'Lata' e idas ao 'pote' de fantoches e mandaretes amigos

"2012 vai marcar um ponto de viragem" - V.Gaspar, há precisamente 149 dias  (-por Sérgio Lavos)

A cada nova revelação dos números da execução orçamental, confirma-se a ideia: o país está cada vez mais pobre, mas nem assim o défice de 4.5% irá ser atingido.

     Passos Coelho e Vítor Gaspar prometeram-nos: a cura de austeridade - "além da troika", disse o primeiro-ministro várias vezes - era necessária ao abrigo do programa da troika. E fundamental para se atingir a meta do défice e assim voltar aos mercados em 2013. Mas Vítor Gaspar falhou. Redondamente, criminosamente.

     A meta não irá ser atingida, como muita gente previu, tanto à esquerda como à direita. E ninguém poderá levar a sério o ar de surpresa de Gaspar. As consequências de uma política de empobrecimento seriam sempre estas. Aqui no Arrastão inúmeras vezes escrevemos: a austeridade leva a uma contracção da economia, o que significa mais desemprego, aumento das despesas com as prestações sociais, quebra das receitas fiscais, tantos os impostos sobre o consumo como sobre os rendimentos. Os aumentos sobre o IRS, IRC e IVA redundaram num contraproducente fracasso. O que o Governo esperava obter a mais esfumou-se com a crise.

    E bem pode Vítor Gaspar culpar a conjuntura económica: é mentira. O resgate internacional levou a que os juros da dívida baixassem ao longo do tempo. A injecção de capital feita pelo BCE em Novembro passado permitiu que Portugal respirasse um pouco mais. Mas nem esta descida nos juros se deve a políticas do Governo: se o BCE não tivesse actuado, ainda estaríamos nos mesmos níveis que estávamos em Janeiro. E o crescimento das exportações - a menina dos olhos que também não se deve a políticas deste Governo - abrandou no mês passado.

      Em dia de vitória da selecção, Vítor Gaspar confessou o seu falhanço. Mas a cada novo falhanço, o Governo aponta na mesma direcção - o abismo. No final do conselho de ministros extraordinário, Paulo Portas - quem terá obrigado o ministro dos submarinos a, por uma vez, dar a cara pelo Governo? - disse que a melhor notícia é terem já passado seis meses. Sem nada de bom para dizer, Portas refugiou-se na vulgaridade insultuosa. Os cálculos eleitorais do Governo deixam de fora o milhão de desempregados, os milhares de empresas em processo de insolvência ou a passar por dificuldades, os pobres cada vez mais pobres. O ideal seria, sabemos bem, que todos emigrassem. Para que o fardo das prestações sociais fosse um pouco reduzido e para que continuassem a crescer as remessas em dinheiro entradas no país.

     E enquanto isto, os boys continuam a ocupar lugares no Governo e na administração pública. Enquanto isso, privatiza-se as empresas que dão lucro e guarda-se lugares na administração para as pantanosas criaturas que brotam do aparelho dos partidos. E enquanto isso, pressiona-se jornalistas, mente-se com todos os dentes e trafica-se influências a favor de amigos, confrades de avental e membros do partido.

       2012 vai sem dúvida marcar um ponto de viragem.

                   A  lata

"Tolerámos cumplicidades entre a esfera pública e a esfera dos negócios".- Vítor Gaspar, há minutos no debate da moção de censura do PCP. Tem toda a razão:

 José Luís Arnaut e Miguel Moreira da Silva.

 Eduardo "Pentelho" Catroga e Celeste Cardona.

 Manuel Frexes e Álvaro Castelo-Branco.

 Sérgio Monteiro e Ferreira do Amaral.

 Miguel Relvas.

 BPN.

    Etc.,  etc.



Publicado por Xa2 às 07:57 de 26.06.12 | link do post | comentar |

14 comentários:
De .. a 26 de Junho de 2012 às 11:52
CAVACO, o pai da destruição...

ou do monstro, segundo Miguel Cadilhe, seu ex-ministro das finanças.

COMO PODERÁ CONSTATAR-SE, AQUELES QUE EXERCERAM OU EXERCEM CARGOS POLÍTICOS OU PÚBLICOS DA ÁREA DO PPD,
NOMEADAMENTE PRÓXIMOS DE CAVACO, ESTÃO TODOS RICOS OU BEM NA VIDA. OU SEJA,
ESTA GENTE FOI/VAI PARA A POLÍTICA PARA DELA COLHER BONS PROVENTOS.

PORTUGAL NÃO PODE AGUENTAR MAIS ISTO, À CUSTA DOS RENDIMENTOS DO TRABALHO, PRINCIPALMENTE DA CLASSE MÉDIA, QUE ESTÁ A SER A GRANDE VÍTIMA ! !!



De desalinhado a 27 de Junho de 2012 às 09:55
E aqueles que exerceram cargos públicos quando o PS foi governo? Não estão ricos? e não falo só dos "independentes " do PS, dirijo-me sobretudo a militantes com responsabilidades diretivas.
Mas quem sou eu para os criticar se a “essência” da democracia, o Povo, essa massa anónima e esclarecida, continua a votar neles.
Concluo que o desalinhado sou eu.


De Tirano paga a traidores, boys, capatazes a 27 de Junho de 2012 às 10:21

CRESPO AO FRESCO

Mário Crespo, 64 anos, jornalista da SICN
e colunista do Expresso, foi convidado por Miguel Relvas, ministro-adjunto e dos assuntos parlamentares, para o lugar de correspondente da RTP em Washington, vago há seis meses.

