Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

por BAPTISTA-BASTOS

O dr. António Borges é um senhor de meia idade, cabelos ruivos e ralos, carregado de currículo, de patronímicos virtuosos e de tarefas cintilantes. Onde há funções que exijam perícia e frieza, lá está ele a preenchê-las com zelo e vultosas compensações. Em matéria de números, estratégias de lucro, prospectivas financeiras, mercados e juros, o dr. Borges sabe-a toda. Um jornalista de Le Monde, que o estudou, fala de mistério e de oclusão, num livro que está aí, cujo título, O Banco - Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo, e cujo conteúdo é demasiado perturbador para que o ignoremos.

Sobre todos estes tranquilos predicados, o dr. Borges é cristão, formal e brunido, conselheiro do Governo para as privatizações, dedicando-se, claro!, a outros biscates. Em 2011 arrecadou 225 mil euros, fora o que escorre, isentos de impostos. Pois o dr., em declarações a um jornal, foi veemente e irretorquível, na defesa da redução de ordenados.

Disse, entre outras pérolas cristãs e compassivas: "A diminuição de salários, em Portugal, não é uma política, é uma urgência e uma emergência." Apesar da "miséria moral" em que vivemos [Francisco Pinto Balsemão dixit], as ditosas frases não caíram no vazio. Um vendaval de protestos e de indignações cobriu-o e à desvergonha das afirmações. O coro estendeu-se. A bojarda foi execrada por gente do PSD e do CDS, não muita, diga-se de passagem, mesmo assim...

Sorridente e na aparência são, o dr. Pedro Passos Coelho apoiou, com límpido silêncio, as declarações do dr. Borges. Loquaz foi, isso sim, com os procônsules da troika que, entre outras exigências, prescrevem o afastamento dos sindicatos de negociações e uma maior flexibilização das leis do trabalho. Dias antes, no jantar do Conselho Europeu, o governante português, "contrariando Monti, Hollande, Rajoy, Juncker, o FMI e a OCDE, entre muitos outros líderes e instituições, apoiou Angela Merkel contra as euro-obrigações", escreveu (DN, 25 de Maio, pp) o prof. Viriato Soromenho-Marques. Este, com a habitual lucidez, acrescentou: "O escândalo racional da chanceler alemã é, assim, apoiado pelo mistério irracional do comportamento do primeiro-ministro português. A lógica da subserviência tem, na decência, o seu limite moral, e no interesse nacional o seu absoluto limite político. Passos está a rasgar todos os limites."

A situação não é, apenas, política; é, também, moral, como diz o articulista. A história, para muitos de nós, continua a ser uma memória de facínoras, com as linhas de sustentabilidade mantidas por vastos interesses e por jornalistas e comentadores estipendiados. A comunicação de sentido, ao público, é propositadamente ambígua, a fim de salvar as aparências. Esta gente que dirige o País não se recomenda pela decência e pela integridade. É uma "miséria moral".



Publicado por Zurc às 16:34 | link do post | comentar

4 comentários:
De Facadas fiscais a 7 de Setembro de 2012 às 16:53
O DN perguntou ao gabinete do 1º Ministro se poderia confirmar se este teria pedido factura do arrendamento sazonal da casa de férias no Algarve ao que teria sido respondido tratar-se de assunto privado e não envolvendo dinheiros públicos.

É por estas e outras semelhantes é que não se cumpre o equilíbrio orçamental, por mais sacrifícios que se imputem sempre aos mesmos. Já se saber de onde vêm as tão elevadas fugas fiscais!

Ou não fossemos um país muito catooólico “bem prega Frei Tomás não faças o que ele diz faz o que ele faz” na versão modera do provérbio.


De MoKa a 7 de Setembro de 2012 às 17:17
Para ter direito a Fatura era preciso que tivesse pago o alojamento... Se calhar foi daí a não resposta e o incómodo da pergunta. Pois se tudo fosse limpinho a mesma pergunta teria sido uma oportunidade, que qualquer primeiro ministro moralista e empenhado na moralização do país, não teria deixado passar, sem daí fazer um brilharete.
Foi uma brilhante pergunta do DN e uma resposta dececionante do PM. Mas ainda há alguém que esperasse outra coisa? Santa ingenuidade.
E já agora: Repararam que o nosso PM mudou de penteado? Já ripa o cabelo! Agora só lhe falta ir NY comprar o guarda roupa...


De Izanagi a 11 de Setembro de 2012 às 10:59
pergunta pertinente?!
continuamos a andar distraidos com o acessorio. Pertinente!? Desde quando é que se vê um jornalista fazer perguntas pertinentes? Nem no mundo do futebol.
Como diz e concerteza bem, a Pedro Passo Coelho foi-lhe cedida gratuitamente a casa, isto na hipótese de não ser propriedade dele.
Se o "amigo" me cedesse a sua casa de férias para eu passar uns dias, que factura é que me passava?
Não faltam questões de Estado para os jornalistas fazerem perguntas pertinentes, mas essas nunca as ouvimos.


De Izanagi a 11 de Setembro de 2012 às 10:51
o dr António Borges, recentemente despedido do FMI por incompetência, mais não faz do que aproveitar-se da estupidez dos portugueses, porque, sejamos honestos, os culpados não são os políticos ( há mais de 30 anos que são os mesmos a governar: PS; PSD e CDS) mas sim quem os elege. Mesmo agora se houvesse eleições,os eleitos seriam os mesmos e muito provavelmente teríamos no governo individuos que muito recentemente contribuiram por acção ou omissão para a má situação em que se encontra o país.
Não passem o tempo a culpar os políticos e a desculpar os eleitores, isso é comportamento de avestruz, que mete a cabeça na areia.


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