A dívida existe mesmo?

Sei que dívidas tenho. Tenho uma dívida a um banco, contraída para comprar a casa onde moro e garantida por uma hipoteca, que pago mensalmente. E tenho pequenas dívidas pontuais no meu cartão de crédito, que vou saldando conforme me convém.

A maior parte das pessoas que conheço tem uma estrutura de dívida semelhante, que paga com maior ou menor dificuldade, mas vai pagando sempre. De facto, enquanto uma empresa pode ter um limiar de endividamento elevadíssimo, que pode ir subindo para além do sustentável com alguma chantagem ("Se não puder comprar matéria-prima, declaro falência, lanço os trabalhadores no desemprego e os credores ficam a arder!"), os particulares têm em geral de ser mais comedidos (com as óbvias excepções de dirigentes do PSD e amigos de Cavaco Silva, como Dias Loureiro ou Duarte Lima), pois não possuem as mesmas formas de pressão.

Há uns anos, começámos a ouvir falar do volume excessivo da dívida pública (que hoje rondará os 124% do PIB) e disseram-nos que precisávamos de a pagar urgentemente. Devíamos dinheiro a bancos estrangeiros e, como precisávamos de pedir mais dinheiro para as despesas correntes, não podíamos correr o risco de falhar uma prestação dos empréstimos anteriores. Tínhamos vivido acima das nossas possibilidades, disseram-nos. O Governo de Passos Coelho, quebrando as promessas eleitorais, pôs fim aos subsídios de férias e Natal com impostos extraordinários, cortou os nossos salários com aumentos de IRS, cortou subsídios e pensões, aumentou os preços de serviços e fez cortes a eito na saúde e na educação garantindo que a única saída para a crise era empobrecermos. E, como esses cortes não chegariam, também ia ser preciso vender empresas públicas para fazer dinheiro depressa.

Tudo isto, recorde-se, para reduzir a nossa dívida, que gerava défices insustentáveis, já que para pagar mensalidades dos empréstimos antigos se contraíam novos empréstimos a juros mais elevados.

Foi em nome do pagamento desta dívida que nos foram impostos sacrifícios e que se foi sacrificando o Estado social. É em nome do pagamento desta dívida que se vendem os bens do Estado a preço de saldo. É em nome do pagamento desta dívida que se sacrificam os mais pobres, com o argumento de que temos de competir com a mão-de-obra barata da Ásia. É em nome do pagamento desta dívida que se desbaratam os investimentos feitos na educação, na investigação e na tecnologia nos últimos anos. É em nome do pagamento desta dívida que se sacrificam os cuidados de saúde - considerados um luxo incomportável num país endividado como o nosso. É em nome do pagamento desta dívida que se diz aos jovens que emigrem, que se diz aos pobres que não sejam piegas, que se diz aos trabalhadores que têm de ser formiguinhas trabalhadeiras e deixar de cantar canções do Lopes Graça nas manifestações.

Mas que dívida é esta? Para começar, quanto devemos exactamente e a quem? Alguém já viu a lista das dívidas? Quem a certificou? Quem a auditou? Quem são os credores? E devemos de quê? O que comprámos? O que pedimos emprestado? Em que condições? Quando? Quem pediu? Quem recebeu? Onde e quando? Para onde entrou o dinheiro? Para que serviu? Ainda podemos questionar se o dinheiro foi bem gasto ou não. Se serviu principalmente para encher os bolsos das empresas das PPP, da Soares da Costa, da Mota-Engil, do grupo Espírito Santo, do grupo José Mello, se serviu para fazer estádios ou se serviu algum objectivo social meritório, mas antes disso eu gostava de saber se devemos mesmo, a quem, quanto e porquê. E não sei.

É que essa é a informação a que eu tenho acesso na minha hipoteca e no meu cartão de crédito. Essa é a informação que qualquer credor tem de mostrar (e provar) quando exige pagamento. Não há uma operação que eu pague que não venha discriminada nos meus extractos. Mas sobre as dívidas cujo pagamento hipoteca o futuro dos nossos filhos, não nos dão explicações.

Podem dizer-me que são transacções com histórias muito longas, que vêm de longe, que são coisas muito complexas, que não íamos perceber. Mas a verdade é que não existe absolutamente nenhuma razão para que esta informação não nos seja fornecida em todos os detalhes, actualizada e explicada, na Internet, onde toda a gente a possa consultar e auditar.

Podem dizer-me que tenho de confiar naquilo que me diz o Governo, o Banco de Portugal, o Tribunal de Contas. Mas o problema é esse. É que eu não confio. Nem um bocadinho.

E penso que há uns milhões que também não confiam. É que todos sabemos que há vigaristas que se acoitam nos organismos do Estado, a começar pelo Governo, para servir interesses inconfessáveis. Podemos confiar no Banco de Portugal ou no Tribunal de Contas quando ambos se deixam enganar como anjinhos pelas declarações dos administradores do BCP e do BPN ou pelas contas das PPP? Alguém saberá alguma coisa verdadeira sobre a dívida? Na verdade, deveremos alguma coisa?

In Público

 



Publicado por Izanagi às 18:18 de 25.09.12 | link do post | comentar |

5 comentários:
De cosmética para Saquear classe média a 26 de Setembro de 2012 às 09:06
...
Ora, o que prepara o governo é arranjar uma outra cosmética para tudo ficar na mesma.
Uma nova forma de despejar o bolso de quem trabalha por conta de outrém ou já trabalhou para pagar juros da dívida, satisfazer os credores do país.

