Silêncio dos bons ... revolução neo-liberal dos piores
         O silêncio dos condenados  (-por Nuno R. de Almeida, 3.07.2012)
     A elogiada paciência dos portugueses perante a austeridade imposta pelo governo é um dos verdadeiros motivos pela situação de desastre económico em que nos encontramos

     No dia 30 de Junho menos de um milhar de desempregados desfilou em quatro cidades de Portugal. Um dos poucos manifestantes foi interpelado pela comunicação social, tendo afirmado não perceber a razão porque tão pouca gente estava na rua, quando há mais de um milhão e meio de desempregados no país. Nas redes sociais discutiu-se o insucesso dos protestos. Um dos internautas defendeu que “as manifestações não resolvem nada, quem lá foi continuou seguramente sem emprego”. Houve quem respondesse que “se o milhão e quinhentos mil desempregados se tivessem manifestado de certeza que a sua situação não estaria na mesma”.  Ambos tinham razão sobre a falta de razão do outro: as manifestações não têm resolvido nada até agora, aparecendo como uma forma de acção pouco útil para a maioria da população, e parte da sua ineficiência política deve-se ao facto de mobilizarem pouca gente.

     Pensando no ministro Vítor Gaspar e na escassez dos manifestantes vem à memória, com as devidas distâncias para a dicção soporífica do ministro, a celebre citação do poeta William Butler Yeats: “Os melhores perderam toda a convicção enquanto os piores estão cheios de intensa paixão.”

Só assim se percebe que – depois de o governo ter falhado todos os objectivos orçamentais da sua política, conseguindo aumentar o desemprego, diminuir as receitas fiscais e não atalhar o défice, ao mesmo tempo que destruiu grande parte da economia nacional – o primeiro-ministro Passos Coelho insista em soletrar o rumo que lhe é ditado por Berlim. A troika e Gaspar parecem plasmar a célebre fórmula: o Memorando nunca se engana, a realidade é que está errada. A reacção do governo vai ser pavloviana, apesar deste rumo nos ter trazido ao desastre, os governantes vão sublinhar a necessidade de aprofundar o caminho das “reformas estruturais” e a necessidade de fazer mais sacrifícios.

     É óbvio que o falhanço do governo é apenas aparente. O executivo não quis resolver a crise económica, o seu objectivo foi usar a crise económica para fazer uma autêntica revolução conservadora, baixando abruptamente salários e destruindo o pequeno Estado Social existente. A manutenção da crise vai ser usada para forçar ainda mais esta mudança.

Os nossos governantes contam, para isso, com a internacionalmente elogiada “paciência com que os portugueses estão a suportar os sacrifícios”. Ao contrário do que nos garantem, este estado de inacção será mais responsável pelo nosso desastre do que pelo nosso progresso. Não somos um povo de brandos costumes, existem muitos momentos de revolta, violência e insurreição popular na nossa história, mas nos últimos 30 anos aceitámos a construção de um capitalismo clientelar em que o Estado de todos foi espoliado pelos interesses de poucos.

Num país em que os lucros gigantescos das empresas monopolistas e do capital financeiro são privatizados, mas que os prejuízos são pagos pelos contribuintes. O símbolo desse regime económico foi o caso BPN/SLN: todos os portugueses foram obrigados a pagar um buraco financeiro criado por práticas de gestão pouco transparentes e clientelares que cresceram à sombra dos governos do bloco central.

      Portugal precisa de criação de alternativas, mas elas passam pelo crescimento de uma contestação social que torne intolerável no país as políticas da troika e os governos que as servem. É preciso uma ruptura com as práticas e os responsáveis políticos que nos levaram até aqui. Isso não se faz nas negociações de corredor, mas conseguindo tornar impossíveis as políticas desastrosas da austeridade. A alternativa a esta radicalização é mais crise, austeridade e repressão.

      No fim-de-semana passado no final da intervenção policial para impedir a reabertura do edifício da Biblioteca Popular do Marquês, que a Câmara do Porto entaipou, a polícia de intervenção identificou as pessoas que pintavam imagens de livros nos taipais. Uma activista perguntou ao agente da autoridade: “Mas podemos ler histórias às crianças?” Ao que o agente esclareceu: “Para já, ainda podem.” Por enquanto, ainda podemos protestar.



Publicado por Xa2 às 13:47 de 04.07.12 | link do post | comentar |

3 comentários:
De .Incompetentes e culpados...MST. a 5 de Julho de 2012 às 10:42
Há alguns incompetentes, mas poucos inocentes

(-por Miguel S. Tavares, Expresso, via EntraAsBrumasDaMemoria)

O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado?
Como caixa de ressonância daqueles que de quem é porta-voz (tendo há muito deixado de ter voz própria), o presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso, veio alinhar-se com os conselhos da troika sobre Portugal: não há outro caminho que não o de seguir a “solução” da austeridade e acelerar as “reformas estruturais” — descer os custos salariais, liberalizar mais ainda os despedimentos e diminuir o alcance do subsídio de desemprego. Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República.

