escolhem um lado e honram o seu legado histórico, ou outros tomarão o seu lugar.
        Sabendo da insustentabilidade da aplicação desta receita suicida, Antonis Samaras (ND) prometeu uma renegociação dos termos do memorando. Esta foi a segunda vitória do Syriza: ao apresentar-se como real alternativa de poder conseguiu, mesmo perdendo por "uma unha grega", que a direita recuasse nas suas posições. Se a vitória da ND tivesse sido extraordinária, até podiam dar o dito por não dito. Assim, não chegará uma operação de cosmética para se manterem no poder. Lá estará um forte partido da oposição para pôr o governo em perigo e substitui-lo.
        A Europa não mudou ontem. Tenho pena.
Mas, com este resultado histórico e com o recuo a que obrigou os partidos da troika, o Syriza conseguiu que não ficasse tudo na mesma. A Grécia não conseguiu dar o empurrão para uma refundação das políticas europeias, mas pregou um susto que terá efeitos.
        Ao contrário do que muitos pensam, a vitória da ND é um passo mais rápido para a saída grega do euro do que seria a vitória do Syriza. Não obrigando a Europa, que terá mais dificuldade em livrar-se da Grécia - pelos efeitos de contágio que isso provocará - do que se julga, a mudar de rumo, a austeridade tratará de fazer o que a direita julgava que um governo de esquerda faria. Estas eleições foram, desse ponto de vista, uma oportunidade perdida. Em vez de a travar, a Grécia apenas terá abrandado a loucura alemã. Mas todos os que o quiserem perceber, perceberam: paira sobre a Europa o espectro da revolta. O tempo do mais estúpido dos consensos - o da austeridade - acabou. Ela poderá continuar. Mas está cada vez mais frágil.
                 Resultadoscom mais de 99% dos votos apurados ('Noite longa' 17.6.2012): 
Nova Democracia           129 deputados (incluindo +50) 29,66 %
Syriza                           71 deputados 26,89 %
Pasok                            33 deputados 12,28 %
Independentes Gregos  20 deputados 7,51 %
Aurora Dourada            18 deputados 6,92 %
Esquerda Democrática  17 deputados 6,25 %
KKE                               12 deputados 4,50 %

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Publicado por Xa2 às 07:53 | link do post | comentar

5 comentários:
De .Negociar, render-se ou rebelar-se. a 18 de Junho de 2012 às 11:13
A linha na areia

«Quando duas partes negoceiam, a interacção entre elas comporta um benefício mútuo em potência e uma dimensão de conflito. (...)
Por isso, quando a negociação conduz a um acordo (...), consegue-se um benefício para ambos e resolve-se um potencial conflito. (...)
Contudo, a negociação só faz sentido se ambas as partes tiverem algum poder para negociar. E o que é que determina esse poder? A resposta simples é: a disponibilidade para traçar "uma linha na areia" e a vontade resoluta de abandonar as negociações caso essa linha seja transposta. (...)
Se uma das partes não conseguir definir de antemão as circunstâncias em que prefere rejeitar a oferta do outro, (...) as negociações são inúteis.
O partido que não consegue imaginar-se a dizer "não", deve desistir da negociação e, simplesmente, optar por suplicar ao outro lado, apelando à sua bondade, generosidade e, em casos desesperados como o da Grécia, ao sentido de misericórdia.»

Excerto do texto que Yanis Varoufakis escreveu há três dias atrás e que estabelecia, de modo muito claro, o que esteve em jogo nas eleições gregas de ontem.
A escolha entre um partido (Syriza), que prometia negociar com a troika um novo quadro, radicalmente diferente, de condições de assistência financeira;
e dois partidos (Nova Democracia e PASOK), para os quais qualquer simulacro de acordo seguramente servirá.
Justamente porque estes dois partidos (que, face aos resultados eleitorais obtidos, é quase certo acabarão por se coligar), sempre estiveram determinados «em não traçar nenhuma linha na areia», como bem sublinha Varoufakis.
Isto é, distantes de qualquer espírito, genuíno e determinado, de negociação.
Circunscritos - por subserviente decisão própria - às míseras migalhas que a súplica lhes puder render.

(-por Nuno Serra ,18.6.2012)


De . Chantagem e democracia viciada. a 18 de Junho de 2012 às 11:19

Chantagens

Como lembrou na Entrevista ao Público o presidente do banco central alemão, a política dispensa a chantagem.

O sonso ou cínico que escreveu isto no editorial do Público de hoje toma os leitores por estúpidos.
A entrevista a jornais dos PIGS deste dirigente alemão é um exemplo do quadro intelectual que presidiu à criação do euro e à sua destruição.

Segundo o Público, o poder, onde se inclui a capacidade de A para impor um curso de acção a B, associada à capacidade de A para impor custos a B, caso B não siga o curso que convém a A, deve ser atributo exclusivo do capital financeiro, dos credores.

A troika tem usado a chantagem desde a primeira hora como instrumento para impor programas que geraram a maior depressão da história grega, um desemprego que se aproxima dos 25% e níveis inauditos de sofrimento social.

Desde há dois anos que aqui se defende que as periferias devem ripostar, usando as armas dos devedores, como tem feito a Syriza e proposto alguma esquerda portuguesa.

À chantagem responde-se com a chantagem para reequilibrar a relação. É que só assim se pode negociar.
Caso a negociação, capaz de superar as políticas vigentes, se revele impossível neste euro, quer porque a miopia dos credores é estrutural, quer porque a oportunidade para negociar já passou e a situação acaba por se precipitar (a fuga de capitais é o rastilho...), será necessário sair deste jogo de qualquer forma viciado.

De resto, mais tarde ou mais cedo (a esquerda que não desistiu será governo um dia destes...), teremos uma experiência natural que ajudará a clarificar quem é realista e quem é fantasioso na economia política do euro.

(-por João Rodrigues , Ladrões de B.)


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