A propósito, sabe que segundo o Orçamento de Estado de 2012, o montante de juros que o Estado português tem de pagar é de 8823,5 milhões de euros?
.Equivalente a mais de 52% da massa salarial da Função Pública?

Este governo ainda não aprendeu que no final de 2013 a economia do país estará na mesma ou pior.
Não é retirando verbas do circuito económico que a economia muda.
É exactamente o contrário que deve ser feito.
Desenvolvimento não é com este governo.

Agravamento do IRS substitui abandono da TSU - Economia - DN


# posted by Joao Abel de Freitas , PuxaPalavra


De .Pareceres e adjudic.dir., €€€€€ aos ... a 26 de Setembro de 2012 às 09:24
E isto ninguém investiga?

«A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) acusou esta terça-feira o Ministério da Educação de gastar 61 mil euros, por ajuste directo, num parecer jurídico para justificar por que não paga compensações por caducidade de contrato aos docentes.

Em comunicado, a Fenprof divulgou a folha de rosto do parecer que a tutela solicitou em Março à empresa Sérvulo & Associados e pelo qual pagou 61 mil euros, por ajuste directo, e que o ministro Nuno Crato afirmou desconhecer numa reunião mantida com aquela organização sindical, na sexta-feira passada.

O ministro terá mesmo dito à delegação da Fenprof que, se a organização conhecesse tal parecer, devia mostrá-lo ao Ministério, argumentando que a tutela tem os seus próprios serviços jurídicos e não precisa de recorrer a pareceres externos.

A Fenprof acrescenta um ofício, assinado por Nuno Crato, enviado também em Abril ao provedor de Justiça, em que o ministro afirma que, face à recomendação do provedor no sentido de serem pagas as compensações por caducidade de contratos aos professores, pediu "um parecer jurídico a uma conceituada sociedade de advogados sobre o regime aplicável à cessação, por caducidade, de contratos a termo em funções públicas".» [CM]

Parecer do Jumento:

Neste caso o dinheiro conseguido com austeridade brutal foi bem gasto !!!


De .Correligionários SACAM, trabalh.s PAGAM a 26 de Setembro de 2012 às 09:39
Brincar às Fundações

«O Governo anunciou esta terça-feira a extinção de quatro (!!!) fundações, recomendando também a extinção de 13 entidades do mesmo género ligadas a instituições de ensino superior público e 21 outras cuja "competência decisória se encontra cometida" às autarquias locais.

De acordo com o Diário da República, a Fundação Casa de Guimarães, Fundação Museu do Douro, Côa Parque e a Fundação para a Protecção e Gestão das Salinas do Samouco serão extintas.» [CM]

Parecer:

Pensava que iam acabar com fundações a sério,
com as fundações dos grandes escritórios de advogados
ou com o Tea Party do Soares dos Santos,
mas não, andam a acabar com fundações que muito provavelmente não custam um tostão ou que até poderiam ser úteis.
Isto não é austeridade, é uma palhaçada, é gozar com o povo e com o país.

Mas tem uma vantagem, ficamos a saber que os rapazes da troika ou são idiotas
ou estão feitos com a reformatação do país
enquanto este se afunda nas consequências de uma política irresponsável, incompetente e duvidosa.

Despacho do Director-Geral do Palheiro:
«Derrube-se este governo antes que ele derrube o país.»
-----------
Note-se que há centenas !! de FUNDAÇÕES (públicas, privadas, religiosas e em 'parceria/participação'- para além dos CLUBES 'desportivos, recreativos, culturais, .. e milhares de EMPRESAS/ ipss... ), a 'SUGAR' em dinheiros públicos, subsídios, isenções fiscais e outros benefícios ... que os trabalhadores, as famílias e empresas 'normais' não têm.


De De Cavaco e outros... a 25 de Setembro de 2012 às 19:01
Não só foi padrinho como também foi/é pai e mãe, conjuntamente com outros Sócretinos , deste nevoeiro feito de brumas muito confusas e mal definidas que nos enregelam até à medola.

Falta de ética? talvez, mas só da ética moral e natural não de ética convencional de certas irmandades a que se chega independentemente da classe social originaria e que catapultam a quem a elas chegue, ainda que à custa alheia, ao auge , aos píncaros , à gloria de uma classe exclusiva, uma classe porporamente celestial.

E foi assim porquê? pergunto eu.

Foi assim porque, no fundo, mais ou menos inconscientemente, todos sofremos do mesmo fado e todos deixamos passar o tempo que, oscilando entre o imobilismo e o absentismo, uns e outros nos deixamos enredar no horizonte impiedoso das estruturas de consumo e nas garras dos agiotas submersos numa taxa de desvalorização das nossas vidas.


De MoKa a 25 de Setembro de 2012 às 18:36
Devemos?
Ou devem?
É que eu só aceito dever aquilo que sou eu que gasto.
Os que outros gastam não sou eu que devo.
Quem gastou que pague.
E se gastou em meu nome e ou com o meu dinheiro e sbretudo se o gastou de forma danosa ou irregular, então o povo tem que os processar judicialmente.
Se eu que, que sou um cidadão comum, não sou impune nas minhas dívidas e excessos, porque é que quem é «importante» e tem funções relevantes na sociedade (e ganha para isso) há-de ser inimputável?
Alguém me explica?


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