Deste modo, Crespo voltará a desempenhar as funções que exerceu entre 1992-98.
O convite está a gerar forte turbulência na RTP, uma vez que a estação estava a organizar um concurso interno para preenchimento da vaga, de acordo com os critérios estatutários:
1) É dada primazia a jornalistas do quadro da RTP interessados em trabalhar no estrangeiro.
2) A direcção de informação selecciona os candidatos.
3) Um júri avalia.
4) A administração avaliza a escolha final.

Crespo nem sequer é do quadro: foi despedido da RTP há doze anos.
Chama-se a isto, em linguagem plano inclinado, dar o pote aos boys.
Lembram-se do que Mário Crespo disse do Governo de Sócrates?
Do que ele afirmou sobre as perseguições, intimidações, censuras e tentativas de interferência do poder político no jornalismo?
Da t-shirt que levou à Assembleia da República para denunciar as malévolas intenções governamentais?

Pois bem:
o ministro Miguel Relvas atropelou a administração e a direcção de informação da RTP e convidou Mário Crespo para correspondente da estação pública em Washington.

A RTP, não sei se estão recordados, é aquela estação que estava para ser privatizada, perdão, reavaliada.
Sobre o convite, Crespo, cândido e enternecido, declarou:
«É um lugar que me honraria muito nesta fase da minha carreira e para o qual me sinto habilitado».
Curioso.
Pensei que ia recusar com base numa alegada interferência do poder político no jornalismo, mas não.

E na RTP, já agora, ninguém se demite?
Confesso:
Cada vez tenho mais respeito por algumas meretrizes.


De 'jotas e boys' governantes e deputados.. a 27 de Junho de 2012 às 12:29
Fanatismo, despudor e incompetência
por Sérgio Lavos

"Sair da zona de conforto" tornou-se um dos lemas de um Governo a braços com um aumento do desemprego que, para além de não conseguir controlar, é olhado como uma praga que apenas se resolve subsidiando os patrões que estimulam a precariedade - o "Programa Estímulo 2012" - ou empurrando a geração mais bem qualificada do país para fora do barco. Incompetência na gestão de um problema agravado pelas políticas de austeridade e fanatismo ideológico nas escolhas políticas feitas são a face visível das políticas de emprego de Álvaro e dos outros governantes. Para além do mais, o que irrita mesmo é a sobranceria e o despeito com que estes políticos incompetentes olham para gente que é mais qualificada do que eles são, do que eles alguma vez serão. Jovens que estudaram, licenciaram-se, fizeram mestrados, muitos doutoraram-se e mesmo assim não conseguem encontrar trabalho na sua área de formação. Muitos jovens que acabam cursos com médias elevadas e têm de arranjar emprego muito abaixo das suas qualificações, sujeitando-se a uma precariedade agravada pela crise - os relatos de patrões que, aproveitando a desculpa do clima económico, abusam dos seus direitos, multiplicam-se. Jovens que, na altura em que poderiam ter-se inscrito numa juventude partidária do centrão e terem a garantia de um tacho perpétuo, preferiram estudar, pensando que essa deveria ser não só a melhor maneira de arranjar trabalho, mas sobretudo porque acreditavam que uma formação de excelência seria mais importante do que os conhecimentos em determinados meios.

Ainda assim, há energúmenos que continuam a vergastar esta geração de precários subaproveitados. E depois olhamos para o currículo desta gente, e é o espanto, ou melhor, a confirmação de que os jovens que estudaram estavam redondamente enganados. Desde o primeiro-ministro Passos Coelho, que passou uma vida à sombra de cargos arranjados pelo partido ou pelo padrinho Ângelo Correia, até Miguel Relvas, que subiu na hierarquia política à conta também da sua passagem pela JSD e aproveitando as vantagens que o uso do avental lhe trouxe, há poucos governantes e políticos de destaque cuja carreira política se deva única e exclusivamente ao seu currículo académico ou profissional. E os partidos do centrão - PSD, PS e CDS - continuam a produzir fornadas de inúteis parasitas do Estado (e que não se cansam de pedir menos Estado), forjados nas juventudes partidárias, gente que, se não fosse este cadinho de boys, poucas possibilidades teria de se evidenciar ou ter uma carreira, gente que realmente nunca saiu da "zona de conforto" proporcionada pelos partidos a que pertence.

A última criatura a entrar neste invejável rol é o deputado-maravilha do CDS-PP, Michael Seufert de seu nome, que em entrevista ao P3 volta a exortar os jovens a sairem da sua zona de conforto. A cabeça, para além de sugerir que até aos 30 anos não sejam feitos descontos para a Segurança Social, repete a frase: "É evidente que há pessoas que precisam de sair da sua zona de conforto". E o currículo deste "empreendedor", qual é? A frequência de um mestrado* e uma carreira como jotinha que teve como cúmulo a passagem pela liderança da Juventude Popular. Parece que a principal preocupação deste produto do carreirismo partidário é o empreendedorismo. O que me parece fantasticamente acertado, tendo em conta o percurso profissional de tão brilhante deputado. Sim, são pessoas assim que estão a decidir por nós no parlamento e no Governo. Gente que tem uma opinião sobre a vida das pessoas sem saber minimamente o que é na realidade viver. Uma afronta ao mandato que receberam do povo. Uma vergonha.

*Parece que terá sido uma licenciatura pré-Bolonha que se transformou num mestrado pós-Bolonha com o passar do tempo.

Adenda:
não está em causa, por si só, o currículo de quem quer que seja, nem a escolha de quem se dedica a tempo inteiro a uma carreira política, mas a contradição entre ideias políticas e esse currículo. Não sei como alguém pode ter cara para defender o empreendedorismo quando na sua própria vida não arriscou um milímetro que fosse para além da sua carreira partidária. ...
economia real sem nunca com ela ter contactado e através do prisma do enviesamente ideológico desmiolado.


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