Decadência, ideologia neoliberal e desigualdade

        Um ano depois, um governo em decadência    (-por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

   Já todo País percebeu que Miguel Relvas acabará por sair deste governo, nem que seja numa próxima remodelação. Porque já toda a comunicação social percebeu que aquilo é um poço sem fundo de notícias e escândalos. Enquanto se mantiver no governo, todos os ministros estarão limitados. Nuno Crato fala de rigor e o País pensa em Miguel Relvas. Vitor Gaspar fala de sacrifícios partilhados por todos e o País pensa em Miguel Relvas. Pedro Passos Coelho agradece aos portugueses por suportarem as dificuldades e o País pensa em Miguel Relvas. Álvaro Santos Pereira fala de seja o que for e o País ri-se. É o único que consegue fazer esquecer Miguel Relvas. Queira ou não queira, Passos Coelho terá de se ver livre do ministro mais próximo de si.

     Perante a possibilidade de atacar os trabalhadores do privado para tentar compensar a deliberação do Tribunal Constitucional* sobre o assalto aos subsídios dos funcionários públicos, Paulo Portas avisou que é contra. O parceiro da coligação deixa assim claro que quer estar no governo mas não está disposto a pagar a factura do programa que defendeu. Paulo Portas não é Passos Coelho. É um sobrevivente.

(*-Da lucidez  , por Miguel Cardina - De uma penada, o Presidente do Tribunal Constitucional mandou às malvas a interpretação do governo sobre a inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios de férias e de natal aos trabalhadores/as do público - "se fere o princípio da igualdade, é uma questão de estendê-los ao privado" - e colocou o dedo na ferida: é preciso taxar os rendimentos do capital.)

     Ao fim de um ano este governo já se assemelha a um governo em fim de ciclo. As razões parecem ser os pequenos escândalos. Mas isso é apenas a aparência. É a falta de credibilidade do caminho que escolheu para o País que agiganta os casos e degrada a imagem do executivo.

     Ao mesmo tempo, o maior partido da oposição não aparece, aos olhos do eleitorado, como alternativa credível. Nem pode aparecer. Não tem apenas a ver com a falta de carisma de António José Seguro. O PS está encurralado na defesa do memorando da troika. E tudo o que pode dizer será sempre fraco. Porque é, antes de tudo, isso que está em causa: o programa imposto pela troika. Mesmo que teoricamente a maioria dos portugueses ainda acredite que se deve cumprir esse memorando, essa maioria não está, na prática, disponível para pagar o seu preço. E é normal que não esteja. A ideia de cumprir parece-lhe certa, mas sabe que esse cumprimento implica a destruição por décadas de um País.

     Sejamos francos: este impasse não é apenas português. A receita europeia - que a Alemanha manterá por razões que ainda esta semana gostaria de tratar - não vai abrandar. E ela é impossível de aplicar. O resultado, nos países em maiores dificuldades, é que o bloco central que a aceita está a patinar na sua própria cobardia. Os governos sucedem-se e, em poucos meses, estão incrivelmente desgastados. Os ciclos políticos encurtam-se até à impossibilidade de garantir o mínimo de estabilidade política. Por uma razão simples: não há estabilidade política sem estabilidade social.

     Das três uma: ou acontece um milagre na Alemanha e esta muda de rumo, ou surgem, nos países intervencionados, alternativas à troika - dentro ou fora dos partidos de centro-esquerda - que estejam dispostas a romper com este consenso suicida, ou a degradação da vida política nos países mais afetados pela crise levará à descrença absoluta dos cidadãos na democracia.

     Miguel Relvas não é o facto político relevante. É o sinal da rápida degradação de um partido acabado de chegar ao poder para aplicar um programa sem qualquer apoio popular na sua concretização prática. Quem ficar à espera da mera alternância, sem um corte dos socialistas com a política imposta por Merkel, terá grandes desilusões. Um ano depois um governo dessa natureza estaria no mesmo estado em que este está. Se o problema do estado da nossa democracia é mais profundo, também terão de ser mais profundas as mudanças no nosso panorama político. Isto, claro, se queremos que a democracia sobreviva a esta crise. E há sempre quem não queira.

                 O rigor, o privilégio e a impunidade  (-por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

    Rigor pode querer dizer "exatidão, correção, precisão" ou pode querer dizer "dureza, força, severidade". Infelizmente, há uma certa tendência para usar a palavra com o segundo sentido fingindo que é o primeiro que está em causa.   Do ponto de vista ético, escolheria uma definição livre que me agradaria mais: rigor é nunca exigir aos que dependem de nós mais do que exigimos a nós próprios. Infelizmente, em culturas onde a autoridade resulta de um estatuto formal e não de uma liderança reconhecida pela comunidade, esta ideia não medra. Isso nota-se nas empresas, nas salas de aula, nas forças de segurança, nas organizações políticas e no Estado. É rigoroso aquele que exige muito dos outros, independentemente da justiça dessa exigência. É rigoroso o autoritário, não aquele a quem é reconhecida autoridade.    Ouçam como falam a maioria dos patrões. Vejam o que se espera da polícia. Leiam o que se vai escrevendo sobre o que deve ser a nossa escola. Tomem atenção ao que muitos pais dizem sobre o que deve ser a educação dos seus filhos. Notem como falam os governantes. Reparem no gozo narcísico pelo poder discricionário, da mão firme, da punição e do castigo. Aquilo que muitos associam ao rigor parte, na realidade, de uma desconfiança em relação aos outros. E essa desconfiança nasce de uma sociedade sem sentido de comunidade. E essa falta de sentido de comunidade tem como origem a desigualdade social.    Não confiamos uns nos outros porque nos habituámos a viver numa sociedade onde cada um trata de si. Esta é a regra das sociedades desiguais. E é de uma suposta naturalidade desta regra que se alimenta, mesmo que não tenha consciência disso (não sou dos que acham que as convicções de cada um cheguem para definir o seu carácter), a ideologia a que comummente chamamos de neoliberal: a ganância e o egoísmo são inatas ao homem e só elas podem fazer o homem progredir. A associação do mérito à capacidade de passar por cima dos outros é o inevitável resultado da amoralidade do liberalismo simplificado - não o confundo com o original. Mas como até o poder mais arbitrário precisa que os outros lhe reconheçam autoridade, essa amoralidade apenas se aplica a quem detém o poder. É aos que devem obedecer que se aplica o implacável "rigor".    Nada, no comportamento ético da nossa elite política e económica, durante esta crise, é uma mera excrescência do sistema. Faz parte da lógica do "austeritarismo", a verdadeira ideologia dos liberais-conservadores - defensores da liberdade sem limites do poder económico e de um severo autoritarismo do Estado face aos cidadãos. A desigualdade que defendem como inevitável não se aplica apenas ao poder económico de cada um. Ele determina o a desigualdade no cumprimento de determinadas regras sociais. É extensível a todos os domínios da vida. Incluindo na distribuição desigual do rigor.    O problema de Miguel Relvas não é ter menor exigência ética do que terão tantos outros. É não ter seguido o caminho que lhe permitiria conseguir tudo o que tem, cumprindo as regras que a desigualdade instituída lhe garante. Talvez o problema de Relvas seja o mesmo de outros arrivistas. Quem não nasceu em berço de ouro tem de seguir alguns atalhos para conquistar a impunidade como privilégio social. E ao fazê-lo, corre um risco de não medir o seu verdadeiro poder, julgando que está acima da sanção social. Isso é luxo para poucos.



Publicado por Xa2 às 07:55 de 17.07.12 | link do post | comentar |

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