Durão Barroso é uma espécie de cata-vento da impotência e incompetência dos dirigentes europeus. Todas as semanas ele cheira o vento e vira-se para o lado de onde ele sopra: se os srs. Monti, Draghi, Van Rompuy se mostram vagamente preocupados com o crescimento e o emprego, lá, no alto do edifício europeu, o cata-vento aponta a direcção; se, porém, na semana seguinte, os mesmos senhores mais a srª Merkel repetem que não há vida sem austeridade, recessão e desemprego, o cata-vento vira 180 graus e passa a indicar a direcção oposta. Quando um dia se fizer a triste história destes anos de suicídio europeu, haveremos de perguntar como é que a Europa foi governada e destruída por um clube fechado de irresponsáveis, sem uma direcção, uma ideia, um projecto lógico. Como é que se começou por brincar ao directório castigador para com a Grécia para acabar a fazer implodir tudo em volta. Como é que se conseguiu levar a Lei de Murphy até ao absoluto, fazendo com que tudo o que podia correr mal tivesse corrido mal: o contágio do subprime americano na banca europeia, que era afirmadamente inviável e que estoirou com a Islândia e a Irlanda e colocou a Inglaterra de joelhos; a falência final da Grécia, submetida a um castigo tão exemplar e tão inteligente que só lhe restou a alternativa de negociar com as máfias russas e as Three Gorges chinesas; como é que a tão longamente prevista explosão da bolha imobiliária espanhola acabou por rebentar na cara dos que juravam que a Espanha aguentaria isso e muito mais; como é que as agências de notação, os mercados e a Goldman Sachs puderam livremente atacar a dívida soberana de todos os Estados europeus, excepto a Alemanha, numa estratégia concertada de cerco ao euro, que finalmente tornou toda a Europa insolvente. Ou como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia — e que, oh, espanto, produziu o resultado mais provável: arruinou uma coisa e outra. E como é que, no final de tudo isto, as periferias implodiram e só o centro — isto é, a Alemanha e seus satélites — se viu coberto de mercadorias que os seus parceiros europeus não tinham como comprar e atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam.

Deixemos os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez e detenhamo-nos sobre o nosso pequeno e infeliz exemplo, que nos serve para perceber que nada aconteceu por acaso, mas sim porque umas vezes a incompetência foi demasiada e outras a inocência foi de menos.

O que podemos nós pensar quando o ex-
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De Gov.s .incompetentes e culpados. a 5 de Julho de 2012 às 10:45
Há alguns incompetentes, mas poucos inocentes
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O que podemos nós pensar quando o ex-ministro Teixeira dos Santos ainda consegue jurar que havia um risco sistémico de contágio se não se nacionalizasse aquele covil de bandidos do BPN? Será que todo o restante sistema bancário também assentava na fraude, na evasão fiscal, nos negócios inconfessáveis para amigos, nos bancos-fantasmas em Cabo Verde para esconder dinheiro e toda a restante série de traficâncias que de há muito — de há muito! — se sabia existirem no BPN? E como, com que fundamento, com que ciência, pode continuar a sustentar que a alternativa de encerrar, pura e simplesmente, aquele vão de escada “faria recuar a economia 4%”? Ou que era previsível que a conta da nacionalização para os contribuintes não fosse além dos 700 milhões de euros?

O que poderemos nós pensar quando descobrimos que à despesa declarada e à dívida ocultada pelo dr. Jardim ainda há a somar as facturas escondidas debaixo do tapete, emitidas pelos empreiteiros amigos da “autonomia” e a quem ele prometia conseguir pagar, assim que os ventos de Lisboa lhe soprassem mais favoravelmente?

O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado? Como poderíamos adivinhar que havia uns contratos secretos, escondidos do Tribunal de Contas, em que o Estado garantia aos concessionários das PPP que ganhariam sempre X sem portagens e X+Y com portagens? Mas como poderíamos adivinhá-lo se nos dizem sempre que o Estado tem de recorrer aos serviços de escritórios privados de advocacia (sempre os mesmos), porque, entre os milhares de juristas dos quadros públicos, não há uma meia dúzia que consiga redigir um contrato em que o Estado não seja sempre comido por parvo?

A troika quer reformas estruturais? Ora, imponha ao Governo que faça uma lei retroactiva — sim, retroactiva — que declare a nulidade e renegociação de todos os contratos celebrados pelo Estado com privados em que seja manifesto e reconhecido pelo Tribunal de Contas que só o Estado assumiu riscos, encaixou prejuízos sem correspondência com o negócio e fez figura de anjinho. A Constituição não deixa? Ok, estabeleça-se um imposto extraordinário de 99,9% sobre os lucros excessivos dos contratos de PPP ou outros celebrados com o Estado. Eu conheço vários.

Quer outra reforma, não sei se estrutural ou conjuntural, mas, pelo menos, moral? Obrigue os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos.

Mais uma? Escrevam uma lei que estabeleça que todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras. Bruxelas não deixa? Deixa a Holanda ter um IRC que atrai para lá a sede das nossas empresas do PSI-20, mas não nos deixa baixar parte dos impostos às nossas empresas, numa situação de emergência? OK, Bruxelas que mande então fechar as empresas e despedir os trabalhadores. Cumpra-se a lei!

Outra? Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as “imparidades” a cargo do Estado: quem quiser comprar leva tudo ou não leva nada. E, já agora, que a operação financeira seja obrigatoriamente conduzida pela Caixa Geral de Depósitos (não é para isso que temos um banco público, por enquanto?). O quê, a Caixa não tem vocação ou aptidão para isso? Não me digam! Então, os administradores são pagos como privados, fazem negócios com os grandes grupos privados, até compram acções dos bancos privados e não são capazes de fazer o que os privados fazem? E, quanto à engenharia jurídica, atenta a reiterada falta de vocação e de aptidão dos serviços contratados em outsourcing para defenderem os interesses do cliente Estado, a troika que nos mande uma equipa de juristas para ensinar como se faz.

Tenho ...


De Governantes ... marionetes e culpados. a 5 de Julho de 2012 às 10:48
Há alguns incompetentes, mas poucos inocentes
...

Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado.
A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão (representantes da Troika) cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz.

Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever.


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