8 comentários:
De Regular a Globaliz.e organiz.Trabalhador a 29 de Junho de 2012 às 14:38

Colin Crouch.
“Precisamos de regular a globalização e organizar melhor os trabalhadores”
(-por António Rodrigues, 28 Jun 2012 , i online)

O cientista político britânico fala ao i sobre a capacidade de sobrevivência do neoliberalismo e a necessidade de regular os mercados

Cunhou o termo pós-democracia que serve para designar aqueles estados que continuam a reger-se pelas regras democráticas mas que progressivamente sentem mais dificuldades para as aplicar. No fundo, os estados passam a estar dependentes da actuação de gigantes empresariais que usam o seu poder de grandes empregadores para forçar os estados e condicionar o seu poder regulador.

A globalização, que não é um mal em si, como sublinha Colin Crouch, veio acentuar esse desequilíbrio nas relações entre governos e as multinacionais que é preciso contrariar através de uma melhor regulação.
No seu livro mais recente, “The Strange Non-Death of Neo-liberalism”, o sociólogo e cientista político britânico analisa a capacidade de sobrevivência do neoliberalismo, capaz de sobreviver até a uma crise económica profunda provocada por um sector financeiro que foi o modelo mais aproximado do mercado livre defendido pelo neoliberalismo que alguma vez existiu.

O mercado é o grande dogma do nosso tempo?

Sim, sem dúvida! Mas é um dogma com muito significados. Por exemplo, num verdadeiro sistema de mercado os estados não salvam bancos da sua própria irresponsabilidade, aos lóbis empresariais não se permite que se misturem tanto com a política e os monopólios seriam desfeitos mais eficientemente do que acontece na prática. Portanto, o mercado é muito mais um slogan para ser usado pelos poderosos quando querem – por exemplo, contra o Estado social – e nunca quando interfere com os seus próprios interesses.

Como é que chegámos à situação em que estamos hoje?

Em parte, temos o problema das políticas keynesianas terem tido dificuldade em lidar com a inflação dos anos 70. Mas, por trás disso, estão mudanças nas relações de poder. A classe operária organizada, cuja insegurança de vida esteve na origem do ímpeto inicial das políticas keynesianas, estava a diminuir de tamanho na maior parte das economias ocidentais; em todo o caso, a globalização começou a tornar o capital menos dependente dos trabalhadores de qualquer país. Portanto, havia um clima favorável para o uso político do mercado.

Haverá alguma possibilidade de, num futuro próximo, mudar aquilo em que a maioria dos economistas e dos políticos acredita agora como sendo inquestionável?

O grande problema é que, apesar do modelo neoliberal ter falhado catastroficamente na crise bancária de 2008, os poderes que estiveram por trás desse falhanço continuam no mesmo sítio. Na verdade, saíram fortalecidos, porque o que os resgates bancários demonstraram foi a dependência que os governos de quase todos os países afectados têm do sector financeiro. E é nesse sector que se pode encontrar o principal apoio aos slogans do mercado. No entanto, existem muito bons argumentos que se podem apresentar contra este modelo, por isso, não devemos cansar-nos de tentar alcançar a mudança.

O seu livro chama-se “The Strange Non-Death of Neoliberalism” e a verdade é que se o neoliberalismo não morre quando fracassou tão estrondosamente, então é porque a sua resistência é muito grande.

O neoliberalismo tem, realmente, uma grande capacidade de adaptação. É uma das suas forças e, na verdade, um dos seus encantos. Por exemplo, o neoliberalismo da Suécia parece muito diferente daquele que existe nos Estados Unidos. É possível construir várias formas de política social positiva e de regulação do mercado num enquadramento básico de aceitação e encorajamento da economia de mercado. O que pode ser alcançado dessa forma transforma-se numa pergunta política; que poder têm as forças que procuram a reforma?

Nesta época de crise económica profunda aquilo que parece estar também em crise é o keynesianismo.

Isto pode ser explicado pelas relações de poder. Mas o keynesianismo nunca morreu realmente e é possível encontrar governos que usam estímulos para incentivar a procura, mesmo quando negam ser isso aquilo que estão a fazer. A grande crise do keynesianismo aconteceu no final dos anos 70, quando os neoliberais insistiam ...


De Colin Crouch ... e neolib a 29 de Junho de 2012 às 14:40
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anos 70, quando os neoliberais insistiam que os governos só tinham de fazer uma coisa: controlar a oferta de dinheiro. Foi essa abordagem que morreu: o grande aumento da dívida privada, a complacência da administração norte-americana em imprimir mais dólares sempre que precisava, o uso de flexibilização quantitativa e de linhas de crédito especiais para os bancos são tudo refutações da teoria monetarista original. Os keynesianos renasceram mas dentro de um enquadramento neoliberal. No entanto, devemos lembrar que o keynesianismo não é sinónimo de governos com dívida crónica, as técnicas keynesianas destinam-se a ser usadas para estimular a economia em alturas de recessão e a ser abandonadas em alturas de inflação; não são feitas para manter elevados níveis de dívida de forma rotineira.

Não concorda, como certos sectores da esquerda, que as empresas multinacionais são a base de todo o mal, porém, não é verdade que grandes conglomerados sem rosto se podem transformar em mundos à parte, trabalhando apenas para os seus accionistas e não cumprindo o seu papel social?

Certamente que não podemos vê-las como a base de todos os males quando ficamos tão contentes ao comprar e usar os seus produtos! Mas é realmente um problema quando exploram o seu poder no mercado para conseguir uma espécie de regulação privada da economia e usam a sua riqueza para agir politicamente de modo a assegurar privilégios dos governos.

Acredita que um melhor controlo da responsabilidade social das empresas pelas instituições públicas e a pressão dos consumidores e dos accionistas será suficiente para mudar esta situação?

Poderá não ser suficiente, mas vale a pena tê-los.

Uma empresa como a Halliburton, que consegue a maior parte dos seus rendimentos com a guerra e a reconstrução depois de um conflito, poderá ser controlada pela pressão dos consumidores?

Boa questão! O seu principal consumidor é o governo norte-americano, junto do qual fazem lóbi com muito sucesso e ao qual também fornecem pessoal. Tem razão; a pressão do consumidor só funciona em sectores onde os consumidores são cidadãos normais e onde os nomes das marcas são importantes, de modo a que uma empresa possa ser envergonhada. Isso deixa de fora uma grande parte da economia – mas também inclui vários sectores.

Não acha que o verdadeiro perigo está em não ter mecanismos que possam regular empresas opacas como a Halliburton?

Não acho que possamos definir o verdadeiro perigo de forma tão precisa. Os problemas dos riscos excessivos assumidos pelo sector financeiro ou o abuso do poder de monopólio por empresas suficientemente grandes para estabelecer padrões globais – para citar dois exemplos – não estão incluídos no modelo Halliburton. O problema é multifacetado.

No seu livro “Post-Democracy” escreveu que “a política e o governo estão a deslizar cada vez mais para o controlo das elites privilegiadas de uma forma que era característica do tempo pré-democrático”. Não é por isso que estamos como estamos?

Sim, realmente. E a causa principal está na mudança nas relações entre capital, trabalho e outros cidadãos que decorre da globalização. Não quero com isto dizer que devemos opor-nos à globalização, tendo em conta que promete melhorias nas condições de vida para milhares de milhões de pessoas no terceiro mundo e também para as pessoas do mundo desenvolvido. Precisamos de regular a globalização e para isso precisamos de melhor organizar os trabalhadores e os outros cidadãos.

Acredita que os governos fizeram tudo o que puderam para proteger a economia dos especuladores financeiros ou será que durante muito tempo preferiu fechar os olhos e deixar que fosse o mercado a regular-se por si mesmo?

Não fizeram. Alguns governos, incluindo o meu no Reino Unido, acreditaram totalmente que desregular o sistema financeiro traria grandes benefícios para todos e que o sector financeiro saberia controlar os seus riscos. Agora que se desmoronou reagem sob grande tensão, sem saber o que fazer. Tendo em conta que o problema se deveu à fraqueza do sistema bancário, os governos passaram a sentir a necessidade de fortalecer o sistema. No entanto, os banqueiros dizem-lhes que isto só pode ser alcançado se lhes for permitido manter a maioria das práticas que provocaram a crise.
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De Gente de Bem, façam algo ! unam-se... a 29 de Junho de 2012 às 14:44

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Não é estranho que as mesmas pessoas que nos trouxeram até aqui, a esta crise, sejam as mesmas que hoje nos estão a dizer como devemos comportar-nos para sair dela?

Completamente! Isso explica o paradoxo do neoliberalismo e as instituições financeiras se terem fortalecido e não enfraquecido com esta crise.
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Edmund Burke disse:

"Tudo o que é previso para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam",

e os homens de bem escasseiam, tanto em número como em vontade de enfrentar essa escória que invariávelmente se apodera do poder de decidir o destino do mundo.


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